A decisão da Prefeitura de Goiânia de retirar 48 árvores do Parque Lago das Rosas transformou-se em mais uma crise para o prefeito Sandro Mabel (União Brasil). Diante da forte reação de moradores, ambientalistas e especialistas, além da atuação do Ministério Público de Goiás (MP-GO) e da posterior suspensão judicial da medida, o chefe do Executivo municipal não apenas recuou da iniciativa, como também classificou a atuação da Agência Municipal do Meio Ambiente (Amma) como “precipitada”. O episódio, porém, não é isolado. Desde que assumiu o comando da cidade, Mabel colecionou embates públicos com vereadores, atritos com o Legislativo municipal e agora adiciona ao catálogo de crises críticas públicas à presidente da Amma, Zilma Peixoto, indicada pelo chefe do Executivo da Capital ao cargo. Em entrevista coletiva, publicada nas redes do prefeito, Mabel disse que “também reclamaria” da intervenção nos moldes em que estava posto, ao se distanciar da medida apresentada pela Amma. Para o cientista político Lehninger Mota, o episódio revela uma dificuldade da gestão em construir consensos e apresentar previamente justificativas capazes de sustentar decisões que afetam temas sensíveis para a população. Segundo Mota, Mabel iniciou o mandato com a tentativa de consolidar a imagem de um prefeito operacional, inspirado em modelos de gestores que privilegiam ações de impacto e presença constante nas ruas. Mas a estratégia não surtiu o efeito esperado. “Ele entrou na gestão tentando criar uma imagem de um prefeito que não fica no gabinete e que sai para resolver os problemas da cidade. Mas pecou no tom em vários momentos e muitas ações repercutiram mal. Depois disso, houve uma tentativa de mudança de postura”, afirmou à reportagem do O HOJE.
Caso Lago das Rosas
Na avaliação do analista, o episódio que envolve o Lago das Rosas demonstra uma espécie de desorientação administrativa. “Quando o poder público vai realizar uma intervenção desse porte, precisa ter muito embasamento técnico e argumentos claros para apresentar à população. Quando a repercussão negativa aparece, é necessário demonstrar que a decisão foi construída com estudos, viabilidade e planejamento. Isso parece não ter acontecido adequadamente nesses casos”, disse. Mota argumentou que o recuo sugere que o prefeito ainda busca encontrar o tom político de sua gestão. “Mabel ainda não achou o caminho correto. Tem enfrentado embates com a Câmara, críticas de setores da Assembleia e ainda tenta consolidar uma identidade administrativa. O tempo passa rápido e já se foi praticamente um ano e meio de mandato”, frisou. A leitura é reforçada pela contratação da AtlasIntel pela administração municipal para monitorar a percepção dos goianienses sobre ações e projetos da prefeitura durante um ano. A iniciativa, que custará R$ 1 milhão aos cofres públicos, é interpretada como um indicativo da preocupação do Paço com os índices de aprovação do governo e com a recepção popular das medidas adotadas. Leia mais: MDB conduz articulação política enquanto estrutura da pré-campanha de Daniel Vilela ainda está em formação
Tentativa de preservar a própria imagem
Na oposição, o comportamento do prefeito é visto como uma tentativa de preservar a própria imagem diante de desgastes políticos. O vereador Fabrício Rosa (PT) afirma ao O HOJE que não é possível dissociar o chefe do Executivo das decisões tomadas por integrantes de sua equipe. “A tentativa do prefeito de transferir a responsabilidade para a secretária não convence. Secretários não surgem do nada. São escolhidos pelo prefeito, executam a política definida pelo prefeito e respondem à orientação do governo”, avalia. Para o parlamentar, há uma assimetria na forma como o Executivo assume os resultados da administração. “Quando uma medida dá certo, o mérito costuma ser assumido pelo chefe do Executivo. Quando dá errado, é injusto colocar toda a culpa em quem foi nomeado para cumprir uma função”, declara Rosa. Fabrício sustenta que a reação popular ao projeto do Lago das Rosas evidencia uma desconexão entre a prefeitura e a sociedade. “Houve mobilização popular, questionamentos técnicos, atuação do Ministério Público e uma decisão judicial que interrompeu a intervenção. Isso demonstra que a sociedade não concordou com o projeto apresentado.”
Individualização de responsabilidades
O vereador avaliou que a principal questão não está apenas no recuo da prefeitura, mas na tentativa de individualizar responsabilidades dentro da própria gestão. “Governar significa assumir responsabilidades. Não é razoável que o prefeito apareça para colher os aplausos quando algo funciona e desapareça quando uma decisão gera rejeição. Quem ocupa o cargo mais importante da cidade precisa responder pelos atos do próprio governo.”


