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Verticalização pode agravar mobilidade em Goiânia, segundo especialistas

Administrador Por Administrador
15 de março de 2026
Em Cidades
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Verticalização pode agravar mobilidade em Goiânia, segundo especialistas

Ao andar por Goiânia, algo que chama atenção são os novos empreendimentos imobiliários, principalmente prédios e espaços comerciais. Essas obras acontecem em um momento de avanço do mercado imobiliário da Capital, que ano após ano tem apresentado aumento no valor do metro quadrado construído. Porém, algo que é possível analisar é que esse adensamento acontece em sua maioria em regiões que já estavam completamente habitadas, como o Setor Sul, Setor Oeste e Setor Bueno.

Nesse sentido, a saída é o crescimento vertical, com o aumento de edifícios residenciais e comerciais nessas regiões. De acordo com um levantamento da Associação das Empresas do Mercado Imobiliário do Estado de Goiás (Ademi-GO), atualmente, em Goiânia, existem cerca de 12.067 imóveis em estoque, que significa que estão prontos para serem vendidos. Esse número analisa todas as regiões da cidade e vários níveis de imóveis, como Minha Casa, Minha Vida, médio e alto padrão.

Mas algo que a pesquisa também revela é o preço médio do metro quadrado da cidade. Em 2025 chegou a R$ 10.531, um crescimento de 13,5% em relação a 2024. Esse valor é uma média de todos os bairros da Capital, onde os mais caros são: Marista, Jardim Goiás, Setor Oeste e Setor Bueno.

Com esse cenário posto, Goiânia tem se tornado um mercado atrativo para construtoras e incorporadoras, já que o valor dos imóveis cresce e a procura também. Mas existem algumas questões que são levantadas em relação a esse avanço, como a perda de características de alguns bairros e o esquecimento de regiões mais afastadas.

Debates em relação a verticalização

Outro bairro que passa por debates em relação a sua possível verticalização é o Setor Sul, um marco urbanístico e arquitetônico da cidade. “A possível escalada da verticalização do Setor tem sido alvo de muitos debates entre a Câmara de vereadores, movimentos associativos como a Aprosul e sociais, como o Goiânia 100 por Centro, porque é o bairro mais representativo do duplo modernismo (francês e inglês)”, explica o arquiteta e urbanista Fred Le Blue.

Na visão do especialista, o bairro deveria ter sua horizontalidade protegida, por conta da sua importância para a paisagem e cultura da cidade. “O que ocorre é que a tomada do Marista, o “setor” incorporador espera mexer alguns artigos do Plano Diretor para chegar com os tratores derrubando casas do Setor Sul e a parte residencial do Setor Pedro Ludovico”, aponta.

“O Setor Sul, teoricamente, é melhor exemplo de que como um bairro deve ser, com áreas públicas, verdes e esportivas como extensão das casas. Na prática, o sucateamento e vandalização torna algumas vielas áreas de risco. Os moradores já denunciaram que esse descaso pode ser uma estratégia de abandono para que com o aumento da criminalidade, o bairro possa entrar na rota dos Caminhões Betoneiras, que ensurdecem os moradores e enlameia as ruas da Capital”, continua Le Blue sobre o aproveitamento das áreas do Setor Sul.

O debate em relação ao adensamento com a verticalização é importante por conta dos impactos a população. Nesse sentido, Le Blue demonstra preocupação com problemas já recorrentes na cidade. “Podem ser trágicos os efeitos de uma urbanização descontrolada para fins de drenagem urbana e verde urbanizado”, acrescenta.

“Na prática, quanto mais altos os prédios e o aumento do potencial construtivo das áreas privativas, mais os problemas de saneamento básico e mobilidade urbana, porque essas demandas ficam sob à égide da municipalidade”, descreve o especialista.

Ainda dentro das questões problemáticas da verticalização, o arquiteto e urbanista e professor da Universidade Federal de Goiás (UFG), Glauco Gonçalves, entende que a verticalização observada tem sido profundamente desordenada e não planejada, gerando colapso no transporte público ineficaz. Ainda na questão dos transportes, ele vê que há uma quase total inexistência de ciclovias ou formas de locomoção não motorizadas, forçando o uso de automóveis em ruas estreitas, o que culmina em um colapso da mobilidade urbana.

 

“A questão não é o adensamento em si ou a verticalização, mas sim como fazê-lo acompanhado ou desacompanhado desses elementos, de saneamento, de arborização e de transporte público. Então, de fato, o que se anuncia nesses bairros e para a cidade de Goiânia é um cenário muito problemático nessa frente, para dizer o mínimo”, ressalta Glauco.

O professor destaca que, quando analisadas, grandes metrópoles possuem densidades habitacionais maiores que Goiânia, mas que mesmo assim não apresentam os mesmos problemas. 

Expansão em regiões afastadas segue mesma lógica, com menor intensidade
Regiões mais afastadas dos centros também sofrem com expansão urbana desenfreada – Foto: Divulgação
O debate sobre a expansão urbana tem se concentrado no eixo centro-sul da Capital e, por conta disso, bairros mais afastados têm sido esquecidos. A expansão do mercado imobiliário acontece com a mesma lógica tanto em bairros com padrões e custos mais altos e bairros mais afastados e considerados de periferia, apenas com diferenças na intensidade, como explica o professor Glauco Gonçalves.

 

“A lógica é a mesma, no sentido de que as empresas vão comprando terrenos, seja de casas ou de condomínios, que oferecem uma possibilidade para verticalizar e vão subindo esses edifícios a toque de caixa”, elucida.

Outra diferença que pode ser vista, quando comparada com empreendimentos em bairros com padrões mais elevados, é a possibilidade de comprar esses imóveis pelo programa Minha Casa Minha Vida. Para Gonçalves, a política pública de ampliação dos valores financiados pelo programa é positiva, pois atende ao direito à moradia para classes médias e baixas.

Nesse caso, o mercado imobiliário também aproveita essa oportunidade e expande as operações para toda a cidade. Porém, o professor traz algumas ressalvas quanto a atuação da administração municipal, que deve ordenar essa expansão, estabelecendo cotas e parâmetros. “É estabelecer cotas, estabelecer parâmetros, o que todas as cidades sérias do mundo fazem. Quantos prédios em cada lugar podem ter? Sob quais circunstâncias? Em que tipo de contrapartida essas empresas vão oferecer? Para que a cidade não vire um amontoado de prédios e nada mais. Sem casa, sem alma e sem rosto”, acrescenta.

Mesmo que as perspectivas possam parecer em geral negativas, o arquiteto e urbanista Fred Le Blue, diz que é possível acontecer uma mudança. “Ainda há tempo para frear essa tendência, mas seria necessário um prefeito realmente comprometido com os valores patrimoniais do bem comum”, finaliza. (Especial para O HOJE)

Leia também: Escolha entre árvores e asfalto aponta para futuro da paisagem urbana de Goiânia

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