A transferência do posto de saúde do Jardim das Aroeiras para o Cais Amendoeiras, em Goiânia, ocorrida nesta quarta-feira (29), reacendeu a insatisfação de moradores e conselheiros de saúde da região. A mudança, feita de forma repentina e sem comunicação prévia, segundo relatos, expôs ainda mais fragilidades no atendimento público e intensificou críticas à condução da rede municipal de saúde.
De acordo com lideranças locais, a decisão ocorreu de forma abrupta. Os relatos dão conta de que funcionários teriam sido surpreendidos com a ordem de mudança e, inclusive, precisaram participar do transporte de equipamentos e mobiliários no mesmo dia. A falta de planejamento e transparência é um dos principais pontos de questionamento, especialmente porque a alteração impacta diretamente o atendimento básico da população.
Além disso, há relatos de que o posto de saúde funcionava em um imóvel alugado e que a mudança pode estar relacionada a um possível não pagamento do aluguel por um longo período. Segundo uma fonte que preferiu não se identificar, o imóvel teria ficado cerca de 10 meses sem quitação, o que teria levado os proprietários a solicitarem a devolução do espaço.
Possível falta de pagamento levanta dúvidas sobre decisão
Em nota, a Secretaria Municipal de Saúde (SMS) de Goiânia informou que a mudança do Centro de Saúde da Família (CSF) Jardim das Aroeiras ocorreu nesta quarta-feira (29), após solicitação do proprietário para encerramento do contrato de locação do imóvel onde funcionava a unidade.
Segundo a pasta, os atendimentos passam a ser realizados no Cais Amendoeiras, que é uma estrutura própria da Prefeitura de Goiânia e que oferece melhores condições, com mais conforto e qualidade na assistência à população. A secretaria também afirma que pacientes com consultas agendadas durante o período de transição terão os atendimentos remarcados e serão informados sobre as novas datas.
Apesar da justificativa, moradores relatam que já enfrentavam dificuldades antes mesmo da mudança. A desativação da urgência e emergência do Cais Amendoeiras, ocorrida em outubro de 2025, já havia reduzido significativamente a capacidade de atendimento na região. Com isso, pacientes passaram a se deslocar para unidades mais distantes, como Unidades de Pronto Atendimento (UPAs) e Centros de Atenção Integral à Saúde (Cais) de outros bairros, que enfrentam superlotação e longos períodos de espera.
A presidente do Conselho Local de Saúde da região, Roqsânia Teixeira de Faria, critica duramente a forma como a mudança foi conduzida. “Vocês foram notificados? Nem nós fomos. Aconteceu tudo hoje. É uma desmotivação total. A gente luta pela saúde da região e vê a situação só piorar. Esse processo de reorganização virou uma bagunça, com unidades sem raio-X, sem laboratório. Que tipo de organização é essa?”, questiona.
Roqsânia explica que o Cais Amendoeiras atendia uma ampla região, com mais de 12 bairros, que incluem áreas populosas como Vila Pedroso, Dom Fernando e Parque das Amendoeiras. Segundo a presidente do colegiado, a retirada da urgência e emergência e a chegada de uma unidade de saúde da família no local sem planejamento claro geram dúvidas sobre a capacidade de atendimento. “Se não podia manter a urgência por causa de verba, por que pode trazer o PSF pra cá? Falta explicação”, indaga.
Leia mais: Denúncias na saúde levam a pedido de afastamento de secretário de Saúde de Goiânia
Moradores enfrentam dificuldades e cobram soluções urgentes
Moradores relatam dificuldades crescentes. A aposentada Maria Lino, que vive há mais de três décadas na região, lembra que o atendimento já foi referência. “Aqui tinha tudo: raio-X, exame de sangue, atendimento rápido. Hoje, a gente precisa ir para longe. Nem todo mundo tem condição. É triste ver uma estrutura que já funcionou tão bem chegar a esse ponto”, lamenta.
Usuária da unidade de saúde, Edmar Aparecida reforça que a mudança ocorreu sem qualquer aviso prévio. “Nem o conselho foi comunicado, nem os funcionários. Foi tudo feito de última hora. Isso mostra falta de respeito com quem trabalha e com a população”, critica. A paciente também questiona a capacidade da unidade em absorver a nova demanda, já que o fechamento da urgência do Cais Amendoeiras já havia sobrecarregado outras unidades da cidade.
O cenário se agrava diante de denúncias já formalizadas por lideranças comunitárias e noticiadas pelo jornal O HOJE. Um pedido encaminhado ao Ministério Público de Goiás (MP-GO) solicita o afastamento do secretário municipal de Saúde, Luiz Pellizzer, com base em suspeitas de falhas graves na gestão, que incluem negligência e omissão de socorro. O documento é acompanhado por um abaixo-assinado com cerca de 8 mil assinaturas, o que evidencia o nível de insatisfação da população.
Para os conselheiros, a situação vai além de um problema pontual e reflete uma crise mais ampla na rede municipal de saúde. A preocupação é que decisões administrativas continuem a ser tomadas sem diálogo com a comunidade e sem considerar os impactos diretos no acesso ao atendimento.









