A explicação apresentada pelo ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), para negar que tenha trocado mensagens com o banqueiro Daniel Vorcaro, do Banco Master, entrou em choque com informações técnicas do software utilizado pela Polícia Federal para extrair os dados do celular do empresário e com análises de peritos especializados em investigação digital.
As conversas teriam ocorrido em 17 de novembro de 2025, data em que Vorcaro foi preso. Segundo reportagem publicada pela colunista Malu Gaspar, as mensagens foram enviadas por meio de imagens de visualização única no WhatsApp — recurso que faz com que o conteúdo desapareça após ser aberto. Ainda assim, os registros teriam sido preservados porque o banqueiro teria feito anotações e capturas de tela que permaneceram armazenadas no aparelho e posteriormente foram recuperadas durante a perícia.
O que diz Moraes
Em nota divulgada à imprensa, Moraes afirmou que os prints das mensagens estavam “vinculados a pastas de outras pessoas” nos arquivos enviados à Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) do INSS. Para o ministro, o fato de capturas de tela e contatos estarem agrupados nas mesmas pastas indicaria que as mensagens não teriam sido destinadas a ele.
Entretanto, especialistas ouvidos pela reportagem apontam que essa interpretação não corresponde ao funcionamento do software utilizado na extração das evidências. O material enviado à CPI foi obtido por meio do IPED (Indexador e Processador de Evidências Digitais), programa desenvolvido pela própria Polícia Federal para análise forense de dispositivos eletrônicos.
De acordo com peritos familiarizados com a ferramenta, a organização dos arquivos nas pastas não reflete necessariamente a relação entre os conteúdos. O sistema reorganiza os dados automaticamente após a extração, utilizando um algoritmo que gera uma espécie de “assinatura digital” para garantir a integridade das provas. Nesse processo, arquivos originalmente armazenados em locais diferentes do aparelho podem acabar reunidos no mesmo diretório.
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Os registros indicam que as capturas de tela das mensagens estavam originalmente salvas na galeria de imagens do celular de Vorcaro, na pasta chamada “Personal Library”, com nomes padrão como IMG_2788 e IMG_2790. Já os contatos do telefone estavam armazenados em outro diretório, identificado como “Contacts/vCards”.
Durante a exportação dos dados para análise, o IPED reorganiza parte dos arquivos em uma pasta específica chamada “Exportados”, criada automaticamente pelo sistema. Segundo peritos, essa reorganização explica por que prints de mensagens aparecem ao lado de contatos sem que haja, necessariamente, relação entre eles.
Em alguns casos, as capturas foram associadas pelo software a contatos de outras pessoas, como o senador Irajá Abreu, do PSD. Por meio de sua assessoria, o parlamentar negou qualquer contato com Vorcaro. Outro print foi agrupado ao contato da advogada Viviane Moraes, esposa do ministro do STF, que também afirmou não ter recebido mensagens.










