Nesta quarta-feira (11), o vereador Salvino Oliveira foi preso temporariamente durante uma operação da Polícia Civil suspeito de negociar diretamente com o traficante Edgar Alves de Andrade, um dos chefes do Comando Vermelho no Rio de Janeiro, autorização para realizar campanha eleitoral na comunidade da Gardênia Azul, área sob domínio da facção criminosa.
Além de Salvino, seis policiais militares também foram presos, sendo cinco deles ligados à Unidade de Polícia Pacificadora (UPP) da Vila Cruzeiro, na Penha.
“Entrei na política para mudar a vida das pessoas. Eu estou sendo vítima de uma briga política que não é minha.” afirmou Oliveira ao Bom Dia Rio, da TV Globo, ao chegar à Cidade da Polícia.
Durante o programa, ao ser questionado sobre uma possível ligação com Edgar Alves de Andrade, Salvino respondeu que “absolutamente não”. O vereador negou ter qualquer responsabilidade na instalação recente de quiosques na região da Gardênia Azul. Ao ser perguntado sobre uma eventual relação com Landerson Lucas dos Santos, sobrinho de Márcio dos Santos Nepomuceno, respondeu: “Não sei quem é esse”.
Vereador Salvino Oliveira é preso em operação que apura ligação com Comando Vermelho no Rio. Foto: Reprodução
Segundo a polícia, o parlamentar teria articulado benefícios ao grupo criminoso apresentados publicamente como ações voltadas à população local. Um dos exemplos investigados envolve a instalação recente de quiosques na região. A apuração indica que parte dos beneficiários teria sido determinada diretamente por integrantes da facção, sem processo público de escolha.
“Durante a investigação, foram encontrados diversos indícios ligando o vereador ao Comando Vermelho. Esses indícios foram enviados à Justiça, que entendeu que cabia a prisão para aprofundar as investigações. Por meio da busca e apreensão, também conseguiremos identificar a cadeia exata da participação dele.” afirmou o delegado Vinicius Miranda, titular da Delegacia de Combate ao Crime Organizado e à Lavagem de Dinheiro (Dcoc-LD).
Ainda a suposta ligação de Salvino com Doca foi identificada em uma investigação sobre tentativas de interferência política em áreas dominadas pelo tráfico, com o objetivo de transformar esses territórios em bases eleitorais.
“Foi feito um monitoramento profundo da cúpula da organização criminosa. Foi uma investigação realizada com provas técnicas, quebra telemática e mais de 400 interlocutores analisados. No bojo dessa investigação, foi descoberto o envolvimento de parentes do Marcinho VP e de políticos que se comunicavam e tinham envolvimento com o CV e com o braço operacional da própria facção.” afirmou Felipe Curi.
Uma das conversas analisadas pela polícia envolve um homem apontado como corretor que faria a ponte com traficantes do Comando Vermelho. Ele enviou uma mensagem de texto para um número que, segundo os investigadores, estaria com Doca. No texto, pergunta se procede que o traficante e outra pessoa identificada como Pé “autorizaram o Salvino a trabalhar e que é para eu dar suporte e ajudar nos projetos dele”. A resposta, no entanto, foi feita por chamada de voz, e não foi possível identificar o conteúdo.
Segundo Curi, o vereador não era alvo da investigação e passou a aparecer no inquérito ao longo do monitoramento. “É uma investigação que já tem um ano e meio. No bojo dessa investigação, o nome do vereador surgiu quando ele solicitou apoio por meio de uma interposta pessoa.” enfatiza.
De acordo com o secretário, o objetivo seria obter autorização para circular e fazer campanha na Gardênia Azul. “Ele não tinha acesso a essa comunidade e queria ter para fazer campanha eleitoral. É um absurdo você ter que pedir autorização a qualquer tipo de liderança criminosa para poder fazer campanha. Isso não pode ser normalizado. Aí dizem: “Mas, se não for assim, ele não faz campanha”. Então, não faz. Não tem que pedir autorização de criminoso nenhum para entrar em local nenhum.” afirma.
A distribuição de quiosques na região também foi considerada um elemento importante para embasar a prisão. As investigações apontam indícios de que esses estabelecimentos teriam sido utilizados como uma espécie de “troca de favores”.
A prisão ocorreu por meio da Operação Contenção Red Legacy, realizada por policiais civis da Dcoc-LD. A ação tem como objetivo desarticular a estrutura nacional do Comando Vermelho, que, segundo a investigação, atua como uma organização criminosa com características de cartel e presença interestadual altamente estruturada.
Em nota, o gabinete do vereador, que teve o endereço como alvo de busca e apreensão por volta das 6h40 da manhã, informou que até o momento não recebeu qualquer informação oficial sobre o ocorrido. “A assessoria jurídica já foi acionada e aguardamos esclarecimentos das autoridades competentes para compreender os fatos”, diz o texto.
A Câmara Municipal afirmou que “acompanha o desenrolar dos fatos e se coloca à disposição das autoridades competentes para prestar quaisquer esclarecimentos”.
Vereador Salvino Oliveira é preso em operação que apura ligação com Comando Vermelho no Rio. Foto: Reprodução/ Rede Social
A Polícia Militar informou que a Corregedoria-Geral acompanha a Polícia Civil no cumprimento dos mandados de prisão temporária e de busca e apreensão, contra os suspeitos. Os agentes foram levados para a Cidade da Polícia e, posteriormente, encaminhados à Unidade Prisional da PM, em Niterói (RJ).
