Sem ditaduras nem golpes, o sistema político norte-americano atravessa os séculos imutável. Para falar apenas do atual, em 2000, Al Gore ganhou de George W. Bush nas urnas, mas não levou; em 2016, Hillary Clinton teve mais votos, porém empossou-se Donald Trump. Ninguém contestou, todos obedeceram ao injusto sistema de delegados. Na mais recente eleição, a de 2024, houve uma novidade tão imperiosa quanto a tradição, a de renovar também pela idade. Joe Biden era o presidente e queria ser reeleito aos 81 anos. Seu partido, o Democrata, o apoiou até não dar mais. E cuidou para que não desse. Acabou desistindo em favor de Kamala Harris, então com 57. No Brasil, e em Goiás particularmente, o bastão tem sido passado com critérios aleatórios, daí a falta de reverência não somente aos antepassados, mas ao comportamento que lhes rendeu prestígio.
O fator idade costuma não prevalecer, mas surge em algumas reviravoltas. Na volta das eleições presidenciais, em 1989, dois dos candidatos mais celebrados representavam o regime que saía (Aureliano Chaves, do PFL, 60 anos) e o que entrava (Ulysses Guimarães, do MDB, 73 anos). Perderam para Fernando Collor, do PRN, que fez a campanha quase toda com 39 anos. E não apenas foram derrotados: Ulysses ficou em 7º, com 4,74%; Aureliano, em 9º, com 0,89% — Ronaldo Caiado veio a seguir com 0,72%). No âmbito estadual, em 1998, Iris Rezende, com 64 anos, tinha 14 vezes mais intenções de votos que Marconi Perillo, 34 anos, e acabou perdendo. Nos dois casos, os vencedores não reverenciaram o passado. Pelo contrário. Collor e Marconi xingaram José Sarney e Iris o tempo inteiro, rejeitando qualquer ensinamento.
Agora, Goiás está sendo governado por Daniel Vilela (MDB), de 42 anos. Os presidentes da Assembleia Legislativa e da Câmara de Vereadores de Goiânia, Bruno Peixoto e Romário Policarpo, têm 51 e 38 anos. Das gerações anteriores, o único remanescente é Caiado, que aos 76 anos tenta de novo chegar ao Palácio do Planalto. No seu caso, os dois triunfos para governador foram conseguidos em pleitos contra adversários bem mais jovens. Em 2018, Daniel, o 2º colocado, tinha 35; José Eliton, o 3º, 46. Reelegeu-se quatro anos depois contra Gustavo Mendanha, o 2º, com 39 anos, e Vitor Hugo, o 3º, com 44. Era uma mudança de ciclo, o que menos interessava à sociedade era a data de nascimento.
Agora, o mais novo é Daniel contra Marconi, Wilder e o nome do PT
Em busca da reeleição, Daniel vai enfrentar Marconi (PSDB), agora com 63 anos; Wilder Morais (PL), de 57; e alguém do PT ainda definido. Dos 3, o único que nunca exerceu o Poder Executivo é Wilder, exatamente o que mais administrou, mas no setor privado. Marconi, que tinha idade para ser filho de Iris, agora tem para ser pai de Daniel e irmão mais velho de Wilder. No entanto, as pesquisas passam ao largo desse pormenor.
No caso nacional, o que pesa para Flávio Bolsonaro (PL) subir não é o fato de ter 44 anos e Lula, 80, mas a baixa aprovação do governo. Também fica fora dos debates a quantidade de obras realizadas. Se houvesse essa competição, ninguém em Goiás atualmente venceria Marconi, pois do alto de seus quatro mandatos só pode ser comparado, ainda assim apenas na longevidade no cargo, a Pedro Ludovico Teixeira – que não pode ser comparado a ninguém, afinal, foi ele quem construiu Goiânia, o que o torna hors concours, como Juscelino Kubitschek por ter erguido Brasília e José Wilson Siqueira Campos, autor de Palmas e da independência do Tocantins.
Havia em Siqueira (1928-2023), que foi deputado federal por Goiás, e JK (1902-1976), que compôs a bancada goiana no Senado, um comportamento que inspirou outros políticos de renome que tiveram mandatos em Goiás, o do respeito às pessoas, sobretudo as de fora da política. Iris Rezende (1933 – 2021), pai da vice de Wilder, Ana Paula Rezende, e Maguito Vilela, pai de Daniel e cuja 3ª esposa, Flávia Telles, é a vice de Marconi, atendiam a todos que os procurassem e ordenavam a suas equipes que fizessem o mesmo. Eram atitudes nobres como as dos melhores prefeitos da História de Goiânia, Darci Accorsi (1945-2014), pai da deputada federal Adriana Accorsi, lembrada para competir neste ano para o Governo de Goiás; e Nion Albernaz (1930-2017).
O jornalista Augusto Diniz, colaborador de O HOJE, se lembra da relação de Maguito com a imprensa: “Nunca recusou ligação, era o celular tocar e ele atender”. Na atual safra, o presidente da Saneago acha que é presidente dos Estados Unidos e o presidente da Assembleia tem certeza de ser mais importante que o primeiro-ministro da Rússia. Telefone tocou, olham na bina, não é prefeito de beira de brejo se oferecendo, rejeitam a ligação. A bancada goiana no Congresso Nacional passa pela famosa Síndrome do Beiço de Porco, só se lembra dele em dia de feijoada ruim. E dá uma canseira desgramada entrevistar a maioria desses inúteis.
Uma lição que fica para os pré-candidatos ao Palácio das Esmeraldas
Portanto, a lição que fica para Daniel, Marconi, Wilder, Adriana ou qualquer que seja o candidato do PT é honrar seus antecessores e educar seus auxiliares. Criou-se o vício de ignorar o cidadão e falar só com seus alegados representantes, como os líderes de entidades classistas, como se elas representassem alguém. Em vez de se reunir com a Acieg, o governador deve falar com os empresários sem assento em entidade alguma. Mesma coisa com a população. Maguito no governo (1995-1998), no Senado (1999-2006) e a Prefeitura de Aparecida (2009-2016) era o interlocutor de quem quisesse. E ai do integrante da equipe que ignorasse um cidadão, ou seja, o indivíduo, o pastor como qualquer outro cidadão, o líder comunitário como qualquer outro morador.
Nion Albernaz ordenava o acesso imediato do povo a seu gabinete, encaminhado pelo secretário Sebastião Tejota, hoje conselheiro do Tribunal de Contas do Estado, que reunisse habitantes de Goiânia, à época incluindo Senador Canedo (onde Tejota foi subprefeito). Darci Accorsi tinha paciência de aguentar filas de desvalidos e debates chatíssimos no Orçamento Comunitário, discutindo assuntos da cidade com gente comum do povo. Maguito ficava pouquíssimo em cima de palanque. Descia para conversar com a audiência, podia ser até sobre futebol. Sandro Mabel, o atual prefeito, tem se notabilizado por fazer exatamente o contrário. Portanto, Daniel, Marconi, Wilder e alguém do PT precisam ter como parâmetro o passado – e um passado que se distancia, pois Darci, Nion, Iris e Maguito já não estão aqui para os aconselhar.
(Especial para O HOJE)









