A cidade de Goiânia passou por um período, entre 2024 e 2025, sem radares de velocidade por conta do encerramento do contrato de concessão da antiga empresa. Em abril do ano passado, os radares voltaram a operar na cidade e, até julho, foram registrados 102.043 multas, uma média de 25 mil por mês.
De acordo com dados do Departamento Estadual de Trânsito de Goiás (Detran-GO), no ano de 2025 foram registradas 1.350.442 multas na Capital, entre elas multas aplicadas por radares eletrônicos, agentes de trânsito e policiais. A principal autoridade a multar a população goianiense foi a Prefeitura de Goiânia, com 773.600, seguida pelo Detran-GO, com 318.030, e a Goinfra, com 250.786 multas aplicadas.
Atualmente, a capital goiana conta com 1,5 milhão de habitantes, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Nesse sentido, se todas as multas do ano passado fossem divididas entre a população, apenas 250 mil pessoas não teriam sido multadas.
A população, em geral, reclama da quantidade de multas aplicadas, principalmente pelos radares de velocidade. O motorista Sinomar da Rocha relata que nos últimos anos não foi multado, mas que pessoas de fora da cidade reclamaram da quantidade de radares. “Turistas chegavam aqui em Goiânia e diziam que a cidade deveria ser chamada de ‘Multânia’, porque toda esquina tem um lugar onde se toma multa e muitas das vezes não tem nem sinalização apropriada que indicando os lugares que você está sujeito a multas”, acrescenta.
O problema da sinalização inclusive gerou debates no mês de março. Uma denúncia feita pelo vereador Sanches da Federal (PP) ao Ministério Público do Estado de Goiás (MP-GO) e ao Tribunal de Contas dos Municípios (TCM-GO) questiona a regularidade de 300 mil multas aplicadas na Capital. Segundo a denúncia, os radares utilizados para fiscalização de velocidade estariam instalados de forma pouco visível ou sem a divulgação adequada da localização.
Multas x sociedade
Muitos condutores veem as multas como algo feito para arrancar dinheiro dos contribuintes de maneira fácil, mas mesmo assim não se pode ignorar o fator de controle e repreensivo para infrações no trânsito. “Acredito que as multas funcionam mais como uma forma de o governo arrecadar impostos e de empresas terceirizadas lucrarem, embora também inibam excesso de velocidade e outras infrações”, ressalta Nilson Tolasi, que dirige em Goiânia há 25 anos.
A visão de Nilson demonstra como é a percepção da população sobre a chamada “indústria da multa”, que teoricamente seria uma forma de arrecadação fácil dos governos. Porém, de acordo com o artigo 320 do Código de Trânsito Brasileiro (CTB), o dinheiro das multas não pode ser destinado para o caixa dos governos ou para outras áreas, a não ser para ações de melhoria no trânsito.
O artigo do CTB determina que 5% da arrecadação com as multas seja destinado ao Fundo Nacional de Segurança e Educação de Trânsito (Funset), órgão sob a responsabilidade da Secretaria Nacional de Trânsito (Senatran). Os outros 95% devem ser investidos exclusivamente em sinalização, engenharia de tráfego, de campo, policiamento, fiscalização e educação de trânsito.
Em Goiânia, de acordo com dados exclusivos da Secretaria Municipal de Engenharia de Trânsito de Goiânia (SET), foram arrecadados R$ 53.310.551,21, em 2025, sendo destinados R$ 46.824.055,89 para educação, fiscalização e engenharia de trânsito. O restante segue a norma do artigo 320.
Para a parte de fiscalização, que abarca manutenção de radares, compra de materiais e operações, foram destinados mais de R$ 11 milhões. Já para a engenharia de trânsito, ramo que cuida da melhora do tráfego, da fluidez e do deslocamento dentro da cidade, foram utilizados mais de R$ 25 milhões. A menor parcela do investimento da SET foi para as ações educativas, que receberam cerca de R$ 5 milhões no ano de 2025.
Ações educativas
A maioria dos motoristas entrevistados pela reportagem diz acreditar que as ações educativas são o caminho para a melhora no trânsito. Para Kelyane Karine, o trânsito só apresentará uma melhora real quando os motoristas entenderem as relações como algo coletivo. “Campanhas educativas que mostram as consequências da imprudência podem ser uma opção. Apesar que as pessoas só mudam quando sentem no bolso, então multar pode ser o melhor, infelizmente”, complementa.
Já para Sinomar da Rocha, para melhorar o trânsito, as autoridades precisam investir mais na reeducação, em vez de apenas multas, pois elas não têm sido eficazes em disciplinar os motoristas. “Multa já tem demais e não está adiantando nada. Se a multa adiantasse, o goiano era um dos mais disciplinados no Brasil. Coisa que a gente não vê”, afirma.
Educação no trânsito usa recursos de multas e foca na conscientização
Recursos arrecadados com multas são destinados por lei a ações de trânsito, como fiscalização, engenharia viária e campanhas educativas – Foto: Divulgação/SET
A Secretaria de Engenharia de Trânsito (SET) de Goiânia informa que tem ampliado as ações voltadas à educação no trânsito como estratégia para reduzir acidentes e infrações na Capital. Parte dessas iniciativas é financiada com recursos provenientes da arrecadação de multas, com investimento recente de cerca de R$ 5 milhões direcionado a campanhas, capacitações e projetos educativos.
De acordo com o gerente de Educação para o Trânsito da SET, Jairo Santos, o principal desafio está na comunicação com os motoristas e na mudança de comportamento. “[É preciso] Saber comunicar com esse motorista e passar essa mensagem para preservação da vida e empatia no trânsito”, afirma. Santos destaca que a multa tem função educativa, mas não é suficiente isoladamente. “A multa por si só não basta”, completa.
As ações desenvolvidas incluem campanhas para diferentes públicos, cursos de direção defensiva e capacitações específicas, como oficinas de Libras para agentes. A SET explica que mantém atividades em empresas e espaços públicos, com abordagens diretas voltadas à conscientização.
Um dos focos prioritários é o público infantil. Segundo Jairo, “a fonte para um trânsito melhor e mais humano são as crianças”. Projetos como minipistas educativas e atividades lúdicas buscam ensinar regras de forma prática, com a expectativa de que os alunos levem esse aprendizado para dentro de casa. “O que ela aprende nas nossas palestras, ela cobra dos pais”, relata.
A estrutura da secretaria, no entanto, enfrenta limitações. Atualmente, cerca de 290 agentes atuam em Goiânia, divididos entre fiscalização, educação e apoio a eventos. A presença desses profissionais nas ruas é apontada como fator relevante para coibir infrações. “Só da gente estacionar a viatura aqui nesse cruzamento, parar e ficar parado sem fazer nada, a gente já evita centenas de infrações de trânsito”, explica o gerente.
Para otimizar o trabalho, a SET implantou uma plataforma de ensino a distância para capacitação dos servidores. Ainda assim, a ampliação do efetivo é considerada necessária.
Entre as próximas iniciativas, estão estudos para entender o comportamento dos motoristas e projetos voltados à formação de professores como multiplicadores da educação no trânsito. A secretaria também prepara o lançamento da campanha Maio Amarelo 2026, com ações educativas e atividades voltadas à conscientização da população.
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