Bruno Goulart
O ato marcado para 14 de março, em Jaraguá, que lançará as pré-candidaturas de Ronaldo Caiado (PSD) à Presidência da República e de Daniel Vilela (MDB) ao governo estadual, deve produzir um impacto político relevante na corrida ao Palácio das Esmeraldas. A previsão de comparecimento de cerca de 200 prefeitos, em um universo de 246 municípios, transforma o encontro em demonstração pública de força, unidade e capilaridade no interior. Ainda assim, analistas ponderam que o peso eleitoral do gesto precisa ser interpretado com equilíbrio.
Para o mestre em História e especialista em políticas públicas Tiago Zancopé, o principal efeito do evento será consolidar a narrativa de continuidade de um projeto iniciado em 2018. “O começo dessa campanha em Jaraguá, com 200 prefeitos presentes, corrobora a força que o governador Ronaldo Caiado tem no interior de Goiás e a maneira como esses prefeitos se sentem respaldados por esse projeto político”, afirma.
Segundo Zancopé, trata-se de uma base construída há oito anos e que, apesar de oscilações pontuais, permaneceu coesa. “Se 200 prefeitos estão nessa jornada, isso representa quase uma maioria absoluta. Essa base tende agora a caminhar com Daniel, sob a liderança de Caiado”, destaca.
Na avaliação do especialista, o impacto direto para Daniel é o reforço da percepção de favoritismo e de estrutura organizada. Diferentemente do cenário vivido por José Eliton em 2018, o atual grupo governista não chega ao processo eleitoral sob forte desgaste administrativo. “Marconi [Perillo (PSDB)] estava indo para o quarto mandato, Caiado está no segundo. O desgaste era muito maior naquele momento”, compara, em referência ao ciclo do chamado “tempo novo”.
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Zancopé acrescenta que a ausência de grandes escândalos ou crises estruturais cria ambiente mais estável para a transferência de capital político. Nesse sentido, o evento em Jaraguá funciona como vitrine dessa estabilidade e como demonstração de que Daniel herda não apenas a estrutura, mas também a narrativa positiva de gestão.
Máquina pública não define por si só
Por outro lado, o cientista político Lehninger Mota relativiza a ideia de que apoio massivo de prefeitos seja sinônimo de vitória. Mota lembra que a história política de Goiás apresenta exemplos claros de que a máquina pública não é determinante por si só. “Em 2018, José Eliton tinha ampla base de prefeitos encabeçada por Marconi e, ainda assim, perdeu para Caiado”, recorda.
Mota também cita o caso de 1998, quando Marconi venceu mesmo ao enfrentar a estrutura do então governador Maguito Vilela. Para o cientista político, a variável é o comportamento do eleitor. “Existe um voto ideológico nas cidades, e os prefeitos têm dificuldade de furar essa barreira. Muitas vezes o eleitor separa o voto local do estadual”, explica.
Esse fator, segundo o cientista político, pode limitar o impacto eleitoral do evento. Embora fortaleça a organização da campanha, amplie palanques regionais e reduza dissidências internas, a mobilização precisa ser convertida em voto efetivo. O desafio de Daniel será dialogar diretamente com o eleitorado, especialmente diante de possíveis adversários com forte identidade ideológica, como o senador Wilder Morais (PL), que pode capitalizar o voto à direita, independentemente do alinhamento de prefeitos.
Assim, o evento em Jaraguá tende a produzir três efeitos imediatos na candidatura de Daniel: reforço da imagem de unidade do grupo governista, consolidação da capilaridade no interior e fortalecimento simbólico da transferência de liderança de Caiado para seu vice. No entanto, os especialistas são convergentes ao apontar que estrutura política não substitui a dinâmica do eleitorado. (Especial para O HOJE)










