Um levantamento inédito do Departamento Estadual de Trânsito de Goiás (Detran-GO), em parceria com a Universidade Federal de Goiás (UFG), revelou falhas graves nos registros de acidentes e mortes no trânsito no estado. Os dados apontam que apenas duas rodovias federais , BR-153 e BR-060 , concentram 54,1% dos acidentes, evidenciando a necessidade de intervenções urgentes nesses trechos.
As informações fazem parte dos primeiros resultados do Sistema Integrado de Ocorrências de Trânsito de Goiás (SIGO), iniciativa pioneira no país que busca unificar dados de trânsito, saúde e segurança pública. Mesmo com apenas quatro meses de execução, o projeto já identificou distorções relevantes.
Uma das principais descobertas é a subnotificação de mortes. Enquanto os registros oficiais apontavam 1.606 óbitos em 2024, o cruzamento com dados da saúde indica que o número real chega a 2.074 mortes.
Segundo o presidente do Detran-GO, Delegado Waldir, a falta de integração entre os sistemas compromete a transparência e a compreensão da realidade.
“Até então, a gente vinha enganando a sociedade, inclusive a imprensa, com dados imprecisos. Trabalhar com esse tipo de informação é extremamente grave. A transparência é fundamental”, afirmou.
Ele explica que diferentes órgãos produziam informações desconectadas, o que resultava em números divergentes.
“São várias instituições — Detran, Polícia Militar, Polícia Civil, Bombeiros, Justiça, Samu, Saúde — e cada uma com um dado diferente. Identificamos que cerca de 300 mortes não estavam sendo contabilizadas corretamente”, disse.
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Outro problema identificado é que muitas vítimas morrem após o atendimento inicial, sem que esses óbitos sejam atualizados nos sistemas de trânsito. “A pessoa era socorrida, levada ao hospital e, ao evoluir para óbito, isso não entrava nas estatísticas oficiais, exceto na saúde”, explicou.
Para o delegado, além de corrigir distorções, o novo sistema permite direcionar políticas públicas com mais precisão.
“Em apenas quatro meses já conseguimos identificar pontos críticos. Mais de 50% dos acidentes com mortes estão concentrados em duas rodovias. Isso permite que órgãos como DNIT, Goinfra e o próprio Detran atuem de forma mais assertiva”, destacou.
A proposta do SIGO é criar uma base unificada, acessível e confiável. A expectativa é que o sistema evolua para um modelo nacional.
“Queremos que, com um clique, o cidadão ou o jornalista tenha acesso a todas as informações. Goiás vai entregar um modelo que pode ser replicado no Brasil”, afirmou Waldir.
Coordenadora do projeto pela UFG, a professora Poliana Leite ressalta que a integração dos dados aumenta a confiabilidade das análises e melhora a tomada de decisões.
“Esse cruzamento permite identificar subnotificação, duplicidade de registros e falhas nos sistemas. Isso traz mais segurança para quem formula políticas públicas”, explicou.
Segundo ela, o impacto pode ser direto na redução da violência no trânsito.
“Com uma base mais robusta, deixamos de ter ações pontuais e passamos a estruturar programas mais consistentes. A tendência é uma redução real dos números”, afirmou.
O projeto ainda será ampliado com a inclusão de dados do Samu, tribunais, seguradoras e órgãos municipais. A previsão é que, ao final dos 18 meses, Goiás tenha um dos sistemas mais completos do país, com potencial para orientar políticas públicas mais eficazes e salvar vidas.










