O leilão das parcerias público-privadas (PPPs) da Saneago, previsto para esta quarta-feira (25), foi cancelado após a desclassificação do único grupo interessado no certame. O projeto é considerado um dos principais do setor de saneamento em Goiás para 2026 e previa R$ 6,2 bilhões em investimentos.
O único participante era o consórcio Águas do Cerrado, formado pelas empresas Quebec Ambiental, São Bento Upside e Sistemma. O grupo apresentou proposta apenas para o bloco 2 (região oeste), que prevê investimentos de R$ 1,3 bilhão. Os outros dois lotes não receberam propostas e foram considerados desertos.
De acordo com a ata da comissão de licitação, o consórcio foi desabilitado por não apresentar, dentro do prazo e das exigências do edital, a garantia de proposta. O documento foi enviado por e-mail no dia 20 de março, após a sessão de entrega dos envelopes, o que foi considerado uma falha “objetiva e insanável”.
Sem licitantes habilitados, o bloco 2 foi declarado fracassado. A comissão abriu prazo de um dia útil para eventual manifestação de recurso. Com a ausência de propostas válidas em todos os lotes, o leilão acabou cancelado.
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Em nota, a Saneago confirmou o cancelamento da sessão e informou que, junto ao Governo de Goiás, por meio da Secretaria de Infraestrutura (Seinfra), e ao BNDES, vai avaliar os resultados e dialogar com o mercado para entender os motivos da baixa atratividade e definir os próximos passos.
“A Saneago reforça seu compromisso com a universalização dos seus serviços e a transparência de seus processos”, afirmou a estatal.
O projeto previa transferir à iniciativa privada a operação, manutenção e expansão dos serviços de coleta e tratamento de esgoto em 216 municípios goianos.
Falta de interesse e críticas ao modelo
Empresas do setor já vinham apontando problemas na modelagem do projeto como fator de desinteresse. Grandes companhias como Acciona, Aegea, BRK e GS Inima chegaram a analisar a concessão, mas desistiram de participar.
Entre os principais pontos criticados está o valor de investimento (capex) previsto no edital, considerado abaixo da realidade de mercado. Na prática, isso indicaria que os custos das obras seriam maiores do que o estimado no contrato, impactando diretamente a rentabilidade das empresas.
No modelo proposto, a remuneração das concessionárias seria feita por meio de contraprestação — com uma parte variável, baseada no volume de esgoto coletado e tratado, e outra fixa, destinada a cobrir os investimentos. O critério do leilão era oferecer o maior desconto sobre essa parcela fixa.
Segundo avaliação de empresas do setor, a remuneração não seria suficiente para cobrir os custos de infraestrutura, tornando o projeto economicamente inviável.
Outro ponto considerado crítico foi o escalonamento dos pagamentos. Pelo edital, o parceiro privado não receberia contraprestação no primeiro ano e só teria remuneração integral a partir do nono ano de concessão.
Também geraram preocupação as regras sobre o índice de adesão dos usuários à rede de esgoto. As concessionárias poderiam ser penalizadas caso a população não se conectasse ao sistema, mesmo com a gestão comercial e o estímulo às ligações permanecendo sob responsabilidade da Saneago.
O projeto foi estruturado pelo BNDES, que informou que, diante da ausência de interessados em dois blocos, será realizado um processo de escuta com o mercado para identificar os fatores que reduziram a atratividade da concessão. Segundo relatos de integrantes do setor, o próprio banco já avaliava a necessidade de ajustes na modelagem, embora as decisões finais tenham sido do governo estadual.









