A rotina de consumo dos goianos pode estar prestes a passar por uma transformação. Na esteira de um movimento já concretizado no Espírito Santo, sindicatos de trabalhadores em Goiás intensificam as negociações para que supermercados, hipermercados e atacarejos deixem de abrir as portas aos domingos. A medida, que está no centro da convenção coletiva da categoria neste mês de março, representa mais do que uma simples alteração no horário comercial: é um reflexo direto da crescente pressão nacional pelo fim da escala 6×1 e pela melhoria das condições de vida do trabalhador brasileiro.
Em Goiás, a proposta é liderada pelo Sindicato dos Empregados no Comércio Varejista de Gêneros Alimentícios (Secom-GO), que representa aproximadamente 30 mil trabalhadores. A entidade defende a implementação de uma jornada semanal de 36 horas, mantendo formalmente a escala 6×1, mas com a condição inegociável de fechamento obrigatório aos domingos dos supermercados.
O principal argumento para a mudança é a crise de contratação que atinge o setor de supermercados. Segundo estimativas da Associação Goiana de Supermercados (Agos), existem cerca de 6 mil vagas abertas que as empresas não conseguem preencher. O procurador do sindicato, José Nilton Carvalho, afirma que a ausência de folga aos domingos é o maior entrave, especialmente para a chamada Geração Z. Para esses jovens, a folga durante a semana é vista como um fator que “acaba” com a vida social, tornando o setor supermercadista menos atrativo em comparação a outras áreas.
“É preciso descansar patrões e funcionários no domingo”, defende Carvalho, ao ressaltar que a produtividade depende diretamente do descanso e que as grandes empresas já percebem a sensibilidade do tema diante da alta rotatividade de pessoal.
O movimento goiano busca inspiração direta no Espírito Santo, onde, desde 1º de março de 2026, os supermercados estão fechados aos domingos. O acordo envolve 78 municípios, 1,5 mil lojas e cerca de 70 mil trabalhadores.
Os dados financeiros capixabas reforçam a viabilidade econômica da medida. Em 2025, o faturamento aos domingos foi o menor da semana: enquanto os sábados registraram cerca de R$ 102 milhões, os domingos ficaram em torno de R$ 25,9 milhões. Além disso, a taxa de desemprego no Estado (3,3%), a quarta mais baixa do País, pressionou os empresários a aderirem ao fechamento como estratégia para reter funcionários em um mercado de trabalho aquecido.
Para compensar o domingo fechado, redes do Espírito Santo ampliaram o funcionamento às sextas e aos sábados em até 1h30. Em Goiás, a estratégia tende a ser semelhante, com a proposta de funcionamento até a meia-noite de sábado, incentivando o consumidor a antecipar as compras.
O debate estadual ocorre paralelamente a uma das pautas mais controversas no Congresso Nacional: a Proposta de Emenda à Constituição (PEC) que prevê o fim da escala 6×1, de autoria da deputada Erika Hilton (PSOL-SP). A proposta ganhou força após a mobilização do movimento Vida Além do Trabalho (VAT), liderado pelo vereador Rick Azevedo.
A PEC propõe jornada de quatro dias por semana (escala 4×3) e 36 horas semanais. O governo federal, por meio do ministro do Trabalho, Luiz Marinho, adota postura mais cautelosa e defende redução para 40 horas semanais, argumentando que uma mudança imediata para 36 horas poderia não ser “salutar e sustentável” no curto prazo. O presidente Lula também defende a alteração, desde que não haja redução salarial, afirmando que o tempo é um dos bens mais preciosos do ser humano.
Avanço do fim da 6×1 respalda fechamento dominical de supermercados
Nesse contexto, a proposta goiana de fechamento aos domingos surge como aplicação prática e setorial desse anseio nacional. Ao garantir o domingo como dia fixo de descanso, as entidades laborais atacam o ponto mais sensível da escala 6×1 no comércio: a imprevisibilidade da folga e o isolamento social do trabalhador.
Apesar do avanço das negociações, a proposta enfrenta resistência de lideranças empresariais e partidos de oposição. No Congresso, parlamentares bolsonaristas e de centro articulam estratégias para “esvaziar e desconfigurar” a PEC do fim da 6×1. Entre as alternativas discutidas estão uma transição longa, com redução de apenas uma hora por ano, alcançando a meta apenas em 2034, a adoção do pagamento por hora trabalhada, nos moldes dos Estados Unidos, e o argumento de impacto econômico, com setores como a indústria de máquinas e o de saúde apontando prejuízos bilionários e defendendo foco prévio em automação e produtividade.
Em Goiás, o Sindicato do Comércio Varejista de Gêneros Alimentícios (Sincovaga-GO), representante patronal, afirma que a proposta será submetida à assembleia dos empresários. O superintendente da entidade, Alessandro Jean, destaca que o consumidor é o principal impactado e defende a realização de consulta pública antes de uma decisão definitiva.
Caso a convenção coletiva seja aprovada e homologada pelo Ministério do Trabalho e Emprego (MTE), a nova regra poderá entrar em vigor já em 1º de abril de 2026. Para os consumidores, isso implicará reorganização imediata da rotina de compras; para as empresas, será um teste de adaptação e uma tentativa de enfrentar o déficit crônico de funcionários.
O procurador da entidade acredita que, uma vez formalizada, a norma se tornará maior que os próprios sindicatos, beneficiando toda a sociedade e valorizando “quem trabalha e quem produz”. Em Brasília, o presidente da Câmara, Hugo Motta (Republicanos-PB), garantiu que a PEC nacional sobre a jornada será votada em maio, mês do trabalhador, mantendo o tema no centro da agenda política.
A medida em Goiás também delimita claramente sua abrangência. A regra atinge supermercados, hipermercados, atacarejos, mercearias e hortifrutis vinculados à convenção coletiva do comércio varejista de gêneros alimentícios. Pequenos mercados de bairro que funcionam apenas com os proprietários, sem funcionários registrados, poderão continuar abrindo, o que pode favorecer o pequeno varejo local. Açougues e padarias, em geral, ficam fora da restrição por pertencerem a outras categorias sindicais.
Além disso, o sindicato laboral argumenta que muitas empresas já descumprem a regra da CLT que garante dois domingos de folga por mês, e que o fechamento integral seria a forma mais eficaz de assegurar esse direito. Caso o modelo capixaba seja replicado, estão previstas multas de até um salário mínimo por empregado em caso de descumprimento.
O desfecho das negociações servirá como termômetro nacional. Se Goiás conseguir equilibrar a satisfação do trabalhador com a viabilidade econômica do setor, o “domingo sem supermercado” poderá deixar de ser uma experiência isolada para se consolidar como nova referência em um país que debate, de forma cada vez mais intensa, os limites entre produtividade, consumo e dignidade humana.










