Bruno Goulart
O Progressistas enfrenta um momento de desgaste nacional após novas repercussões que envolvem o senador Ciro Nogueira, presidente da legenda. A pressão ocorre em um momento sensível, justamente quando o PP participa das articulações para a eleição presidencial de 2026 e tenta manter espaço nas negociações do campo de centro-direita.
As suspeitas envolvem a relação entre Ciro Nogueira e Daniel Vorcaro, ex-controlador do Banco Master. Segundo informações da investigação, mensagens indicam que Vorcaro teria pagado hospedagem para Nogueira e para o presidente da Câmara, Hugo Motta (Republicanos-PB), em um hotel cinco estrelas em Lisboa, Portugal. Relatório do Conselho de Controle de Atividades Financeiras, o Coaf, também é citado pela Polícia Federal como elemento que reforçaria os “achados referentes às vantagens indevidas recebidas pelo senador”.
Além disso, a Polícia Federal já havia apontado mensagens segundo as quais Vorcaro pagaria uma mesada a Ciro Nogueira. O valor, inicialmente de R$ 300 mil, teria sido reajustado para R$ 500 mil. Na apuração, os investigadores afirmam que o senador teria montado uma rede para ocultar valores ilícitos.
Outro ponto que aumenta o desgaste é a atuação legislativa de Nogueira em temas que poderiam beneficiar o Banco Master. Antes de ser liquidado pelo Banco Central, o banco oferecia papéis com retorno acima do praticado no mercado e usava como atrativo a cobertura do Fundo Garantidor de Créditos, o FGC, limitada a aplicações de até R$ 250 mil. Depois de uma viagem a Lisboa custeada por Vorcaro, Ciro apresentou proposta para elevar essa garantia para R$ 1 milhão. De acordo com a investigação, o texto teria sido redigido pelo próprio Master.
André Mendonça afirma ter recusado proposta de “delação seletiva” ligada a Vorcaro
Com isso, o problema deixa de ser apenas jurídico e passa a ter peso político. O PP tem bancada, tempo de televisão, fundo partidário e presença em vários Estados. Por isso, mesmo desgastado, continua sendo uma peça importante para qualquer candidatura presidencial que tente se viabilizar no campo da centro-direita. A questão, agora, é saber se esse apoio será visto como vantagem eleitoral ou como um risco de imagem.
Desgaste pode ser administrado
Para o mestre em História e especialista em Políticas Públicas Tiago Zancopé, o desgaste nacional existe, mas pode ser administrado politicamente. Segundo Zancopé, o PP ainda tem ativos importantes para oferecer em uma campanha presidencial. “O partido tem bancada, tem tempo de TV e tem fundo partidário. Isso não pode ser desprezado”, avalia. Na visão dele, qualquer candidato pode enxergar o apoio da legenda como um “risco calculado”.
Essa lógica vale especialmente nas discussões sobre a sucessão presidencial. O PP aparece no radar de articulações que envolvem uma possível chapa de centro-direita, inclusive em torno do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ). No entanto, a crise torna esse movimento mais delicado.
Zancopé avalia que, se Flávio Bolsonaro estiver atrás de Lula nas pesquisas, o apoio do PP pode continuar sendo politicamente interessante. O mesmo raciocínio poderia valer para Ronaldo Caiado (PSD), caso o ex-governador goiano recebesse apoio da legenda. Segundo o analista, a tendência seria adotar um discurso de separação entre partido e investigação. “Quem tiver responsabilidade será responsabilizado, e quem for inocente seguirá inocente”, resume.
Ampliar o debate
Além disso, a defesa política do PP pode tentar ampliar o debate para além da legenda. Se nomes de outros campos também aparecerem no radar de investigações, o partido pode usar isso para argumentar que o problema não está restrito a uma única sigla ou a um único grupo político. Na prática, seria uma tentativa de reduzir o custo eleitoral do caso e impedir que o desgaste fique concentrado apenas no Progressistas.
Em Goiás, porém, a leitura é diferente. Para Zancopé, não há, por enquanto, impacto direto sobre o PP goiano. O historiador afirma que o partido no Estado tem dinâmica própria e não deve ser confundido automaticamente com o comando nacional da legenda. “O PP de Goiás é um universo à parte. É um partido controlado pelo Alexandre Baldy, pelo Adriano do Baldy, e tem uma dinâmica própria”, afirma. A reportagem procurou os dois, mas não obteve retorno até o fechamento desta edição. (Especial para O HOJE)
O post Crise de Ciro Nogueira impõe custos ao PP em ano eleitoral apareceu primeiro em O Hoje.
