O debate sobre o uso de inteligência artificial (IA) nas eleições ganhou novos contornos para a disputa de 2026. Em comparação com as eleições municipais de 2024, as primeiras realizadas após a popularização das ferramentas de IA generativa, capazes de produzir imagens, vídeos, áudios e textos quase que instantaneamente, o próximo pleito ocorrerá em um ambiente tecnológico mais sofisticado e com desafios ainda maiores para a fiscalização da Justiça Eleitoral.
A preocupação levou o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) a regulamentar o uso da inteligência artificial na propaganda eleitoral. Entre as medidas adotadas estão a obrigatoriedade de identificação de conteúdos produzidos ou alterados por IA, a proibição do uso de deepfakes para manipular a imagem ou a voz de candidatos e a previsão de punições que podem chegar à cassação do mandato em casos graves.
Apesar das restrições, especialistas ouvidos pela reportagem do O HOJE avaliam que as normas representam apenas parte da solução para um problema que evolui em ritmo acelerado.
O sociólogo e especialista em comunicação política Marcelo Senise afirma que a utilização da inteligência artificial nas eleições deste ano ocorrerá em um patamar superior ao observado há dois anos. “Em 2024, a inteligência artificial ainda aparecia muito como experimento, novidade e teste de capacidade. Agora, ela entra no processo eleitoral como arma estratégica de escala, com muito mais sofisticação, velocidade e poder de dano”, avalia.
Segundo Senise, a tecnologia deixou de ser uma ferramenta acessória e passou a integrar a própria estrutura das campanhas e das disputas narrativas. “Hoje ela pode ser usada para segmentar emoções, personalizar ataques, clonar voz, fabricar vídeos, adulterar contextos e acelerar operações de desinformação em escala industrial. Estamos diante de uma mudança de patamar no risco eleitoral”, observa.
Limites práticos
Para o advogado eleitoral Dyogo Crosara, as regras criadas pelo TSE são importantes, mas encontram limites práticos diante da velocidade da circulação de informações nas redes sociais.
“Não existem muitos outros instrumentos que poderiam melhorar ou combater o uso das fake news. A velocidade da informação e a velocidade com que hoje se cria um conteúdo nas redes sociais com a IA generativa é infinitamente superior à velocidade da própria possibilidade de controle pelo Judiciário”, explica Crosara.
Senise também considera as medidas insuficientes para blindar completamente os eleitores da desinformação. Para o especialista, a ausência de uma regulamentação mais ampla por parte do Congresso Nacional acabou transferindo à Justiça Eleitoral uma responsabilidade que extrapola suas atribuições.
“As normativas do TSE se parecem com um band-aid tentando estancar uma hemorragia. Elas ajudam a conter partes do problema, mas estão longe de enfrentar o tamanho real da ameaça”, afirma Senise.
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“Ponto de partida corajoso”
A avaliação é semelhante à do advogado eleitoralista Júlio Meirelles. Segundo Meirelles, as regras representam “um ponto de partida corajoso”, mas o sucesso do combate à desinformação dependerá da capacidade de adaptação da Justiça Eleitoral.
“As punições são severas e podem levar à perda do mandato. O problema real é prático. A Justiça Eleitoral não conseguirá ser mais rápida do que o uso da desinformação. O grande desafio será provar a autoria e o dano a tempo, antes que o estrago na reputação do candidato seja irreversível”, avalia Meirelles.
Polarização Lula x Flávio
Outro fator que preocupa especialistas é a polarização entre o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), em cenário semelhante ao de 2022, porém, agora com os recursos das IAs disponíveis.
Para Senise, o ambiente de forte divisão ideológica potencializa os efeitos da inteligência artificial sobre o debate público. “A inteligência artificial não cria a polarização, mas turboalimenta os seus efeitos. Em ambientes politicamente inflamados, a verdade perde valor relativo e a emoção passa a mandar mais do que o fato”, afirma.
O especialista explica que conteúdos falsos produzidos por IA encontram terreno fértil quando dialogam com crenças já consolidadas entre os eleitores. “Quando o eleitor está tomado por medo, raiva ou ressentimento, ele não compartilha porque verificou; ele compartilha porque quer acreditar”, pontua Senise.
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