Bruno Goulart
A candidatura do presidente Lula à reeleição em 2026 reforça uma realidade que acompanha o Partido dos Trabalhadores (PT) há mais de duas décadas: a dificuldade de substituir sua principal liderança política. Aos 80 anos, o presidente continua sendo apontado como o nome mais forte do campo governista, cenário que, para especialistas, demonstra tanto sua força eleitoral quanto os desafios do PT para promover uma renovação interna.
Segundo o mestre em História e especialista em Políticas Públicas Tiago Zancopé, a eventual candidatura de Lula pode ser analisada sob duas perspectivas. A primeira é a permanência de uma liderança que atravessou diferentes momentos da democracia brasileira e segue influente no debate nacional. A segunda é a dificuldade do partido em consolidar um sucessor capaz de reunir o mesmo apoio político e eleitoral.
“Lula continua sendo visto, dentro e fora do PT, como o nome com maior capacidade de mobilização eleitoral”, afirma Zancopé. Na avaliação dele, outros quadros da legenda ainda não conseguiram demonstrar a mesma força nas urnas. Por isso, mesmo após anos no poder e após ter governado o país em três mandatos diferentes, o partido continua recorrendo ao presidente como principal ativo político para as disputas nacionais.
O especialista lembra que o PT já tentou construir alternativas ao protagonismo de Lula. O exemplo mais conhecido foi o da ex-presidente Dilma Rousseff, que chegou ao Palácio do Planalto com o apoio direto do petista. Antes disso, nomes como José Dirceu eram apontados como possíveis herdeiros políticos, mas perderam espaço ao longo dos anos. Mais recentemente, o ministro da Fazenda, Fernando Haddad, passou a ser visto como uma das principais lideranças da legenda.
Sucessão de Lula
Apesar disso, Zancopé avalia que a sucessão continua indefinida. “Ainda não é possível afirmar com segurança se Haddad é, de fato, o sucessor escolhido por Lula ou apenas um dos nomes mais fortes dentro do partido neste momento”, observa. Segundo ele, a relação entre os dois já passou por momentos de grande proximidade, mas também por divergências e críticas públicas.
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Além da discussão sobre a sucessão petista, a presença de Lula na disputa de 2026 também chama atenção por representar uma geração política formada durante a redemocratização do país. O especialista avalia que a próxima eleição pode ser uma das últimas em que lideranças diretamente ligadas à transição democrática ocupem posições centrais na corrida presidencial.
Ao final do atual mandato, Lula terá governado o Brasil por 12 anos, somando os dois mandatos entre 2003 e 2010 e o período iniciado em 2023. A marca o coloca entre os presidentes mais longevos da história republicana brasileira e reforça sua posição como uma das figuras mais influentes da política nacional desde os anos 1980.
Mesmo assim, Zancopé acredita que a idade não será um fator decisivo para os eleitores. Na avaliação dele, questões como economia, emprego, inflação e avaliação do governo devem ter muito mais peso na definição do voto. “Eu não acho que a idade vá pesar de forma decisiva na escolha do eleitor”, afirma.
Para o especialista, a possível candidatura de Lula em 2026 acaba revelando uma contradição. Ao mesmo tempo em que demonstra a força política de uma liderança capaz de permanecer competitiva após décadas na vida pública, também evidencia a dificuldade do PT em preparar uma nova geração de dirigentes com alcance semelhante.


