Goiânia, conhecida nacionalmente pela elevada cobertura vegetal, vive em 2026 um período de expansão imobiliária acompanhado por debates sobre mobilidade urbana, infraestrutura, preservação ambiental e planejamento territorial. Enquanto o mercado imobiliário registra crescimento acima da média nacional, especialistas alertam para desafios relacionados à capacidade da cidade de absorver esse desenvolvimento sem comprometer a qualidade de vida da população.
Dados do setor apontam que as vendas de imóveis cresceram em ritmo três vezes superior à média brasileira no primeiro trimestre do ano. Diante desse cenário, urbanistas defendem que as políticas públicas priorizem a gestão cotidiana da cidade, com investimentos em transporte público, manutenção dos espaços urbanos, saneamento e preservação ambiental.
Entre as principais preocupações está a mobilidade urbana. Goiânia registra aproximadamente 1,5 veículo por habitante, índice que, segundo especialistas, evidencia a forte dependência do transporte individual. O arquiteto e urbanista Fred Le Blue afirma que ainda prevalece uma orientação voltada ao automóvel, com priorização da abertura de vias e intervenções destinadas a ampliar a circulação de carros.
O professor Glauco Gonçalves, da Universidade Federal de Goiás (UFG), avalia que a ampliação contínua da infraestrutura viária não resolve os problemas de congestionamento. De acordo com ele, experiências internacionais demonstram que o aumento da capacidade das vias tende a atrair mais veículos, reproduzindo os mesmos problemas em curto prazo. Nesse contexto, especialistas como Erika Kneib defendem o fortalecimento do transporte coletivo e dos modais não motorizados.
Entre as medidas apontadas como necessárias estão a implantação de corredores exclusivos de ônibus, a expansão de sistemas de transporte de média e alta capacidade, como o Veículo Leve sobre Trilhos (VLT), e a criação de uma rede integrada de ciclovias. A avaliação é que a oferta de alternativas eficientes ao automóvel é fundamental para reduzir a pressão sobre o sistema viário.
A discussão também envolve a conservação dos espaços públicos. Urbanistas observam que parques, praças e áreas de convivência demandam manutenção contínua para garantir sua utilização pela população. Segundo eles, a qualidade de vida urbana está diretamente relacionada à conservação desses ambientes.
Os especialistas destacam ainda a necessidade de preservar elementos que compõem a identidade histórica da Capital, como o conjunto Art Déco do Centro e o desenho urbanístico do Setor Sul. Para eles, a preservação desses espaços deve ocorrer paralelamente ao crescimento urbano.
Outro tema considerado estratégico é o saneamento. O Plano Diretor, instituído pela Lei Complementar nº 349/2022, prevê ações voltadas à gestão integrada de resíduos sólidos e à drenagem urbana. As medidas buscam reduzir impactos provocados pela impermeabilização do solo e minimizar ocorrências de alagamentos.
Goiânia possui cerca de 94 metros quadrados de área verde por habitante, índice frequentemente citado como um dos maiores do País. Especialistas alertam, porém, para a necessidade de preservar esse patrimônio diante do avanço da urbanização. Nesse contexto, propostas como a abertura de vias no interior do Parque Flamboyant para ampliação da circulação viária recebem críticas de órgãos ambientais e profissionais da área.
Além do valor paisagístico, as áreas verdes desempenham funções relacionadas à drenagem urbana e à redução das temperaturas locais. Glauco Gonçalves defende a criação de parques lineares ao longo de rios e córregos, integrando preservação ambiental e planejamento urbano.
Legenda: Transporte coletivo, áreas verdes e ocupação territorial aparecem entre os principais temas do debate sobre o desenvolvimento de Goiânia | Foto: Shutterstock
Verticalização desordenada e os vazios urbanos
O crescimento imobiliário também levanta questionamentos sobre a capacidade de infraestrutura da cidade. Em 2026, o valor médio do metro quadrado alcançou R$ 10.914 em Goiânia, superando R$ 13 mil no Setor Marista. Especialistas avaliam que o adensamento em áreas já consolidadas exige investimentos proporcionais em mobilidade, saneamento e serviços urbanos para evitar sobrecarga das redes existentes.
Como resposta a esse desafio, o planejamento territorial do município prevê a adoção do conceito de compacidade urbana. A proposta busca concentrar o crescimento populacional nos Eixos de Desenvolvimento atendidos por transporte público, reduzindo a expansão dispersa da cidade. O Plano Diretor também prevê mecanismos para combater os vazios urbanos, formados por terrenos ociosos localizados em regiões já dotadas de infraestrutura.
Outra estratégia debatida por especialistas é o fortalecimento das chamadas microcentralidades. O conceito propõe aproximar moradia, trabalho, comércio, serviços e lazer, permitindo que a população realize deslocamentos mais curtos, preferencialmente a pé ou de bicicleta.
Nesse contexto, o programa Morar no Centro, proposto pela atual gestão municipal, pretende atrair 10 mil novos moradores para a região central por meio de incentivos como subsídios ao aluguel e isenção de IPTU. A proposta busca aproveitar a infraestrutura já instalada, embora especialistas ressaltem a necessidade de melhorias em áreas como segurança e saúde para ampliar a atratividade da região.
A modernização da administração pública também integra as diretrizes do planejamento municipal. O Sistema de Modernização Administrativa previsto no Plano Diretor tem como objetivo ampliar o uso de ferramentas tecnológicas na gestão pública.
Entre as aplicações previstas estão o monitoramento do trânsito em tempo real, a integração de sistemas de segurança pública e a digitalização de processos administrativos. A expectativa é tornar mais ágil o licenciamento de empreendimentos e aumentar a transparência dos procedimentos.
Para especialistas ouvidos ao longo do debate sobre o futuro da Capital, temas como mobilidade, preservação ambiental, manutenção urbana, saneamento, adensamento populacional e participação social estarão entre os principais desafios do desenvolvimento de Goiânia nos próximos anos. Segundo Fred Le Blue, o crescimento da cidade exige planejamento capaz de conciliar expansão imobiliária, preservação do patrimônio urbano e qualidade de vida da população.
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