A Prefeitura de Goiânia iniciou uma série de intervenções estruturais na Marginal Botafogo com o objetivo de implantar uma terceira faixa de circulação em trechos considerados críticos da via. A medida, que integra o Programa Nova Mobilidade, busca reduzir os gargalos históricos de uma das principais artérias da Capital, responsável por interligar as regiões Sul, Central e Norte. A iniciativa, no entanto, também levanta discussões sobre a efetividade da ampliação da capacidade viária e os possíveis impactos no trânsito de outras regiões da cidade.
Diferentemente de grandes obras de ampliação que demandariam desapropriações, a estratégia da Secretaria de Engenharia de Trânsito (SET) é baseada na otimização do espaço já existente sob pontes e viadutos. Segundo o secretário da SET, Tarcísio Abreu, o principal entrave para a fluidez na Marginal Botafogo está nos pontos de afunilamento da pista.
Atualmente, as defensas metálicas, conhecidas como guard-rails, estão posicionadas a uma distância entre 90 centímetros e 1,20 metro das colunas de sustentação das pontes. A proposta prevê a retirada dessas estruturas e a instalação de novos dispositivos de proteção junto às colunas de concreto. Com isso, será possível ampliar a largura disponível e viabilizar a implantação da terceira faixa nos trechos onde hoje ocorrem retenções frequentes.
Apesar do anúncio oficial realizado pelo prefeito Sandro Mabel, vistorias feitas pela imprensa na tarde de 26 de maio de 2026 não identificaram equipes ou máquinas atuando na via, o que indica que a intervenção ainda se encontra em fase inicial ou de preparação técnica.
A implantação da nova faixa também traz impactos operacionais imediatos, entre eles a eliminação total dos acostamentos ao longo da Marginal Botafogo. A prefeitura argumenta que não existe obrigatoriedade legal para manutenção de acostamentos em vias urbanas marginais, já que essa exigência se aplica apenas às rodovias. Ainda assim, especialistas apontam que a mudança exige atenção redobrada em relação à segurança viária.
Diante da retirada das áreas de escape, a administração municipal estuda reduzir o limite de velocidade da via de 80 km/h para 60 km/h. O especialista em trânsito Marcos Rothen, avalia que a redução é necessária e deveria ocorrer de forma imediata. “Uma via com velocidade elevada sem áreas de escape traz grandes riscos. Qualquer retenção ou pane mecânica, como um pneu furado, forçará o veículo a parar diretamente na pista, o que pode causar acidentes de grande porte”, afirma.
Além da revisão da sinalização, Rothen também defende a realização de campanhas educativas, especialmente voltadas aos motociclistas, para estimular práticas de pilotagem defensiva em uma via que passará a operar com maior densidade de veículos e menos espaço para manobras emergenciais.
Sobre a discussão em torno da efetividade da terceira faixa, o especialista avalia que a medida tende a aumentar a capacidade da Marginal Botafogo no curto prazo, mas pondera que os resultados podem ser limitados sem ações integradas de planejamento urbano.
Segundo Rothen, o crescimento populacional e o aumento da frota podem fazer com que o novo espaço seja rapidamente ocupado caso não haja controle adequado sobre o uso do solo urbano. O especialista cita como exemplos a instalação de grandes supermercados em áreas centrais, atraindo carretas para vias estreitas, e a construção de escolas em regiões já saturadas, como a Rua T-30, no Setor Bueno, sem estudos de impacto de vizinhança considerados suficientes. “Em Goiânia, os interesses pessoais ainda prevalecem e é possível construir quase qualquer coisa em qualquer lugar”, afirma.
Para o especialista, os problemas enfrentados atualmente na Marginal Botafogo refletem também dificuldades relacionadas ao ordenamento urbano e ao planejamento de mobilidade da Capital. A implantação da terceira faixa integra um conjunto maior de intervenções previstas pelo Programa Nova Mobilidade, que inclui outras mudanças no trânsito da cidade.
Entre elas estão os binários no Setor Bueno, com a adoção de sentido único na Rua T-55, no trecho entre a Avenida 85 e a T-3, e na Avenida T-10, no sentido contrário. A medida vem gerando reclamações de comerciantes devido à retirada de vagas de estacionamento e de moradores pelo aumento do fluxo em ruas antes consideradas mais tranquilas.
Outra proposta em estudo é a implantação de uma quarta faixa reversível na Avenida Castelo Branco durante os horários de pico. O projeto prevê o uso de sinalização móvel, como cones e segregadores, e, segundo a prefeitura, testes realizados em 2023 apontaram redução de até 20 minutos no tempo de deslocamento.
A Prefeitura de Goiânia ainda não definiu uma data para a conclusão da terceira faixa na Marginal Botafogo. Após o reposicionamento das defensas metálicas, será necessário executar a nova sinalização horizontal e vertical da via.


