Os lábios chegam a fazer aquela pose de boca do nojo enquanto o infeliz conta qual é seu cargo na campanha eleitoral. E regurgita uma expressão em inglês, a mais frequente delas “social media”. A moçada que se julga expert em redes digitais só perde em número para os fabricantes de cerveja artesanal, os cientistas políticos sem diploma nem de datilografia e os fãs das mulheres de Daniel Vorcaro. Pois essa turma acaba de levar um soco no rim esquerdo, começam a aparecer as pesquisas em que o pré-candidato a presidente da República pelo Missão, um certo Renan Santos, surge em terceiro lugar.
Para quem ainda não linkou o nome ao sujeito com tantos predicados, é aquele que grava com os cabelos ao sabor do vento vídeos que resultam em tempestade sobre os favoritos Lula e Flávio Bolsonaro. Com verve de integrante do Parlamento Europeu, Santos prescinde de sofisticação, no melhor estilo Carlos Bolsonaro, o filho de Jair e irmão de Flávio que atropelou as bilionárias contas de marketing com um celular e uma lâmpada de 100 watts. Ainda que seja para aparentar humildade nos gastos, os vídeos de Santos parecem dispensar antiguidades como textos gravados, idiotas confirmando com a cabeça tudo o que o candidato diz, estúdios caros em produtoras que enriquecem nas campanhas e, mais ainda, nos mandatos dos clientes.
Novidade era do MBL e começou em município
Nas novíssimas pesquisas, da miríade de institutos que invadem o Brasil nesta modorra de ação dos pretendentes aos cargos, Santos se isola em 3º lugar para presidente da República. Paulistano da Mooca, 42 anos recém-completados, ele começou interferindo em política municipal no interior de São Paulo, participou das manifestações que culminaram no impeachment de Dilma Rousseff, ajudou a fundar o Movimento Brasil Livre, o MBL, e no fim de 2025 saiu o partido de seu grupo, o Missão. Se mantiver o nível apresentado nos vídeos, vai massacrar os oponentes nos debates, caso eles apareçam por lá (pelo menos os da polarização só costumam ir às principais emissoras de TV aberta).
Santos esfrega brita na ferida ao defender a junção de municípios que não arrecadam o suficiente para sobreviver, sina de mais de 90% das cidades. É impossível discordar de seus argumentos quando soma os gastos da máquina municipal e os compara com a arrecadação de tributos. Lembra que qualquer aglomeração urbana emancipada, mesmo com menos de mil habitantes, tem no mínimo prefeito e vice, o secretariado municipal e nove vereadores, além de centenas de servidores efetivos e comissionados, prestadores de serviços, fornecedores, enfim, uma fauna que drena os recursos.
Um bacharel a menos, um empreendedor a mais
Santos desistiu do mais prestigiado curso superior do Brasil, o de Direito da USP, a Universidade de São Paulo, para trabalhar com o pai na recuperação de empresas com problemas. Fez a escolha certa, afinal, se tem algo sobrando nesta nação é bacharel e se tem algo faltando é quem salve o empreendedor. Nos vídeos, o discurso do pré-candidato do MBL/Missão segue a toada do combate ao populismo. Com isso, critica Bolsonaro pai e filho, o 1º por triplicar o valor do Bolsa Família, o 2º por elogiar essa atitude do 1º.
O segredo do êxito surpreendente de Santos está em sua eloquência, treinada desde a juventude, sabe lá o que é convencer um empresário a reconhecer os erros que estão afundando o seu negócio. Portanto, os vídeos elevaram seu percentual nas pesquisas não somente por estarem nas diferentes plataformas da internet. Há ali um fator de que os demais presidenciáveis não dispõem, o próprio pré-candidato. Santos é quarentão, mas tem cara de menos. Lula está com 80 e tem cara de mais. Da mesma geração, Flávio vai completar 45 no próximo mês.
As semelhanças com Flávio Bolsonaro
Idade parecida, ideologia semelhante… É, não sobrou caminho para Santos fora do embate com Flávio, porque voto de petista ele não tomaria, dadas as surras que aplica na esquerda. Na nova série de vídeos, inclusive no que comemora a ascensão a 3º colocado nas pesquisas, demonstra ferocidade com o filho de Bolsonaro. No conjunto da obra, aproxima PT de PL, aos quais aplica uma teoria batizada de Teatro das Tesouras, que é quando a mesma corrente de pensamento se divide para continuar mandando, alheia a quem as combate e à sua guerra de mentirinha. Fica o imbróglio para os líderes resolverem: ou batem em Santos e lhes dão ainda mais visibilidade ou fingem que ele não existe e continuam apanhando e ele continua crescendo.
O 3º colocado costuma ser vítima da polarização, mesmo quando se demonstra melhor que os dois primeiros. Foi assim com Leonel Brizola em 1989, Enéas Carneiro em 1994, Ciro Gomes em 1998 e 2018, Anthony Garotinho em 2002, Heloísa Helena em 2006, Marina Silva em 2010 e 2014, Simone Tebet em 2022. À exceção de Garotinho e Marina, o terceirão se destaca. Cabe a Renan Santos quebrar o tabu junto com a polarização. (Especial para O HOJE)










