Em meio às articulações políticas que podem render frutos eleitorais em outubro, o PT tem apostado suas fichas na aproximação com o segmento evangélico como uma das frentes que pode contribuir para a reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva.
Na última segunda-feira (8), o partido organizou o IV Encontro Nacional de Evangélicos e Evangélicas do PT, em Brasília. O evento reuniu lideranças religiosas, parlamentares, pesquisadores, comunicadores e representantes de movimentos sociais. A primeira-dama Rosângela da Silva, a Janja, marcou presença, assim como o presidente nacional da legenda, Edinho Silva.
O tom dos discursos no evento deixou claro que a estratégia petista de aproximação com o segmento visa confrontar a associação imediata dos evangélicos aos setores da direita e evitar a pecha de que o movimento do partido acontece apenas por interesses eleitorais.
Em sua fala, Edinho destacou que o partido não fará disputa política “usando a fé de ninguém”. “Nós não vamos manipular a fé de ninguém. Não vamos fazer disputa político-eleitoral usando a fé de ninguém. Nós temos que construir o espaço de diálogo.” O evento também marcou o lançamento de uma carta do PT aos evangélicos. O documento prega que o compromisso da legenda “não nasce do uso eleitoral na fé”.
Representante do Estado
A vereadora por Goiânia, Aava Santiago (PSB), foi a única parlamentar goiana presente. “Durante muito tempo, falar sobre os evangélicos no Brasil significou ouvir sempre as mesmas vozes. Este encontro mostra que existe uma diversidade enorme dentro das igrejas e que milhões de cristãos defendem a justiça social, o combate à fome, a dignidade humana e os valores democráticos. Nós existimos, estamos organizados e queremos participar da construção dos rumos do País”, disse Aava em seu discurso.
O movimento aconteceu na esteira de declarações recentes de Lula. Na última semana, o presidente da República afirmou que não participa de eventos religiosos em época de eleição por não querer “passar a ideia” de que queira “tirar proveito político de coisa sagrada”.
A fala foi dada durante a “Marcha Para Jesus”, em São Paulo, durante uma ligação por telefone de Lula com o apóstolo Estevam Hernandes, fundador do evento. O contato foi feito por intermédio do advogado-geral da União, Jorge Messias, que é membro da Igreja Batista Cristã de Brasília e um dos principais articuladores da relação do governo com os evangélicos.
Busca às igrejas por capilaridade
Para o doutor em Ciências Sociais pela Universidade de Brasília (UnB) e professor da PUC-GO, Pedro Pietrafesa, os movimentos recentes do partido mostram que a legenda busca aumentar a capilaridade no meio evangélico e frear a atuação dos parlamentares à direita.
“Essa iniciativa busca ampliar o diálogo e a capilaridade do PT junto a um conjunto maior de denominações evangélicas. O objetivo é evitar que o eleitorado evangélico identifique o PT apenas a partir da atuação de lideranças religiosas ligadas a partidos de direita, que hoje possuem presença mais expressiva nesse segmento”, diz o cientista.
Apesar de entender que o partido busca reduzir a percepção de distanciamento dos evangélicos, Pietrafesa diz que “eliminar completamente esse imaginário é difícil”. “Historicamente, existem lideranças evangélicas ligadas ao PT e à esquerda, mas, em termos quantitativos, elas são muito menos numerosas do que aquelas vinculadas aos partidos de direita. Por isso, é importante que o partido mantenha e intensifique esse diálogo e construa uma relação que vá além das eleições de 2026”, destaca o professor.
“Os partidos de direita tiveram, ao longo dos anos, uma presença mais intensa nesse campo, embora isso não signifique que o PT e os partidos de centro-esquerda não tenham qualquer diálogo com esses grupos. Essa interlocução existe, mas em menor intensidade”, afirma Pietrafesa.
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Aumento de evangélicos
Além disso, o professor frisa que a estratégia ganha sentido quando pensado no aumento dos evangélicos na população brasileira. “O fortalecimento dessa presença será importante para o PT nos próximos anos. Manter um diálogo constante com o segmento evangélico contribui para ampliar a interlocução do partido com uma parcela crescente da população brasileira, da mesma forma que ele já possui uma relação historicamente mais consolidada com setores do campo católico” conclui.


