A sequência de acidentes registrada nas últimas semanas voltou a colocar em evidência um dos maiores desafios da mobilidade urbana em Goiânia. Em diferentes pontos da Capital e da Região Metropolitana, motociclistas perderam a vida em colisões que reforçam uma estatística alarmante: atualmente, sete em cada dez mortes no trânsito da cidade envolvem condutores ou passageiros de motocicletas.
Um dos casos mais recentes ocorreu na GO-060, entre Goiânia e Trindade. Fábio Bosco da Silva Filho, de 24 anos, morreu após a motocicleta que conduzia colidir frontalmente contra um Honda HR-V. O impacto destruiu a parte dianteira do veículo e mobilizou equipes do Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (Samu), mas o jovem não resistiu aos ferimentos.
Dias antes, dois motociclistas morreram após uma colisão entre motos no cruzamento das avenidas Alexandre de Moraes e Senador José Rodrigues de Moraes Neto, no Parque Amazônia. As vítimas foram identificadas como Linaldo da Silva Júnior, de 29 anos, e Thierry Santana da Silva Pereira, de 21. Uma jovem de 19 anos, que estava na garupa de uma das motocicletas, foi socorrida em estado grave. Também neste mês, Rubens Caetano Rodrigues, de 66 anos, morreu após outro acidente envolvendo moto no Setor Coimbra na Capital.
Embora tenham ocorrido em circunstâncias diferentes, os acidentes fazem parte de uma realidade que se repete diariamente em Goiânia. Dados do Departamento Estadual de Trânsito de Goiás (Detran-GO) apontam que cerca de 300 mil motos circulam diariamente pela cidade. Em 2025, das 203 mortes registradas no trânsito, 154 tiveram motociclistas como vítimas, o equivalente a 75% do total. Neste ano, até o momento, foram contabilizados 107 óbitos, dos quais 71 envolveram motociclistas, percentual próximo de 70% e superior à média nacional.
Acidentes também sobrecarregam a rede pública
O impacto da violência no trânsito vai além das estatísticas de mortes. Dados do Sistema Único de Saúde (SUS) mostram que, entre janeiro e abril deste ano, 1.698 motociclistas foram internados em hospitais de Goiás após acidentes, média de quase 14 internações por dia. Goiânia lidera o ranking estadual, com 229 hospitalizações, seguida por Anápolis, com 226. O Corpo de Bombeiros Militar também registrou mais de 24 mil ocorrências envolvendo motocicletas em 2025. Apenas neste ano, até o início de julho, já foram mais de 12 mil atendimentos.
Para o especialista em mobilidade Marcos Rothen, a elevada letalidade está relacionada à própria vulnerabilidade da motocicleta, mas também ao comportamento de muitos condutores. Segundo Rothen, diferentemente dos ocupantes de automóveis, motociclistas ficam praticamente sem proteção em caso de colisão. “Quando um acidente ocorre com um carro, a proteção é muito maior. Na motocicleta, quase sempre o condutor sofre algum dano”, afirma.
Rothen avalia que boa parte dos acidentes está ligada ao desrespeito às normas de trânsito. Entre as principais infrações, o especialista cita excesso de velocidade, avanço de sinal vermelho, ultrapassagens pela direita, uso do celular durante a condução e manobras perigosas. Rothen também defende o fortalecimento da fiscalização. “Não basta apenas multar. É preciso retirar de circulação motocicletas irregulares e ampliar a fiscalização. Goiânia precisa reconhecer que esse problema existe e investir mais em educação e controle”, argumenta.
Educação e fiscalização caminham juntas
O gerente de Educação para o Trânsito da Secretaria Municipal de Engenharia de Trânsito (SET), Jairo Souza, destaca que o comportamento de risco continua sendo um dos principais fatores para os acidentes fatais. Segundo Souza, muitos motociclistas insistem em trafegar entre veículos em movimento, avançam sinais vermelhos, utilizam o celular enquanto pilotam e até circulam sobre calçadas, colocando em risco pedestres e outros condutores.
Para reduzir esse cenário, a SET mantém campanhas educativas, realiza pit stops voltados aos motociclistas e promove orientações sobre o uso correto dos equipamentos de segurança e a manutenção das motos. No entanto, Souza ressalta que as ações educativas precisam ser acompanhadas por fiscalização permanente. “Educação e fiscalização devem caminhar juntas. O objetivo é conscientizar, mas também combater comportamentos que colocam vidas em risco”, afirma.
Os especialistas concordam que reduzir o número de mortes depende de uma combinação de medidas. Além de campanhas de conscientização, os profissionais defendem maior fiscalização, respeito às leis de trânsito e mais responsabilidade no trânsito.
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