Bruno Goulart
A divulgação de mensagens enviadas pelo banqueiro Daniel Vorcaro ao ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), no dia em que o empresário foi preso em 2025 colocou o magistrado no centro de uma nova onda de questionamentos em Brasília. O conteúdo, extraído do celular do dono do Banco Master pela Polícia Federal, ampliou a crise institucional em torno da investigação e tornou a situação de Moraes cada vez mais difícil de sustentar no campo político.
Os registros indicam que Vorcaro tentou se comunicar com o ministro no dia 17 de novembro de 2025, data em que foi detido pela Polícia Federal no Aeroporto de Guarulhos ao tentar embarcar para Dubai. Segundo investigadores, há nove mensagens enviadas entre 7h19 e 20h48. Em uma delas, o banqueiro pergunta diretamente “conseguiu bloquear?”, o que sugere que o dono do Banco Master buscava informações sobre medidas judiciais em andamento.
De acordo com a apuração, as mensagens foram enviadas por meio de uma estratégia incomum. Os textos teriam sido escritos em um bloco de notas, fotografados e enviados via WhatsApp como imagens de visualização única, mecanismo que dificulta o registro permanente das conversas. A quebra de sigilo do celular de Vorcaro permitiu recuperar parte dessas imagens, mas revela apenas um lado da interlocução, já que o telefone do ministro não integra o inquérito.
Leia mais: Cerco a Daniel Vorcaro preocupa classe política brasileira
Em nota, Moraes afirmou que “não recebeu as mensagens referidas na matéria” e classificou a divulgação como uma “ilação mentirosa no sentido, novamente, de atacar o STF”. Já a defesa de Vorcaro afirmou que o material pode conter conversas privadas retiradas de contexto e possivelmente editadas, além de expor terceiros sem relação direta com as investigações.
Apesar das versões divergentes, o episódio provocou forte repercussão no meio político e dentro do próprio Supremo. Ministros da Corte, em conversas reservadas, classificaram a situação como “grave” e admitem que o caso aprofunda a crise de imagem do Tribunal, considerada por muitos como uma das mais delicadas dos últimos anos.
Dinheiro que compra quase tudo
Segundo o especialista em marketing político Luiz Carlos Fernandes, o caso evidencia uma rede de relações que atravessa diferentes centros de poder no País. “Mostra que a República tem problemas em todas as instâncias de poder. No Legislativo, 18 parlamentares estão na lista de WhatsApp do Vorcaro. Agora aparecem pessoas do Banco Central, inclusive servidor da instituição. Além disso, tem essa questão envolvendo o Alexandre Moraes, a mulher dele e também o Toffoli. Isso significa que o cara tinha dinheiro para comprar todo mundo”, afirmou.
No Congresso Nacional, parlamentares da oposição passaram a questionar publicamente a conduta de Moraes e a discutir a possibilidade de abertura de um processo de impeachment contra o ministro. O deputado Nikolas Ferreira (PL-MG) resumiu o clima de críticas ao declarar que, “por muito menos, o Alexandre de Moraes já teria prendido o Alexandre de Moraes”.
Embora a abertura de um processo de impeachment contra ministros do Supremo dependa de decisão do Senado e seja considerada politicamente complexa, o tema passou a circular com mais frequência nos bastidores do Congresso, reflexo do desgaste provocado pelas novas revelações. Paralelamente, cresce a expectativa sobre os próximos movimentos de Daniel Vorcaro. Investigadores e políticos avaliam que o banqueiro pode optar por uma delação premiada, estratégia que poderia reduzir sua pena em troca de informações sobre a rede de relações que orbitava o Banco Master.
A defesa do empresário tem reforçado sua equipe de advogados criminalistas. Interlocutores próximos admitem que a colaboração com a Justiça é uma hipótese considerada. Caso a delação se concretize, ela pode atingir diferentes grupos políticos e setores da administração pública.
O material apreendido pela Polícia Federal já indica que Vorcaro mantinha contato com autoridades de diversas correntes políticas, o que inclui nomes ligados ao governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e aliados do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), adversários nas eleições de outubro. (Especial para O HOJE)










