Bruno Goulart
A possível aliança entre a Federação União Progressista, formada por União Brasil e Progressistas (PP), e o pré-candidato à Presidência da República Flávio Bolsonaro (PL-RJ) ainda está em construção e cercada de incertezas. Embora lideranças de UB e PP sinalizem abertura para apoiar o filho do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL), a condição imposta é clara: Flávio precisaria adotar uma postura mais moderada. No entanto, especialistas avaliam que essa exigência pode ser difícil de cumprir e que a decisão final deve demorar.
Segundo o mestre em História e especialista em Políticas Públicas Tiago Zancopé, o Centrão deve esperar mais alguns meses antes de bater o martelo. A definição, de acordo com Zancopé, pode acontecer apenas entre junho e agosto, período em que os partidos costumam intensificar negociações por causa das convenções eleitorais. “Ainda é cedo para uma decisão. Os partidos estão observando o cenário, como o desgaste do governo, a situação internacional e até o impacto do preço dos combustíveis na popularidade”, explica o historiador ao O HOJE.
Além disso, Zancopé lembra que outros fatores também pesam nessa análise, como, por exemplo, o escândalo do Banco Master, que pode influenciar o humor do eleitor. Por isso, mesmo que União Brasil e PP decidam caminhar com Flávio Bolsonaro e até indicar um nome para vice, esse movimento não deve ser imediato. “É um processo que precisa de tempo. Ninguém quer tomar uma decisão precipitada”, afirma.
Por outro lado, o sociólogo político José Elias faz uma avaliação mais crítica sobre a exigência de moderação. Para o sociólogo, essa expectativa não corresponde à trajetória política do senador. “Esperar de Flávio Bolsonaro uma postura moderada é, no mínimo, ser inocente”, diz José Elias. O cientista social lembra que o próprio pré-candidato já fez declarações duras sobre temas sensíveis, como a anistia, ao afirmar que, caso fosse rejeitada pelo Supremo, poderia recorrer à força na condição de chefe do Executivo.
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Apesar disso, José Elias destaca que o interesse do Centrão não está necessariamente ligado à afinidade ideológica, mas, sim, à estratégia eleitoral. Nesse ponto, o apoio a Flávio Bolsonaro pode fazer sentido, principalmente de olho no segundo turno. “O Centrão quer estar ao lado de quem tem mais chance de vencer. É um grupo pragmático, que busca espaço no governo, independentemente de quem ganhe”, observa.
Nesse cenário, o apoio da federação pode ser decisivo para ampliar a presença de Flávio Bolsonaro no País, principalmente no interior. Isso porque União Brasil e PP têm forte capilaridade nos municípios. “Muita gente vota na pessoa, não no partido. Ter palanque nos municípios e tempo de televisão faz diferença”, explica José Elias.
Assim, a possível aliança pode fortalecer o pré-candidato em uma eventual ida ao segundo turno. No entanto, esse movimento também depende de como a candidatura vai se comportar até lá. Caso o discurso continue mais radical, a adesão do Centrão pode enfrentar resistência interna.
Cenário em Goiás
Quando o foco se volta para Goiás, o cenário muda bastante. Apesar da negociação na esfera nacional, a tendência é que o impacto local seja pequeno. Isso porque União Brasil, PP e também o PSD do ex-governador Ronaldo Caiado fazem oposição ao PL no Estado, o que dificulta uma aliança automática.
Zancopé avalia que, mesmo que a federação declare apoio a Flávio Bolsonaro, dificilmente seus líderes em Goiás vão subir no mesmo palanque do PL. “É muito improvável ver essas lideranças fazendo campanha juntas aqui. O palanque do PL deve continuar isolado”, afirma.
Essa divisão pode gerar situações contraditórias. Um mesmo partido pode apoiar um candidato à Presidência da República e outro grupo na disputa estadual. Para José Elias, isso exigirá do eleitor uma escolha diferente. “Vai ser o chamado voto cruzado. A pessoa vota em um candidato para presidente e em outro para governador”, explica.
Segundo o sociólogo, esse tipo de comportamento já acontece, principalmente entre eleitores menos envolvidos com a polarização política. Ainda assim, pode ser usado como argumento pelos adversários. “O PL pode explorar essa falta de coerência, dizendo que os partidos não têm uma linha clara”, pontua. (Especial para O HOJE)










