Faltando pouco mais de 40 dias para as convenções partidárias, o cenário eleitoral em Goiás deixa de ser apenas institucional e entra, de vez, no terreno da disputa política, mais acirrada, mais estratégica e mais imprevisível.
Se até aqui o governador Daniel Vilela pôde conduzir sua pré-campanha apoiado na força da máquina estadual, em agendas públicas, entregas de obras e programas sociais, o jogo começa a mudar justamente quando seus adversários decidem acelerar. E essa talvez seja a primeira grande tensão real da disputa de 2026.
Daniel continua liderando pesquisas e segue como nome mais competitivo da corrida ao Palácio das Esmeraldas. Mas liderança, em política, não garante conforto permanente — especialmente quando os adversários deixam de apenas existir no papel e começam, de fato, a ocupar espaço.
Wilder Morais intensificou sua movimentação nas últimas semanas. Depois de meses sendo criticado até por aliados por uma pré-campanha considerada lenta, o senador bolsonarista finalmente decidiu entrar em campo com mais agressividade. O lançamento mais enfático de sua pré-candidatura, somado à presença de Flávio Bolsonaro em Goiás, reposicionou Wilder no tabuleiro.
Ainda que fissuras internas no PL limitem parte desse avanço, o senador passa a disputar um eleitorado sensível em Goiás: o conservador, ideológico e fortemente alinhado ao bolsonarismo. Não é um detalhe. Em um estado majoritariamente bolsonarista, qualquer candidatura capaz de capturar esse sentimento com consistência passa a representar risco real.
Já Marconi Perillo joga outro jogo e talvez por isso represente uma ameaça ainda mais complexa.
Enquanto Wilder tenta mobilizar pelo campo ideológico, Marconi trabalha memória, capilaridade e articulação municipal. Seu movimento de percorrer centenas de municípios antes das convenções não parece casual. Trata-se de reconstrução de base.
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E Marconi parte com um ativo que não pode ser subestimado: recall político. Gostem ou não seus adversários, o ex-governador ainda carrega memória de gestão em boa parte do interior. Em muitos municípios, seu nome continua associado a obras, rodovias, hospitais e investimentos públicos. Em eleição majoritária, memória também se converte em ativo eleitoral.
É justamente nesse contexto que a situação de Daniel exige uma leitura menos complacente. Durante meses, o governador construiu sua presença pública a partir de uma lógica confortável: governo em movimento, agenda em movimento, exposição em movimento. Obras entregues, investimentos anunciados, programas sociais rodando, prefeitos ao redor e forte associação com o legado de Ronaldo Caiado.
Funcionou.
Mas agora surge a pergunta que aliados evitam responder em voz alta: Sem a vitrine institucional, quanto dessa força é realmente de Daniel?
Essa é a pergunta que aliados evitam responder e que adversários passaram a repetir com frequência cada vez maior nos bastidores.
Com as restrições eleitorais limitando participação em inaugurações e entregas de obras, o governador perde uma das ferramentas mais eficientes de exposição política. E isso obriga uma mudança que vai além da agenda. Obriga mudança de estratégia.
Porque uma coisa é governar com a máquina funcionando a pleno vapor. Outra, bem diferente, é sustentar competitividade quando o debate migra do institucional para o político. É aí que Daniel pode enfrentar seu teste mais delicado.
Os cientistas políticos ouvidos por O HOJE convergem em um ponto: embora Daniel siga em posição confortável, o cenário exige atenção redobrada porque, em política, vantagem só permanece vantagem enquanto os adversários não conseguem convertê-la em crescimento real.
Para o cientista político Marcos Marinho, a pressão maior ainda está sobre os concorrentes de Daniel.
“A campanha do Daniel está seguindo o roteiro dela. Ele está muito à frente nas pesquisas, tem uma estrutura muito mais capilarizada e uma militância muito maior porque conta com o apoio da maioria dos prefeitos, muitos vereadores e uma base alargada herdada do Caiado”, afirma.
Mas Marcos faz uma observação que ajuda a entender o momento da disputa e que também funciona como recado direto aos adversários.
“O perder força do Daniel é complicado, porque para ele perder força alguém precisa ganhar. O que vai reduzir o potencial dele é Marconi e Wilder conseguirem ocupar espaço. Se eles não conseguirem, ele segue na liderança.”
A leitura reforça uma realidade incômoda para a oposição: Daniel não perde terreno sozinho. Ao mesmo tempo, essa análise também abre espaço para uma pergunta estratégica que o grupo governista dificilmente poderá ignorar por muito tempo.
Até que ponto essa base atribuída a Daniel é, de fato, sólida?
No caso de Marconi, a dúvida se torna ainda mais sensível. O ex-governador tem anunciado uma agenda intensa de articulação e pretende percorrer até 200 municípios goianos antes das convenções. O número impressiona. Mas, em política, quantidade nem sempre significa conversão eleitoral.
A pergunta central talvez seja outra: quantos desses 200 municípios já representam alianças políticas concretas?
Quantos prefeitos, ex-prefeitos, vereadores e lideranças regionais que hoje recebem Marconi realmente embarcaram em seu projeto? E, no sentido inverso, quantos desses nomes ainda estão integralmente fechados com Daniel? Mais do que isso: quantos desses apoios hoje considerados certos podem mudar de posição quando a campanha sair dos bastidores e entrar no confronto direto?
Em política, visita gera visibilidade.
Apoio declarado gera voto.
E apoio declarado nem sempre significa fidelidade até a urna.
O cientista político Tiago Zancope avalia que, embora a movimentação de Wilder e Marconi ainda não tenha alterado estruturalmente o cenário, o avanço dos adversários não deve ser subestimado.
No caso de Wilder Morais, Tiago pondera que a presença de Flávio Bolsonaro poderia ter produzido impacto ainda maior caso o PL estivesse completamente pacificado.
“A vinda do Flávio poderia ajudar muito o Wilder caso não tivesse ocorrido toda essa confusão envolvendo Flávio e Michelle. Goiás é um dos estados mais bolsonaristas do país, mas o contexto talvez não tenha sido tão favorável assim”, afirma.
Na avaliação dele, as fissuras internas do PL acabaram reduzindo o potencial político do evento, especialmente diante de ruídos envolvendo lideranças do próprio partido.
Já em relação a Marconi Perillo, Tiago chama atenção para um fator ainda indefinido: qual campo político o ex-governador conseguirá consolidar e que tipo de coalizão conseguirá construir.
“O que tem me chamado atenção no caso do Marconi é essa possível indefinição dele: se vai ter uma chapa mais à esquerda ou para que rumo ele vai caminhar”, pontua.
Esse talvez seja o principal alerta para Daniel. Porque a política é, essencialmente, um jogo de movimento, percepção e timing.
Ter base, estrutura e liderança em pesquisas ajuda, mas não elimina a necessidade de leitura ampla do tabuleiro. No fim, a dúvida talvez já não esteja apenas no avanço de Wilder ou Marconi.
A questão mais sensível para Daniel pode ser outra: perceber, antes que seja tarde, se a ampla base política que hoje sustenta sua aparente tranquilidade é tão sólida quanto parece, ou se parte dela já começou, silenciosamente, a testar outros caminhos.
Porque em Goiás, como em toda eleição majoritária, apoio institucional pode impressionar. Mas é lealdade política que decide eleição.
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