O número de acidentes com picadas de serpentes cresce em Goiânia em 2026 e já acende um sinal de alerta. Entre janeiro e abril, foram registrados 16 casos na Capital, mais da metade das 26 ocorrências contabilizadas ao longo de todo o ano de 2025, segundo a Secretaria Municipal de Saúde (SMS). O avanço em um intervalo tão curto indica aumento proporcional das notificações, concentradas principalmente nos primeiros meses do ano.
O dado mais surpreendente, porém, não está apenas na quantidade. A maioria das ocorrências acontece dentro da zona urbana, contrariando a percepção de que esse tipo de acidente se restringe a áreas rurais. De acordo com a SMS, os registros se concentram em regiões com presença de vegetação, entulho, lixo e roedores — fatores que favorecem a aproximação das serpentes.
Para o assessor técnico da pasta, Frank Cardoso, não há uma única causa para o aumento. Ele aponta que o fenômeno resulta de uma combinação de fatores ambientais e urbanos, já que neste ano houve expressivo volume pluviométrico, com mais chuvas. “Essas chuvas podem ter proporcionado essa alternância do ciclo de sazonalidade desse animal”, afirma. O período de maior incidência, entre janeiro e março, coincide com a estação chuvosa, quando há maior circulação de serpentes.
Além do clima, o ambiente urbano também contribui para esse cenário. “Os acidentes podem estar acontecendo em maior volume na zona urbana pela presença de roedores e principalmente naqueles casos onde não há atenção da própria população no contexto do controle do descarte de lixo e entulho”, explica Cardoso. A combinação entre oferta de alimento e abrigo cria condições propícias para que esses animais se aproximem das residências.
O perfil das vítimas segue um padrão já observado em anos anteriores. Em 2026, nove dos casos envolvem homens e sete mulheres, com maior concentração entre adultos de 40 a 59 anos. As picadas ocorrem principalmente em pés e pernas, mas também atingem mãos e dedos, o que indica contato direto durante atividades cotidianas.
Em relação à gravidade, predominam ocorrências leves e moderadas, com apenas um caso grave neste ano. Em 2025, os acidentes envolveram majoritariamente jararacas. Já em 2026, há aumento proporcional de casos com cascavéis, além de registros com serpentes não peçonhentas e situações em que não houve identificação da espécie.
O cenário da Capital acompanha uma tendência observada em todo o Estado. Dados da Secretaria de Estado da Saúde (SES) mostram que, entre janeiro e abril de 2026, foram notificadas 584 ocorrências de acidentes por serpentes em Goiás, com quatro mortes registradas no período. Somente o Hospital Estadual de Doenças Tropicais Dr. Anuar Auad (HDT), referência nesses atendimentos, já recebeu 170 vítimas neste ano.
Tempo entre a picada e o atendimento faz diferença na recuperação
Entre os atendimentos realizados na unidade, predominam acidentes com jararacas, responsáveis por 122 casos, seguidas pelas cascavéis, com 26 registros, além de ocorrências com serpentes não peçonhentas. A diretora técnica do HDT, a infectologista Thaís Safatle, alerta que ainda há desinformação sobre os primeiros socorros.
“Comprimir ou tentar sugar o veneno está errado. O correto é lavar o local com água e sabão e buscar atendimento médico imediatamente”, orienta. Segundo a especialista, o tempo entre a picada e o atendimento faz diferença direta na recuperação do paciente. A aplicação do soro antiveneno, quando indicada, reduz a gravidade dos casos e evita complicações.
A aplicação do soro antiveneno, quando indicada, reduz a gravidade dos casos e evita complicações. Foto: Divulgação/SES-GO
Em Goiânia, a rede municipal realiza o primeiro atendimento em unidades como UBS, CAIS, CIAMS e UPAs. O HDT funciona como referência para casos mais complexos. Questionada se o sistema está preparado para atender a demanda, a SMS informou que “a rede de saúde vem sendo reformulada desde o início dessa gestão. Todas as unidades estão prontas para prestar o primeiro atendimento”, afirma Frank.
Mesmo com a estrutura disponível, a prevenção ainda é apontada como a principal estratégia para reduzir os acidentes. Os especialistas recomendam manter quintais limpos, evitar acúmulo de lixo e entulho e controlar a presença de roedores. Em áreas de risco, o uso de botas ou perneiras também ajuda a evitar picadas.
Diante de qualquer suspeita, a orientação é não recorrer a práticas caseiras e procurar ajuda médica com urgência. O Centro de Informação e Assistência Toxicológica de Goiás (Ciatox-GO) oferece orientação 24 horas pelos telefones 0800 646 4350 e 0800 722 6001.










