O avanço da presença feminina na construção civil tem transformado um dos setores mais tradicionais da economia brasileira. Dados do Ministério do Trabalho e Emprego indicam que o número de mulheres empregadas na área cresceu 22% entre 2022 e 2024, refletindo uma mudança gradual na composição da mão de obra do setor. Em um horizonte mais amplo, informações do Painel da Relação Anual de Informações Sociais (RAIS) apontam que a quantidade de trabalhadoras com carteira assinada na construção civil aumentou 184% desde 2006, evidenciando um movimento consistente de inclusão feminina em uma atividade historicamente dominada por homens.
Mesmo com o avanço, a presença feminina ainda é minoritária. Levantamentos do setor indicam que as mulheres representam uma parcela reduzida da força de trabalho em obras, embora tenham ampliado participação nas novas contratações e em cargos técnicos e de gestão.
Em Goiânia, esse cenário se materializa em trajetórias de profissionais que vêm consolidando espaço em empresas do setor, ocupando posições estratégicas e demonstrando que a construção civil também pode ser um ambiente de crescimento para mulheres.
Foto: Divulgação
Crescimento feminino no setor
A expansão da participação feminina acompanha um momento de forte atividade na construção civil brasileira. O setor movimenta centenas de bilhões de reais por ano e responde por milhões de empregos diretos e indiretos, impulsionado por programas habitacionais e pelo crescimento do mercado imobiliário.
Nesse contexto, empresas passaram a ampliar políticas de diversidade e qualificação profissional. Em 2024, por exemplo, 20,2% das novas vagas geradas na construção civil foram ocupadas por mulheres, percentual superior ao registrado em anos anteriores.
Especialistas apontam que a escassez de mão de obra qualificada também tem estimulado a abertura do setor para novos perfis profissionais, incluindo mulheres em funções operacionais, técnicas e de liderança.
Leia também: Barbearias impulsionam mercado de estética masculina em Goiás
Da obra à engenharia: história de superação
Um exemplo desse movimento é a trajetória de Sheila da Silva Souza, analista de engenharia na Sousa Andrade Construtora. Aos 44 anos, ela concluiu a graduação em Engenharia Civil pela Universidade Paulista (UNIP) em Goiânia e conquistou recentemente a promoção dentro da empresa.
Sheila começou a trabalhar na construção ainda jovem, ajudando um tio pedreiro. Sem condições de estudar na época, retomou os estudos anos depois, concluiu o ensino médio em 2016 e ingressou na faculdade em 2020 por meio de bolsa de estudos.
Na construtora, iniciou a trajetória como encarregada de abastecimento no canteiro de obras, sendo promovida posteriormente para encarregada de alvenaria e, mais recentemente, para o Departamento de Engenharia.
“Meu sonho sempre foi ser engenheira. Não foi fácil conciliar trabalho, estudo e família, mas consegui”, conta. Mãe de três filhos e avó, ela afirma que a conquista representa a realização de um objetivo que parecia distante.
Gestão e protagonismo feminino
A presença feminina também cresce em cargos de gestão. É o caso de Francisca Francicleide Tavares, gerente de Segurança do Trabalho na EBM Desenvolvimento Imobiliário.
Com 17 anos de experiência na área, ela começou como estagiária, concluiu formação técnica e avançou até a pós-graduação. Hoje, lidera projetos e equipes dentro da empresa.
Para a profissional, ocupar posições estratégicas é resultado de persistência e qualificação. “Quando conheci a segurança do trabalho, me identifiquei imediatamente. Proteger vidas e garantir que cada etapa da obra seja executada com responsabilidade é o que me motiva”, afirma.
Ela também destaca que conciliar carreira e vida pessoal ainda é um desafio comum para muitas mulheres. “Organização e definição de prioridades são fundamentais. Equilíbrio é um exercício constante”, diz.
Foto: Divulgação
Desafios ainda persistem no mundo feminina
Apesar dos avanços, o caminho para a igualdade de gênero no mercado de trabalho ainda é longo. Relatórios recentes apontam que mulheres continuam recebendo, em média, cerca de 20% menos que os homens no mercado formal brasileiro, mesmo quando exercem funções semelhantes.
Na construção civil, os desafios incluem desde preconceitos culturais até a baixa representatividade em funções operacionais. Ainda assim, especialistas apontam que o crescimento da participação feminina indica uma mudança estrutural no setor.
Em Goiânia, as histórias de profissionais que conquistaram espaço nas obras mostram que essa transformação já está em curso — e que cada nova trajetória contribui para ampliar o protagonismo feminino em uma área que, por décadas, foi considerada exclusivamente masculina.










