Nos bastidores, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) tem manifestado preferência por enfrentar o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) na disputa presidencial de 2026. O jornalista Lauro Jardim relatou em sua coluna do jornal O Globo um encontro ocorrido em dezembro entre Lula e um presidente de partido com relações próximas ao filho mais velho do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL). Em tom de brincadeira, Lula pediu que o dirigente levasse um recado direto ao senador: “Peça que ele não desista”, segundo informações da coluna.
A declaração, ainda que em tom de galhofa, evidencia um cálculo político claro por parte do Palácio do Planalto. Segundo o cientista político Pedro Pietrafesa, a leitura do presidente é baseada, sobretudo, nos dados de pesquisas eleitorais. “As últimas pesquisas indicam que o Flávio Bolsonaro tem uma rejeição bastante alta”, afirmou o cientista em conversa com a reportagem do O HOJE. De acordo com Pietrafesa, mesmo que o senador consiga se viabilizar como o principal nome da direita e chegue ao segundo turno, o cenário segue favorável a Lula.
Pietrafesa explica que, em uma eventual disputa mano a mano, há uma tendência de migração de votos de eleitores que apoiaram outros candidatos conservadores no primeiro turno. “Mesmo pessoas que votaram, seja no Ratinho Júnior (PSD-PR), seja no Tarcísio [de Freitas (Republicanos-SP)], caso eles lancem candidatura, mesmo com a presença do Flávio Bolsonaro, há uma migração de votos suficiente para o Lula para que ele vença no segundo turno”, analisou.
Para o especialista, o problema central do senador é o alto índice de rejeição. “Flávio Bolsonaro mantendo a candidatura com a rejeição que tem hoje, não diminuindo essa rejeição de uma forma suficiente, ele pode chegar no segundo turno, mas no segundo turno fica bastante difícil que ele vença as eleições.”
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Nessa conjuntura, Lula teria consciência de que o enfrentamento com Flávio amplia suas chances de vitória. “O Lula, sabendo disso, tendo em mãos as diferentes pesquisas, os próprios trackings que o Palácio do Planalto faz frequentemente, ele sabe que tem mais chances de vencer as eleições com o Flávio Bolsonaro participando”, disse Pietrafesa. Segundo o cientista, o senador “tem um teto de votos que não garante a vitória contra o Lula”.
Disputa contra Lula seria estratégica
Para a família Bolsonaro, no entanto, a presença do petista na disputa também é estratégica. O cientista político aponta que o presidente petista ocupa, há anos, o papel de principal antagonista do bolsonarismo. “Para a família Bolsonaro, o Lula seria esse inimigo, um inimigo comum que ele já vem dizendo, já vem trabalhando desde muitos anos”, afirmou, ao lembrar da retórica adotada pelo ex-presidente ainda na campanha de 2018, marcada por ataques sistemáticos ao PT e a seus apoiadores.
Na avaliação de Pietrafesa, Lula foi transformado no símbolo central desse embate ideológico. “Materializando na figura do Lula todo esse, não só discurso de ódio, mas essa estratégia de comunicação agressiva contra qualquer pessoa que tenha algum tipo de simpatia com o PT”, explicou.
Esse enfrentamento, segundo o cientista, foi fundamental para a consolidação do capital político da família Bolsonaro junto a setores da extrema direita. “Essas pessoas têm ali na figura do PT e do Lula esse inimigo em comum que fez com que a família Bolsonaro conquistasse, ao longo desse tempo, o capital político que levou Jair Bolsonaro à presidência em 2018.”
Radicalização permaneceu
Mesmo após a derrota eleitoral em 2022 e os desdobramentos judiciais que atingiram o ex-presidente, a radicalização do discurso permaneceu. “Os filhos do Bolsonaro não diminuíram essa radicalidade no discurso em relação aos diferentes espectros ideológicos”, frisou. Para Pietrafesa, isso faz com que a disputa direta com Lula seja quase natural para Flávio. “A disputa com o Lula é preferencial para o Flávio Bolsonaro por conta da identificação desse inimigo que ele tem que combater.”
A eventual candidatura do senador tende a ser construída com foco no confronto direto com o presidente. “Todo o discurso dele vai ser focado, mesmo nas propostas que porventura ele venha sugerir durante a sua campanha, nesse embate direto com o Lula e o Partido dos Trabalhadores”, afirmou o cientista.








