Quase um ano após o anúncio oficial feito pelo prefeito Sandro Mabel, em maio de 2025, os moradores de Goiânia ainda aguardam a implementação do projeto City Bike, que previa a introdução de bicicletas elétricas compartilhadas integradas ao transporte coletivo. O que deveria ser um marco na mobilidade urbana da Capital, facilitando o deslocamento de passageiros dos terminais até suas residências, transformou-se em um cronograma de adiamentos e entraves logísticos que frustram a população.
O projeto foi apresentado com grande destaque no dia 21 de maio de 2025, durante o programa Café com CBN. Na ocasião, Mabel detalhou uma proposta inovadora: a integração total com o sistema de transporte coletivo por meio do Bilhete Único. O usuário poderia retirar a bicicleta elétrica em um terminal, utilizá-la para ir para casa e permanecer com o veículo por até 12 horas, devolvendo-o no dia seguinte sem custo adicional além da passagem já paga.
A previsão inicial para o início dos testes era a primeira quinzena de junho de 2025, com um projeto piloto focado no Terminal Recanto do Bosque. Nesta fase, seriam disponibilizadas 150 bicicletas movidas a bateria. Em maio daquele ano, as obras para estruturar os bicicletários já estavam em curso e os testes com o sistema de QR Codes e o aplicativo da Rede Metropolitana de Transportes Coletivos (RMTC) estavam em andamento.
No entanto, o otimismo inicial foi freado em julho de 2025, quando a prefeitura anunciou o adiamento do projeto sem definir uma nova data de início. Desde então, o serviço permanece no papel, gerando insatisfação em cidadãos que planejavam aderir ao modal sustentável para fugir dos engarrafamentos.
Questionada pela reportagem sobre a paralisia do projeto em março de 2026, a Secretaria Municipal de Engenharia de Trânsito de Goiânia informou que o desenvolvimento do City Bike encontrou dificuldades críticas na cadeia de suprimentos. Segundo a pasta, durante a fase de estruturação, foram identificados entraves significativos no fornecimento das bicicletas elétricas por parte do fornecedor originalmente responsável.
Essa falha exigiu uma reavaliação técnica completa e a busca por novas alternativas no mercado, incluindo a prospecção de fornecedores internacionais. A secretaria afirma que o processo está agora em uma “fase avançada de ajustes logísticos e operacionais”, mas ressalta que a operação só começará quando houver “segurança técnica” total.
O Consórcio BRT (RedeMob) reforçou essa justificativa por meio de nota, classificando a iniciativa como uma ação relevante para a modernização da RMTC, mas que foi prejudicada por desafios na aquisição de equipamentos. O consórcio destacou que as etapas de importação de novos equipamentos demandam prazos adicionais, o que empurrou a nova previsão de implantação para o início do próximo semestre (segunda metade de 2026).
Para Fred Le Blue, pesquisador e autor do estudo “Acessibilidade, Mobilidade Urbana e Educação no Trânsito”, a demora na implementação é um obstáculo para a transição energética da cidade. Ele argumenta que o potencial da bicicleta elétrica em Goiânia é “imenso”, especialmente pelo fato de a topografia da Capital ser predominantemente plana, o que favorece o uso desse modal.
Le Blue, que também propôs o projeto “3 Poderes de Bicicleta” para interligar órgãos públicos por meio de ciclovias, defende que a “bicicletização” só será efetiva se for acompanhada de infraestrutura robusta e educação. “Não basta entregar as bicicletas; é preciso garantir a criação e manutenção de ciclovias e ciclofaixas, além de uma educação de trânsito onde o ciclista seja respeitado”, afirma o especialista.
Ele ressalta que a integração das bicicletas elétricas é uma questão de democracia urbana, permitindo que pessoas de baixa renda ou que não possuem veículo próprio tenham acesso facilitado a locais de poder e cidadania. Em seus estudos, Le Blue aponta que o “automovelcentrismo” em Goiânia é fruto da ineficiência histórica do transporte público e que modais alternativos são essenciais para reduzir a mortalidade no trânsito, que registrou 1.420 óbitos na Grande Goiânia entre 2018 e 2022.
Apesar do atraso de um ano, o projeto City Bike ainda é visto como uma solução necessária para desafogar as linhas alimentadoras de ônibus e reduzir a dependência de carros e motos. A meta de expandir as ciclovias para todos os corredores de transporte coletivo permanece como um objetivo de longo prazo da gestão municipal.
Enquanto as bicicletas não chegam, a Capital enfrenta desafios crescentes, como o aumento de 42% nas infrações por uso indevido de ciclofaixas. Para Fred, iniciativas de compartilhamento podem salvar vidas e prevenir sinistros ao remover veículos motorizados das vias, contribuindo para os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável da ONU.










