Goiás vive uma das maiores reduções de homicídios do país. Dados do Atlas da Violência 2026, divulgados pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) e pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP), mostram que o estado reduziu em 43% a taxa de homicídios entre 2019 e 2024. O índice é cinco vezes maior do que a média nacional registrada no mesmo período, que caiu 8,6%.
O levantamento coloca Goiás entre os estados que mais conseguiram reduzir crimes violentos nos últimos anos. A mudança também aparece nos números da capital: Goiânia teve redução de 70,9% na taxa de homicídios em dez anos e aparece hoje entre as capitais com menores índices de violência letal do país.
Apesar dos resultados expressivos, especialistas avaliam que os números precisam ser analisados para além do discurso político. A queda da violência é considerada real e consistente, mas ainda convive com desafios como feminicídios, sensação de insegurança em bairros periféricos e presença do tráfico em determinadas regiões.
Integração policial e inteligência mudaram dinâmica do combate ao crime
Entre os fatores apontados para a redução da violência está a mudança estrutural no modelo de segurança pública adotado em Goiás nos últimos anos. A integração entre Polícia Militar, Polícia Civil, Polícia Penal e setores de inteligência passou a funcionar de maneira mais coordenada, com compartilhamento de dados e operações conjuntas.
O ex-membro do Conselho de Segurança Pública do Estado de Goiás e PhD em Direito, Clodoaldo Moreira, afirma que a transformação não aconteceu de forma imediata e está ligada à continuidade administrativa e ao planejamento técnico.
“Não existe milagre em segurança pública. O que existe é continuidade, método e gestão. Goiás saiu de um patamar extremamente alarmante para uma condição de destaque nacional porque conseguiu manter políticas de segurança de maneira contínua”, afirma.
Segundo ele, um dos principais pontos foi o fortalecimento da inteligência policial. “O homicida hoje sabe que será encontrado. A taxa de resolução de homicídios em Goiás chegou a 91%, uma das maiores do país. Isso muda completamente a lógica do crime”, destaca.
Além das operações integradas, o estado ampliou investimentos em tecnologia, monitoramento urbano e ferramentas de análise criminal. Sistemas de inteligência artificial passaram a cruzar informações sobre veículos, suspeitos e movimentações em tempo real, acelerando investigações e a localização de foragidos.
A plataforma conhecida como “IA Contra o Crime” é uma das apostas do estado. O sistema utiliza reconhecimento facial, análise de imagens e cruzamento automático de dados para auxiliar as forças policiais. Segundo dados da segurança pública, mais de 1,3 mil casos já foram solucionados com apoio da ferramenta.
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Queda nos homicídios também impactou outros crimes
A redução da violência letal não aconteceu de forma isolada. Dados da Secretaria de Segurança Pública apontam que outros crimes também apresentaram quedas significativas nos últimos anos.
Os roubos de veículos e de cargas registraram reduções históricas, assim como roubos a comércios e assaltos a pedestres. O chamado “Novo Cangaço”, modalidade de ataques violentos a bancos em cidades do interior, praticamente desapareceu no estado nos últimos anos.
Especialistas apontam que parte dessa mudança está relacionada ao controle mais rígido do sistema penitenciário e ao enfraquecimento das organizações criminosas. O isolamento de lideranças de facções dentro dos presídios reduziu a capacidade de articulação de crimes externos.
“Foi um processo de sufocamento logístico do crime organizado. Não se trata apenas de prender mais pessoas, mas de interromper o financiamento e a comunicação das facções”, explica Clodoaldo Moreira.
Outro fator apontado por pesquisadores é a presença mais intensa do Estado em cidades do interior e regiões metropolitanas. Municípios que historicamente registravam altos índices de violência passaram a ter monitoramento mais constante, operações permanentes e maior presença policial.
Hoje, dezenas de cidades goianas já registram longos períodos sem homicídios. Em junho de 2025, por exemplo, mais de 200 municípios ficaram sem nenhuma ocorrência de morte violenta.
Sensação de insegurança ainda persiste em parte da população
Mesmo com os números positivos, o especialista alerta que a sensação de segurança nem sempre acompanha os indicadores oficiais. Em bairros periféricos de Goiânia, Aparecida de Goiânia, Anápolis e cidades do Entorno do Distrito Federal, muitos moradores ainda convivem com medo relacionado a furtos, tráfico de drogas e violência doméstica.
“O dado estatístico é objetivo, mas a percepção da população é subjetiva. A queda dos homicídios é real, auditável e consistente, mas isso não significa que todas as pessoas se sintam seguras automaticamente”, afirma Clodoaldo.
Pesquisadores defendem que a próxima etapa das políticas públicas de segurança precisa avançar para áreas preventivas e sociais. Entre os principais desafios apontados estão o crescimento das tentativas de feminicídio, a violência doméstica e o fortalecimento do policiamento comunitário.
Enquanto os homicídios caíram, os casos de violência contra mulheres continuam preocupando especialistas. A avaliação é de que a redução da criminalidade precisa vir acompanhada de investimentos em assistência social, educação, mediação de conflitos e proteção às populações mais vulneráveis.
Desafio agora é manter resultados a longo prazo
Para especialistas, o principal teste da segurança pública em Goiás será manter os resultados de forma permanente, independentemente de mudanças políticas ou eleitorais.
A avaliação é de que o estado conseguiu construir um modelo baseado em continuidade administrativa, valorização das forças policiais, investimento em tecnologia e integração operacional. Porém, o desafio agora é transformar essas ações em políticas de Estado duradouras.
“Os números mostram que houve uma transformação estrutural importante. Mas segurança pública é um processo contínuo. O verdadeiro desafio é impedir retrocessos e garantir que essa política sobreviva ao tempo”, conclui Clodoaldo Moreira.
Com redução expressiva dos homicídios, queda em diversos crimes patrimoniais e reconhecimento nacional nos indicadores de segurança, Goiás passa a ocupar uma posição de destaque no debate sobre violência no país.


