No próximo 31 de março, Ronaldo Caiado (União Brasil) vai renunciar para Daniel Vilela (MDB) assumir. Tem sido assim desde a volta das eleições diretas para governador. O único a ficar até o último dia do mandato foi Henrique Santillo (1987-1990), que não deixou a cadeira para o vice – até porque era Joaquim Roriz, que foi gerir o Distrito Federal. Leia abaixo sobre esse entra-e-sai, pois a discussão se concentra em como fica o caixa do governo e quais as ações do novo ocupante. É assim no Brasil inteiro, porque 18 governadores vão abrir vaga para o vice – e quatro destes são goianos: além de Daniel, que é de Jataí, Celina Leão (PP-DF) de Goiânia, e dois que nasceram em Goiás antes da separação do Tocantins, Mateus Simões (PSD-MG), de Gurupi, e Laurez Moreira (PSD-TO), de Dueré.
Há um plus para Daniel: nenhum outro vice, além dele, vai entrar no lugar do mais bem avaliado governador do País. Portanto, já entra com a carga de tornar imperceptível a troca de comando. Quanto menos o público notar diferença de um governante para o outro, melhor para este outro. Além das questões próprias, há as comuns a todos os Estados e no Distrito Federal, pois do Acre à Paraíba e de Roraima ao Rio Grande do Sul, a preocupação começa com quem das equipes atuais vai se candidatar e terá de sair dos postos.
Dos que vão deixar o governo, a ausência maior será de Gracinha
No caso de Daniel, a expectativa é de pequenas mudanças, restritas a quem deve obediência à Lei Eleitoral. Dos auxiliares do momento, parecem guindados a concorrer à Câmara dos Deputados o presidente da Agência de Obras (Goinfra), Pedro Sales; a secretária de Educação, Fátima Gavioli; o presidente do Detran, delegado Waldir Soares; o secretário do Entorno, Pábio Mossoró. A deputado estadual vão concorrer os ex-prefeitos de Goianira (Carlão Oliveira, presidente da Ceasa) e de Catalão (Adib Elias, secretário de Infraestrutura), mais o chefe de Gabinete, Alex Godinho.
Dois auxiliares do alto comando, o secretário-Geral Adriano Rocha Lima e o chefe do Sebrae, José Mário Schreiner, são pré-candidatos a vice de Daniel. O presidente da Agência de Habitação (Agehab), Alexandre Baldy, quer ser candidato a senador ao lado da primeira-dama Gracinha Caiado, que será a maior baixa na Seleção escalada pelo atual governador e indisponível para o próximo. Dezenas de outros vão se inscrever nas nominatas apenas para assegurar o contracheque.
Horário eleitoral das redes sociais é mais duro que o do TRE
Nos 100 primeiros dias haverá feriados em excesso e até a Copa do Mundo de futebol na América do Norte. Daniel já entra com o cartão vermelho no bolso e o dever de o sacar para os que falarem em folga ou férias. Certamente, não vai liberar comandantes militares apenas para ficarem três meses sem trabalhar, como já foi praxe, pois não há buquê de flores à espera e sim uma campanha duríssima, conforme se anuncia no horário eleitoral ininterrupto das mídias sociais. Os recursos para as obras estão no caixa e independem de liberação (ou não) por ministérios. Das muitas construções em andamento, o ideal é manter o ritmo, pois Daniel vai receber a faixa já no período de estiagem.
A rigor, o famoso lapso temporal está curto. Licitação para reforma de rodovia, por exemplo, demanda meses, período que vai se desenrolar em plena pré-campanha, pois no período eleitoral, quando puder pedir voto, o novo governador precisa manter distância das obras, suas inaugurações e outros eventos.
As fontes de receita que já secaram
No mínimo, o time já entra em campo desfalcado, em Goiás como nas demais unidades da federação. A sorte dos que vão assumir é o atual titular não deixar cadáveres no armário, como o adiantamento de tributos pelos grandes contribuintes, um truque tão manjado quanto ilegal, mas ainda reinante. Como se lê na coluna Xadrez (página 2), o novo governador vai ficar sem algumas fontes de receita, após entrarem em vigor algumas regras previstas para o dia 1º deste mês. Além da isenção total para quem ganha até R$ 5 mil e parcial para até R$ 7.350, os Estados, assim como os municípios, perderam o dinheiro dos servidores retido na fonte como antecipação do Imposto de Renda. Esses descontos ficavam totalmente para Estados e Municípios.
Com a equipe reduzida e a arrecadação menor, os novos governadores terão ainda um enrosco, que é a vigilância dos órgãos de controle sobre quem está no palácio e é candidato a continuar. Em suma, saber até que hora é o chefe do Executivo e em que momento entra em campo o pretendente a conquistar votos. Caiado não teve problemas em 2022, quando foi reeleito.
O que aconteceu com quem assumiu em Goiás
O primeiro governador vitorioso nas urnas depois de restituídas as votações diretas, Iris Rezende, saiu para ser ministro da Agricultura de José Sarney, sentindo que poderia ser candidato a presidente da República (perdeu a convenção do PMDB em 1989). Deixou o governo para o vice, Onofre Quinan, administrar de 13/2/1986 a 15/3/1987. Foi substituído por Henrique Santillo, que ficou o mandato inteiro – enfrentou oposição acirrada de seu próprio partido na Assembleia e no diretório, foi vitimado pelo fechamento da Caixego e pelo césio 137, mesmo assim ficou famoso pela cultura e pela Saúde, além do Grande Prêmio de Motociclismo, que só agora, quase quatro décadas depois, voltará a acontecer em março.
Depois de Santillo, retornou Iris, substituído por Agenor Rezende (2/4 a 31/12/1994), que era o presidente da Assembleia, pois não havia reeleição e o vice, Maguito Vilela, não poderia ser candidato a governador estando no cargo. A sucessão de Maguito foi primeiro com o vice, Naphtali Alves, que entrou em 2/4/1998 e ficou apenas até 24/11 porque, após idas e vindas foi escolhido conselheiro do Tribunal de Contas do Estado (chegou a perder a vaga para Carlos Luz, mas os deputados anularam a votação). Naphtali, à véspera de ser empossado conselheiro, foi substituído pelo presidente da Assembleia, Helenês Cândido (24/11 a 31/12/1998).
Como Iris (com dois mandatos), Marconi Perillo (com quatro) também saiu duas vezes, em 31/3/2006 entrou Alcides Rodrigues, em 7/4/2018 foi a vez de José Eliton. O que mais se tenta evitar, nas transições dos 17 Estados e do Distrito Federal, é o que o secretário de Fazenda no governo de Alcides, Jorcelino Braga, disse ter encontrado como herança. Alguns dos maiores contribuintes adiantaram o recolhimento de tributos e a negociação da Celg foi travada pelo governo que assumiria – novamente, de Marconi. A mais recente das passagens de governo, de Eliton para Caiado, também foi protagonizada por debate financeiro. O novo gestor teve que pagar a folha de dezembro de 2018, além de repasses para municípios, conjugados a renegociação duríssima de contratos com fornecedores e credores.








