Bruno Goulart
O governo Lula (PT) tem adotado uma postura cada vez mais crítica em relação às ações de Israel na Faixa de Gaza, especialmente após a detenção do ativista brasileiro Thiago Ávila, que integrava uma missão humanitária rumo à região. Enquanto o Palácio do Planalto avalia medidas de retaliação, que incluem possíveis restrições a parcerias militares, especialistas ouvidos pelo O HOJE destacam que a oposição do presidente Lula é direcionada especificamente ao governo do primeiro-ministro Benjamin Netanyahu, e não ao Estado de Israel como nação.
Para o historiador e especialista em Políticas Públicas, Ms. Tiago Zancopé, essa distinção é fundamental. “Para mim ficou claro nessa linha de atuação do presidente Lula que ele não faz oposição a Israel enquanto Estado. Ele está fazendo oposição ao governo de Israel, liderado por um primeiro-ministro, nesse caso, que é o Benjamin Netanyahu. Eu não vejo o Lula fazendo uma oposição a Israel enquanto nação”, afirmou.
Zancopé, que também é professor, lembrou ainda que a formação histórica da população brasileira, marcada pela imigração de judeus e árabes, torna inviável uma ruptura radical com qualquer um dos lados. “Não tem como o Lula escolher fazer oposição, por exemplo, ao Estado de Israel ou então ao Estado do Líbano ou da Síria, porque isso coloca em xeque a própria maneira como a população brasileira foi formada”, explicou.
Enxerga como um “genocídio”
O cientista político Lehninger Mota, por sua vez, avalia que Lula enxerga o conflito atual não como uma guerra convencional, mas como um “genocídio”. “Na concepção do presidente Lula, é um genocídio. Você está pegando os terroristas que se infiltram no meio da sociedade, é muito difícil para o exército combater somente os terroristas. Está matando mulheres, crianças, bloqueando a entrada de água, de remédio, de médicos”, disse.
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Mota destacou que, embora a posição do presidente tenha custado apoio de setores evangélicos, ela vem ganhando respaldo internacional. “A posição do Lula de ser contra a forma que está acontecendo tem ganhado muito apoio pelo mundo. Ele é um player, um dos grandes nomes mundiais que continuam presidente”, observou.
Entenda a crise entre Brasil e Israel
A crise diplomática entre Brasil e Israel se desenrola em três frentes principais. A primeira envolve a deportação do ativista Thiago Ávila, detido após se recusar a assinar um termo de deportação imediata. O governo brasileiro classificou a interceptação do navio Madleen como uma “flagrante transgressão ao direito internacional” e exigiu a libertação de Ávila, que deve deixar o território israelense em até 72 horas.
A segunda frente diz respeito à aprovação, pelo Senado, de um acordo aéreo com Israel, firmando ainda em 2019, durante o governo Bolsonaro (PL). A votação ocorreu na última terça-feira (10) e, em meio à tensão diplomática, causou estranhamento. No entanto, especialistas consideram o texto meramente técnico, sem impacto direto na postura crítica adotada atualmente pelo presidente Lula. O acordo regula voos comerciais entre os dois países, incluindo definições sobre rotas, tarifas e segurança.
Por fim, a terceira frente envolve possíveis retaliações militares que o governo brasileiro estuda adotar contra Israel. O assessor especial da Presidência, Celso Amorim, afirmou que o Planalto avalia diversas medidas, sobretudo no campo militar. “Há várias outras ações que podemos tomar. Acredito que, especialmente nas relações militares — que para eles têm grande importância, inclusive econômica —, devemos agir com firmeza”, declarou.
A atual postura do governo Lula representa uma mudança significativa em relação aos seus mandatos anteriores (2003-2010), quando o Brasil adotava uma diplomacia mais neutra diante do conflito entre Israel e Palestina. Naquele período, Lula atuou como mediador em negociações indiretas e evitou confrontos diretos com o premiê Benjamin Netanyahu. Agora, porém, o massacre na Faixa de Gaza — que já deixou mais de 50 mil mortos, segundo o Ministério da Saúde local —, somado à pressão de movimentos sociais e partidos de esquerda, levou o Planalto a adotar um tom mais firme e crítico.
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