A morte da professora Valdirene Vaz Clemente, de 42 anos, assassinada pelo ex-marido ao sair de um encontro religioso em Bom Jesus de Goiás, no último dia 20 de julho, voltou a colocar em evidência a violência contra a mulher no Estado. Mesmo com medida protetiva de urgência, Valdirene foi morta a tiros pelo agressor, que já respondia por ameaça e lesão corporal e, em seguida, tirou a própria vida.
O caso não foi isolado. Em junho, a operadora de caixa Tânia Maria Ribeiro de Oliveira, de 63 anos, foi encontrada morta dentro de casa, em Itumbiara, dias após desaparecer. O companheiro confessou o crime em mensagens enviadas à família. Em Ouvidor, a diarista Daniele Aline de Souza Silva, de 36 anos, também foi assassinada dentro da própria residência. O principal suspeito é o companheiro da vítima, um adolescente de 17 anos, apreendido após confessar o crime.
Os episódios refletem uma realidade que coloca Goiás na contramão do restante do País. Dados do Ministério da Justiça e Segurança Pública mostram que o Brasil registrou 741 vítimas de feminicídio entre janeiro e junho de 2026, redução de 2,5% em relação ao mesmo período do ano passado.
Em Goiás, porém, ocorreu o movimento inverso: o número de casos cresceu 113,6%, o maior aumento percentual do País com 47 feminicídios de janeiro a junho de 2026. Além do Estado, apenas Sergipe, Amazonas, Santa Catarina, Paraná, Amapá, Rio Grande do Sul, São Paulo e Rio Grande do Norte registraram alta.
O cenário levanta questionamentos sobre a efetividade das políticas públicas de prevenção e proteção às mulheres e reforça a necessidade de compreender por que Goiás segue ampliando os índices enquanto a maior parte do País registra queda.
Mais denúncias e uma rede de proteção sobrecarregada
O crescimento dos feminicídios ocorre paralelamente ao aumento da procura por ajuda. Entre janeiro e meados de julho deste ano, o Tribunal de Justiça de Goiás (TJGO) concedeu 10,7 mil medidas protetivas de urgência, o equivalente a uma nova proteção judicial a cada 30 minutos. As mulheres contempladas passam a ser acompanhadas pelo Batalhão Maria da Penha.
Mesmo assim, o risco permanece elevado. Segundo dados da Secretaria de Estado da Segurança Pública (SSP-GO), dos 60 feminicídios registrados em Goiás em 2025, quatro vítimas possuíam acompanhamento do Batalhão Maria da Penha, que realizou mais de dois mil atendimentos ao longo do ano.
Para a coordenadora da Ouvidoria da Mulher da Câmara de Goiânia, Maria Clara Dunck, o aumento da procura por atendimento já indicava, desde o início de 2026, que a situação seria mais grave. Segundo Maria Clara, o programa Acolha uma Mulher, que oferece atendimento psicológico gratuito por meio de uma rede de voluntárias, enfrenta a maior fila de espera desde sua criação.
A coordenadora afirma que o crescimento da demanda demonstra que mais mulheres reconhecem a violência e buscam apoio, mas evidencia que a estrutura pública não consegue atender todas as solicitações.
“As mulheres já sabem onde procurar ajuda, mas o direito ao atendimento psicológico e ao acolhimento integral previsto na Lei Maria da Penha não está sendo garantido. A rede de proteção está sobrecarregada”, afirma.
Segundo Maria Clara, órgãos como CRAS, CREAS e o Centro de Referência de Atendimento à Mulher (Cram) operam acima da capacidade por falta de psicólogos, assistentes sociais e equipes multidisciplinares. A coordenadora da ouvidoria também aponta a demora na conclusão da Casa da Mulher Brasileira, em Goiânia, como um dos entraves para ampliar a assistência às vítimas.
Rede fragilizada amplia risco de feminicídios, dizem especialistas
Para o advogado criminalista e professor de Direito Penal Amaury Andrade, o crescimento dos feminicídios em Goiás demonstra que o principal desafio não está na criação de novas leis, mas na efetividade das políticas já existentes. Segundo Andrade, o Brasil possui uma das legislações mais avançadas no enfrentamento à violência contra a mulher, porém ainda enfrenta dificuldades para garantir proteção às vítimas.
“Mesmo após quase duas décadas da Lei Maria da Penha e mais de oito anos da Lei do Feminicídio, o País continua entre os que mais matam mulheres no mundo. O problema não é a falta de legislação, mas a efetividade das medidas de proteção”, afirma.
Na avaliação do especialista, muitas vítimas conseguem denunciar os agressores e obter medidas protetivas, mas permanecem vulneráveis pela demora na resposta do Estado. O advogado defende que casos de violência doméstica sejam tratados como situações de emergência, com maior agilidade na análise dos pedidos, monitoramento constante das medidas judiciais e fortalecimento das patrulhas especializadas.
Amaury também considera fundamental ampliar o uso de tornozeleiras eletrônicas em agressores, desde que o equipamento esteja integrado a sistemas capazes de acionar imediatamente as forças de segurança quando houver descumprimento das determinações judiciais.
Maria Clara Dunck reforça que o enfrentamento ao feminicídio depende da atuação conjunta de diferentes setores do poder público. Para a coordenadora da ouvidoria, segurança, Justiça, assistência social, saúde, educação e habitação precisam funcionar de forma integrada para romper o ciclo da violência.
A coordenadora também alerta para o déficit de profissionais nas delegacias especializadas, a dificuldade de oferecer atendimento psicológico contínuo e a necessidade de ampliar as Patrulhas Maria da Penha. Segundo Maria Clara, quando a mulher procura ajuda e não encontra uma estrutura capaz de acolhê-la rapidamente, o risco de que a violência evolua aumenta.
“A violência doméstica geralmente começa com agressões psicológicas, ameaças e controle. Se o atendimento demora ou não acontece de forma adequada, o agressor continua tendo oportunidade para praticar o feminicídio”, ressalta.
Entre as prioridades
Em nota, a Secretaria de Estado da Segurança Pública de Goiás (SSP-GO) informou que o enfrentamento à violência contra a mulher permanece entre as prioridades das forças de segurança.
A pasta destacou a realização de operações permanentes de combate à violência doméstica, o cumprimento de mandados de prisão contra agressores, o acompanhamento de medidas protetivas, ações preventivas e educativas, além da atuação integrada com o Poder Judiciário, o Ministério Público e a Secretaria de Estado de Desenvolvimento Social.
A secretaria também afirmou que todas as ocorrências são investigadas e que continuará intensificando as ações de prevenção, repressão qualificada e proteção às mulheres.
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