O Ministério da Saúde avalia a incorporação da semaglutida (Wegovy) ao Sistema Único de Saúde (SUS) para o tratamento de adultos com obesidade grave e alto risco cardiovascular. A análise é conduzida pela Comissão Nacional de Incorporação de Tecnologias no SUS (Conitec) e pode ampliar o acesso a um medicamento de última geração voltado não apenas à redução de peso, mas também à prevenção de eventos cardiovasculares, como infarto e acidente vascular cerebral (AVC).
A semaglutida é um análogo sintético do hormônio GLP-1, produzido naturalmente pelo organismo. O medicamento atua em duas frentes: no cérebro, regulando os centros de saciedade e reduzindo o apetite; e no estômago, retardando o esvaziamento gástrico. O mecanismo faz com que o paciente sinta menos fome e alcance a saciedade com menores quantidades de alimento, contribuindo para a diminuição da ingestão calórica.
Funcionamento do medicamento
Especialistas ressaltam, contudo, que o medicamento não deve ser utilizado de forma isolada. O subsecretário de Saúde do Rio de Janeiro, Renato Cony, afirma que a medicação apresenta “baixa eficácia” quando utilizada sem acompanhamento complementar, destacando a necessidade de um atendimento multiprofissional que inclua prática de atividade física e suporte nutricional.
O endocrinologista Matheus Felipe destaca que a eventual incorporação da semaglutida ao SUS ampliaria as possibilidades terapêuticas para pessoas com obesidade. Segundo o especialista, o sistema público já oferece a cirurgia bariátrica como alternativa para casos mais graves, mas a inclusão do medicamento representaria mais uma ferramenta de tratamento. “O SUS já disponibiliza a cirurgia bariátrica para pacientes com obesidade. A semaglutida surge como uma opção terapêutica importante, que pode auxiliar no controle da doença e ampliar as possibilidades de cuidado, especialmente para pacientes que não têm indicação imediata para a cirurgia ou que podem se beneficiar de uma abordagem clínica”, afirma.
Incorporação em análise
A discussão sobre a incorporação do Wegovy ao SUS é marcada por avaliações técnicas e econômicas. Em 2025, a Conitec rejeitou uma proposta anterior devido ao impacto financeiro estimado em até R$ 8 bilhões, uma vez que o pedido previa um público muito mais amplo. Em uma nova tentativa, a farmacêutica Novo Nordisk apresentou uma proposta reformulada, com desconto de 59% em relação à oferta anterior.
A análise atual foi iniciada em maio de 2026 e tem prazo de 180 dias, prorrogáveis por mais 90, para a emissão de um parecer definitivo. Como parte do processo de avaliação, o Ministério da Saúde iniciou um estudo com 250 pacientes no Grupo Hospitalar Conceição, em Porto Alegre. Segundo o ministro da Saúde, Alexandre Padilha, o objetivo é verificar se o medicamento pode preparar pacientes para a cirurgia bariátrica ou até mesmo reduzir a necessidade do procedimento.
Experiências regionais
Enquanto o governo federal analisa a possível incorporação nacional, alguns estados e municípios já adotaram iniciativas próprias. Em março de 2026, Goiás aprovou um protocolo voltado para jovens de 12 a 21 anos diagnosticados com obesidade. A medida foi fundamentada na necessidade de tratar a doença de forma precoce, buscando evitar complicações crônicas na vida adulta.
No modelo adotado em Goiás, o acesso ao tratamento está condicionado à participação do paciente em um programa de acompanhamento multiprofissional. O protocolo também prevê a interrupção do tratamento caso as metas de perda de peso não sejam atingidas. Além de Goiás, o Rio de Janeiro estruturou um programa para atender 3 mil pacientes, inicialmente com foco em pessoas com diabetes, enquanto o Distrito Federal está na fase final de elaboração de protocolos clínicos para aquisição do medicamento.
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Público-alvo e evidências
A proposta atualmente em análise pela Conitec estabelece critérios de elegibilidade mais restritos para garantir melhor relação entre custo e benefício. O público-alvo é composto por adultos com mais de 45 anos, sem diabetes, com Índice de Massa Corporal (IMC) entre 30 e 40 e histórico comprovado de infarto.
O recorte é sustentado pelos resultados do estudo SELECT, realizado com mais de 17 mil participantes. A pesquisa apontou que o uso de 2,4 mg de semaglutida reduziu em 20% o risco combinado de morte cardiovascular, infarto e AVC em pessoas com obesidade e doença cardíaca estabelecida.
Custos e impacto no SUS
O custo do medicamento permanece no centro do debate. A Novo Nordisk sugeriu valores entre R$ 396,88 e R$ 764,64 por dose, a depender da apresentação. A estimativa é de que o impacto anual para o SUS fique entre R$ 500 milhões e R$ 650 milhões. Gestores da saúde argumentam, entretanto, que o investimento pode ser compensado pela redução de internações e procedimentos de alta complexidade.
Dados técnicos da Conitec indicam que as complicações relacionadas à obesidade geram elevados custos ao sistema público de saúde. Um único episódio de AVC custa R$ 57.910,20. Uma cirurgia de revascularização do miocárdio tem custo de R$ 41.185,34. Já o tratamento por diálise supera R$ 72 mil no primeiro ano.
Acesso e equidade
Diante desse cenário, especialistas, entre os quais a endocrinologista Maria Fernanda Barca, defendem que a ampliação do acesso ao tratamento representa uma medida de equidade, ao possibilitar que a população de baixa renda tenha acesso a uma alternativa clínica moderna além da cirurgia bariátrica.
A expectativa agora está concentrada na conclusão do estudo realizado no Rio Grande do Sul e na decisão da Conitec sobre a incorporação da semaglutida ao SUS.
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