A Avenida 24 de Outubro, um dos eixos comerciais mais tradicionais de Goiânia, no setor Campinas, passa por mudanças. A prefeitura de Goiânia estabeleceu o dia 31 de janeiro como o prazo final para que os vendedores ambulantes desocupem as calçadas da via, visando a implementação de um projeto de reordenamento urbano e melhorias na mobilidade.
A intervenção prevê a criação de recuos para estacionamento, adequações no sistema viário e a implantação de uma terceira faixa de rolamento com fluxo livre, seguindo modelos já aplicados nas avenidas Castelo Branco e 136.
Embora a gestão municipal defenda que a medida busca conciliar a fluidez do trânsito com a segurança de pedestres, a ação tem gerado forte resistência e críticas por parte dos trabalhadores informais e até de lojistas locais.
Visão dos ambulantes
Para muitos que ocupam as calçadas da 24 de Outubro como ambulantes, a avenida não é apenas um local de passagem, mas o sustento de décadas. Samuel Fernandes, que trabalha no local desde 2008, expressa o sentimento de desamparo da categoria, afirmando que o projeto prioriza o estacionamento em detrimento do “ganha-pão” do povo. Ele argumenta que a saída dos camelôs prejudica o consumidor final, que encontra produtos, como bermudas, por valores significativamente menores do que nas lojas físicas.
A situação é ainda mais complexa para trabalhadores ambulantes como Rodrigo Pires e Érica Pereira, cujas bancas são regularizadas perante o município. Rodrigo, que atua na região há 30 anos e paga impostos anuais, questiona a brevidade do prazo de desocupação e a falta de soluções concretas.
“Como é que eles dão só 30 dias para a gente sair? Pega a gente de surpresa. Não tem como sobreviver de um dia para o outro”, lamenta. Ele chegou a sugerir que a prefeitura utilizasse a Praça Joaquim Lúcio para alocar os trabalhadores regularizados, revitalizando o espaço que hoje sofre com o abandono.
As opções apresentadas pelo município para os ambulantes também são alvo de críticas. Entre elas, vagas na Feira Hippie e a possibilidade de inserção em galerias na Região da 44. Para Shirley Ribeiro, ambulante, que atua há 25 anos em Campinas, a proposta desconsidera a realidade de quem vive do comércio de rua.
“Aqui é varejo. Na Feira Hippie, o foco é atacado”, explica. Além disso, o custo dos aluguéis em galerias é visto como proibitivo, mesmo com a promessa de um aluguel social progressivo, que começaria com 30% do valor no primeiro ano.
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Enquanto a prefeitura sustenta que parte dos lojistas apoia a retirada por enxergar concorrência desleal, o próprio comércio local revela divisões. Júlia de Souza, lojista da 24 de Outubro, vê a mudança com preocupação. Para ela, a retirada dos ambulantes e a redução das calçadas para ampliar faixas de trânsito devem afastar pedestres e esvaziar a rua. “A 24 sempre foi assim. Tirar isso é prejudicar todo mundo”, afirma.
O temor é compartilhado por Camila Silva, comerciante da região, que lembra o que ocorreu no Centro de Goiânia após intervenções urbanas. “Organizaram, mas o comércio enfraqueceu”, relata. Ela também critica a falta de diálogo prévio com os lojistas, que só tomaram conhecimento das mudanças após o início das notificações. Ainda assim, alguns comerciantes mantêm a expectativa de que mais vagas de estacionamento possam atrair clientes que hoje evitam a região por conta do trânsito intenso.
Enquanto o debate se intensifica, equipes da Secretaria de Eficiência, da Secretaria de Planejamento e Urbanismo (Seplan), da Guarda Civil Metropolitana (GCM) e da assistência social (Semasdh) seguem realizando ações de orientação até o fim do mês. O secretário de Eficiência, Fernando Peternella, afirma que a gestão busca evitar prejuízos aos trabalhadores, oferecendo inclusão no Cadastro Único e orientações para formalização.
Para quem frequenta a avenida, no entanto, a medida parece desconectada das urgências da cidade. A auxiliar de limpeza Claudia Souza questiona as prioridades do poder público. “Tem boca de lobo entupida, gente em situação de rua, tanta coisa para resolver”, aponta. Para ela, a prefeitura deveria ter investido em um projeto de padronização, como galpões específicos para os ambulantes, garantindo organização, arrecadação de impostos e segurança.
Com o prazo se aproximando, o futuro de dezenas de trabalhadores permanece indefinido. Após o dia 31 de janeiro, caso não haja adesão voluntária às alternativas apresentadas, a prefeitura sinaliza que poderá adotar medidas mais rigorosas para assegurar o início das obras.







