Bruno Goulart
Daqui 4 meses e 9 dias, os brasileiros vão às urnas para escolher presidente da República, governadores, senadores, deputados federais e estaduais. Mesmo sendo uma eleição que define os rumos do País, muita gente ainda acompanha pouco a política e demonstra baixo interesse pelas campanhas eleitorais e pelos próprios candidatos.
A situação levanta uma discussão cada vez mais presente em períodos eleitorais: o brasileiro está mais distante da política ou isso sempre aconteceu? Para especialistas ouvidos pelo O HOJE, o cenário atual mistura fatores históricos, sociais e culturais, além da própria forma como a política é vista pela população.
Afastamento histórico
O advogado eleitoral Bruno Pena diz acreditar que esse afastamento não surgiu agora. Segundo Pena, a própria construção histórica do Brasil ajudou a manter grande parte da população longe das decisões políticas. “O brasileiro ainda não criou intimidade com o processo eleitoral. Isso acontece porque o Brasil foi construído durante muito tempo com uma ideia restrita de cidadania”, afirma.
O profissional do Direito lembra que, nas primeiras experiências eleitorais do País, só podia votar quem comprovasse determinada renda, no chamado voto censitário. O modelo ficou conhecido popularmente como “Constituição da Mandioca”, porque a renda era ligada à posse de terras e produção agrícola.
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Pena aponta que a participação popular sempre foi limitada ao longo da história brasileira. As mulheres conquistaram o direito ao voto apenas em 1932, com a criação da Justiça Eleitoral e do voto secreto. Já os analfabetos só recuperaram o direito de votar em 1985.
O advogado também lembra que o País passou por duas grandes interrupções democráticas desde a Proclamação da República. A primeira aconteceu entre 1930 e 1945, durante o Estado Novo de Getúlio Vargas. A segunda veio com a ditadura militar, de 1964 a 1985.
“Mesmo quando as camadas mais populares começaram a se aproximar do Poder, a democracia acabou sendo interrompida”, avalia. Segundo o advogado, as eleições deste ano marcam o maior período democrático contínuo da história do Brasil, com 37 anos seguidos sem ruptura institucional.
População preocupada com o cotidiano
Já o estrategista político Marcos Marinho tem uma visão diferente. Para Marinho, não é possível dizer que o brasileiro esteja mais distante da política hoje do que no passado. Na avaliação do consultor em marketing político, a maioria da população sempre esteve mais preocupada com o cotidiano do que com o debate político.
“A política nunca esteve no centro das conversas do dia a dia. Sempre existiram grupos que participam mais, acompanham mais e gostam mais do assunto. Mas a maior parte da população está preocupada em trabalhar, pagar contas, cuidar da família e viver a rotina”, afirma.
Segundo Marinho, as novas tecnologias e as redes sociais até ampliaram a participação política nos últimos anos. Hoje, mais pessoas comentam, acompanham notícias e participam de discussões políticas pela internet. “Antigamente isso era muito mais restrito. Hoje qualquer pessoa consegue acompanhar debates, comentar e até influenciar outras pessoas”, diz.
Mesmo assim, o estrategista diz acreditar que a política ainda é vista por muitos brasileiros como algo distante ou desgastante. “O cidadão muitas vezes enxerga a política como um problema. E ninguém gosta de ficar perto de problemas. Então ele presta mais atenção quando aquilo impacta diretamente a vida dele, principalmente no período eleitoral”, explica.
Educação política
Outro ponto citado pelo estrategista é a falta de educação política nas escolas. Para Marinho, a ausência de formação cidadã faz com que muita gente chegue às eleições sem entender exatamente a função dos cargos ou a importância do voto para deputado e senador. (Especial para O HOJE)


