O mercado imobiliário de Goiânia registra crescimento nas vendas em 2026, mas representantes do setor afirmam que a demora na aprovação de projetos pela Prefeitura de Goiânia tem dificultado a expansão dos empreendimentos e a ampliação da oferta habitacional na capital.
Dados da pesquisa de consolidação da Associação das Empresas do Mercado Imobiliário de Goiás (Ademi-GO) mostram que, no primeiro trimestre de 2026, foram comercializados 2.882 imóveis residenciais em Goiânia, alta de 12,7% em relação ao mesmo período de 2025. O resultado supera a média nacional, que ficou em 4,1%, e coloca a capital entre os mercados imobiliários com maior crescimento do país.
A expansão das vendas também impactou os preços dos imóveis. O valor médio do metro quadrado avançou 3,6% nos três primeiros meses do ano, chegando a R$ 10.914. No Setor Marista, o índice alcançou R$ 13.462 por metro quadrado. Já nos setores Bueno, Oeste e Jardim Goiás, a média foi de R$ 12.881. Segundo o diretor da Ademi-GO, Credson Batista, a valorização dos imóveis deve encerrar o ano acima da taxa Selic.
Apesar dos resultados positivos, representantes do mercado avaliam que o desempenho poderia ser maior caso os processos de licenciamento e aprovação de projetos ocorressem com mais rapidez. O presidente da Ademi-GO, Felipe Melazzo, afirma que consultas realizadas junto às empresas associadas indicam que o tempo médio para aprovação de empreendimentos chegou a dobrar em comparação com a gestão municipal anterior.
De acordo com Melazzo, a demora reduz a capacidade de lançamento de novos empreendimentos e gera impactos sobre a economia local. A construção civil respondeu por 11% dos novos postos de trabalho criados em Goiânia no primeiro trimestre de 2026. Para ele, a lentidão nos processos administrativos compromete a geração de empregos e reduz a previsibilidade necessária para os investimentos. “Quando o licenciamento trava, o emprego trava junto”, afirma.
A preocupação também é compartilhada por profissionais ligados ao planejamento urbano. Em maio de 2026, o Conselho de Arquitetura e Urbanismo (CAU) encaminhou um ofício à Prefeitura de Goiânia relatando dificuldades enfrentadas por arquitetos e urbanistas nos processos de análise e aprovação de projetos. Segundo a entidade, os entraves afetam profissionais e empreendedores que dependem da tramitação municipal.
A Ademi-GO também destaca o desempenho do programa Minha Casa Minha Vida (MCMV) na capital. Enquanto 49% das vendas do mercado imobiliário nacional ocorreram dentro do programa habitacional e, na região Sudeste, o índice alcançou 56%, em Goiânia apenas 26% das unidades comercializadas no primeiro trimestre estavam enquadradas na modalidade. O percentual representa menos de 750 imóveis vendidos.
Os dados mostram ainda que a oferta voltada às famílias de menor renda avançou em ritmo inferior ao restante do mercado. Os lançamentos do programa passaram de 904 para 928 unidades, crescimento de 2%. No mesmo período, o total de lançamentos imobiliários da capital aumentou 15,8%. Segundo Credson Batista, a diferença demonstra que Goiânia não tem acompanhado o crescimento dos investimentos federais destinados ao programa habitacional.
Para representantes da entidade, a demora na aprovação de projetos contribui para limitar a ampliação da oferta de moradias populares. A avaliação é de que a capital poderia absorver parcela maior dos recursos federais disponíveis caso os empreendimentos fossem analisados mais rapidamente.
Legenda: Expansão da construção civil reacende debate sobre agilidade nos licenciamentos e capacidade da infraestrutura urbana de acompanhar o adensamento da cidade | Foto: Fernando Frazão/ABr
Revisão do Plano Diretor
Além das questões relacionadas ao licenciamento, o setor acompanha os impactos da revisão do Plano Diretor, instituída pela Lei Complementar nº 349/2022. Segundo o presidente do Conselho da Ademi-GO, Fernando Razuk, a legislação reduziu o potencial construtivo de 10 para 7,5 vezes em diversas áreas da cidade.
Na prática, afirma Razuk, locais onde anteriormente era possível construir 100 unidades habitacionais passaram a comportar 75. A mudança impacta os custos dos empreendimentos, uma vez que o valor dos terrenos passa a ser dividido por um número menor de imóveis. A estimativa apresentada pela entidade aponta aumento de aproximadamente 33% no custo final relacionado à aquisição dos terrenos.
O setor também monitora desafios nacionais que podem afetar a atividade da construção civil. Entre eles estão a escassez de mão de obra qualificada, os possíveis impactos de mudanças nas regras de jornada de trabalho sobre a produtividade e os efeitos da reforma tributária sobre os custos dos empreendimentos.
Plano Diretor prevê modernização, mas cidade tem desafios de infraestrutura
Enquanto representantes do mercado defendem maior agilidade na análise de projetos, especialistas em urbanismo chamam atenção para os impactos da expansão imobiliária sobre a infraestrutura da capital. O arquiteto e urbanista Fred Le Blue, integrante do GT GYN 2030 e do movimento Arquitetura e Humanismo, afirma que Goiânia enfrenta desafios relacionados ao abastecimento de água, esgotamento sanitário, drenagem urbana e mobilidade.
Segundo ele, o aumento da verticalização em áreas já adensadas pode ampliar a pressão sobre os sistemas urbanos existentes. O especialista destaca ainda que a expansão construtiva pode intensificar fenômenos como ilhas de calor e impermeabilização do solo, fatores associados a problemas de drenagem e ao aumento das temperaturas urbanas.
Para Fred Le Blue, o debate sobre o crescimento imobiliário deve considerar a oferta habitacional e a capacidade da infraestrutura urbana de acompanhar esse desenvolvimento. Segundo ele, a cidade precisa discutir os limites do adensamento em determinadas regiões e os impactos desse processo sobre a qualidade de vida da população.
O arquiteto afirma que bairros com forte concentração de edifícios já apresentam sinais de pressão sobre os sistemas urbanos e defende que o crescimento seja acompanhado por investimentos em mobilidade, drenagem, arborização e infraestrutura básica. Na avaliação dele, políticas voltadas ao fortalecimento de cidades médias da região, como Anápolis, também podem contribuir para uma distribuição mais equilibrada do crescimento populacional e econômico.
A discussão ocorre em um contexto em que o próprio Plano Diretor estabelece medidas voltadas à modernização da gestão urbana. A Lei Complementar nº 349/2022 prevê a capacitação e requalificação do quadro funcional e tecnológico do município para implementação das diretrizes urbanísticas.
O artigo 83 da norma estabelece a adoção de instrumentos destinados a ampliar a eficiência da gestão pública municipal. Entre os mecanismos previstos estão a modernização administrativa, o fortalecimento da capacidade técnica dos órgãos de planejamento urbano e a adoção de ferramentas tecnológicas.
A legislação também institui o Programa de Desburocratização para Abertura e Regularização de Empresas e prevê a utilização de mecanismos de autodeclaração para simplificar procedimentos administrativos. O artigo 118 estabelece prazos para que proprietários de vazios urbanos apresentem projetos após notificação do poder público, com o objetivo de estimular o aproveitamento do solo urbano.
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