“O Comando da Corporação reitera que não compactua com quaisquer desvios de conduta ou com o cometimento de crimes praticados por seus integrantes, punindo com rigor os envolvidos sempre que os fatos forem devidamente constatados”, diz a nota.
Quem são os alvos
Arnaldo da Silva Dias, o Samurai, que está preso;
Francisco Glauber de Oliveira, o GL, que está preso;
Luiz Claudio Machado, o Marreta, que está preso;
Márcio dos Santos Nepomuceno, que está preso;
policial militar Hélio da Costa Silva, preso nesta quarta;
policial militar Leandro Oliveira Loiola, preso nesta quarta;
policial militar Reuel de Almeida Silva Fernandes, preso nesta quarta;
policial militar Rodrigo Paiva Lopes, preso nesta quarta;
policial militar Thiago Monteiro Gomes Marcelino, preso nesta quarta;
policial militar Thomás dos Santos Machado, preso nesta quarta;
Salvino Oliveira, preso nesta quarta;
Landerson Lucas dos Santos, sobrinho de Márcio dos Santos Nepomuceno, foragido;
Márcia Gama dos Santos Nepomuceno, mulher de Márcio dos Santos Nepomuceno, foragida.
Durante as investigações, a Dcoc-LD identificou casos de criminosos que se passavam por policiais militares para obter vantagens, incluindo vazamento de informações e simulação de operações. Segundo a Polícia Civil, “tais condutas representam traição à instituição e não refletem a atuação da grande maioria dos profissionais da segurança pública, que desempenham seu trabalho com dedicação e compromisso com a sociedade” informou.
Marcinho VP é apontado como chefe de conselho federal
A investigação aponta que o material coletado revela uma estrutura criminosa complexa, com conselho nacional, conselhos regionais e articulação entre organizações criminosas de diferentes estados. Há indícios, inclusive, de cooperação entre o Comando Vermelho e o Primeiro Comando da Capital.
” O Comando Vermelho já não é mais uma simples facção criminosa local. Há alguns anos, ganhou projeção nacional e internacional. Hoje, o CV age em um esquema de cartel e se alinhou ao PCC, além de diversas facções criminosas atuantes no Brasil. Isso dá a ele um caráter muito mais perigoso.” afirmou Felipe Curi.
Mesmo após quase três décadas no sistema prisional, as investigações indicam que Márcio dos Santos Nepomuceno continua exercendo papel central na estrutura de comando da facção e é apontado como chefe do chamado conselho federal permanente do grupo. A mulher dele, Márcia Gama, mãe do rapper Oruam, e Landerson também são alvos da operação e não foram localizados.
“Embora preso, ele (Marcinho VP) ainda consegue exercer sua chefia de forma contundente, fazendo seus interesses valerem aqui na rua por meio de familiares.” explicou Henrique Damasceno, diretor do Departamento-Geral de Combate à Corrupção, ao Crime Organizado e à Lavagem de Dinheiro da Polícia Civil.
A apuração também indica outros integrantes com funções estratégicas na organização, entre eles o traficante Doca, apontado como principal liderança nas ruas, Luciano Martiniano da Silva, o Pezão, responsável pela gestão financeira do grupo, e Carlos da Costa Neves, o Gardenal, encarregado de operacionalizar determinações da liderança.
Durante as investigações, a polícia encontrou uma conversa entre Gardenal e Doca, cujo número estava salvo como “Deus é fiel”. Na conversa, Doca diz que os quiosques “têm que ser abertos”, e Gardenal responde que eles seriam dados para moradores da Penha “para misturar o povo”.
Segundo a Polícia Civil, a Operação Contenção Red Legacy “representa um avanço significativo no enfrentamento ao crime organizado, ao expor, com base em provas técnicas e investigação aprofundada, o funcionamento estrutural de uma das maiores organizações criminosas do país”. As investigações continuam para aprofundar a responsabilização penal dos envolvidos e ampliar o combate às estruturas financeiras, operacionais e institucionais utilizadas pela organização criminosa.
Quem é Salvino Oliveira?
Em 2023, ingressou no ensino superior e se formou em Gestão Pública pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).
Em 2020, aproximou-se do prefeito Eduardo Paes durante a campanha eleitoral. No início do terceiro mandato do prefeito, em 2021, foi convidado para assumir a Secretaria Especial da Juventude Carioca, tornando-se o primeiro titular da pasta.
À frente do órgão, implantou programas voltados à formação profissional e à inclusão social de jovens de comunidades. Em 2024, disputou sua primeira eleição e foi eleito vereador do Rio pelo PSD com mais de 27 mil votos.
Salvino Oliveira se envolveu em um episódio de tensão pública na Cidade de Deus. Durante o período pré-eleitoral, em julho de 2024, ele foi agredido durante uma confusão em meio a uma operação da prefeitura para demolir construções irregulares.
Vídeos que circularam nas redes sociais mostraram o então pré-candidato cercado por manifestantes e atingido por tapas, socos e empurrões. Garrafas e ovos também foram arremessados, e ele chegou a ser atingido por spray de pimenta após a intervenção de policiais.
Na ocasião, afirmou que havia ido ao local após receber mensagens de moradores sobre a operação e disse que tentava mediar o diálogo entre comerciantes e o poder público quando a situação saiu do controle.
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