Uma denúncia que envolve um possível esquema de turismo sexual e exploração de adolescentes durante a semana do MotoGP em Goiânia abriu uma série de questionamentos sobre a atuação da Prefeitura de Goiânia e o tratamento dado ao caso.
Segundo revelou matéria do jornal O Popular, um relatório produzido dentro da Secretaria Municipal de Políticas para Mulheres, Assistência Social e Direitos Humanos (Semasdh) apontava situações consideradas “preocupantes” relacionadas a festas privadas que poderiam ocorrer durante a realização da etapa brasileira do Mundial de Motovelocidade, de 20 a 22 de março, na Capital.
De acordo com o documento, o relatório foi protocolado no dia 4 de fevereiro no Sistema Eletrônico de Informações (SEI) da Prefeitura de Goiânia. O material trazia relatos sobre a possível organização de eventos voltados ao chamado turismo sexual, com menção inclusive à possibilidade de exploração sexual de crianças e adolescentes, informações essas que teriam sido repassadas por profissionais do sexo atendidas em projetos da própria pasta.
O que chama atenção, porém, é que o documento teria permanecido sem encaminhamento formal por quase um mês. Apenas após questionamentos feitos pela imprensa é que houve a promessa de que o material seria repassado a órgãos responsáveis por investigação e proteção de vítimas.
Falta de ação da gestão Mabel
Diante da gravidade das denúncias, surge uma pergunta inevitável: por que um relatório que menciona possíveis crimes tão graves demorou tanto para ser encaminhado às autoridades competentes? Em casos que envolvem suspeita de exploração sexual de adolescentes, o próprio Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) defende respostas rápidas e articuladas do poder público para evitar riscos ou violações de direitos.
O relatório mencionado aponta que parte das festas privadas seria organizada em residências de alto padrão e condomínios fechados, com a venda de “combos” que incluiriam acesso aos eventos e serviços sexuais. Alguns relatos, ainda segundo o documento, indicariam exigências feitas por clientes, inclusive com aliciamento de crianças e adolescentes, o que configura crime grave no Brasil, com penas de reclusão de 4 a 10 anos, além de multa.
A reportagem do jornal O HOJE buscou esclarecimentos sobre o caso e conversou com o superintendente de Direitos Humanos e Políticas Afirmativas da Semasdh, Eduardo Oliveira. O integrante da pasta afirmou que as informações inicialmente recebidas eram consideradas frágeis e que, por isso, havia necessidade de mais apuração antes de qualquer encaminhamento.
Mesmo assim, após a repercussão do caso, Oliveira explicou que os dados foram finalmente enviados para órgãos da rede de proteção. “As informações foram encaminhadas para a Polícia Civil, para a Delegacia da Mulher, Delegacia da Criança e do Adolescente, Delegacia de Crimes Cibernéticos, além do Ministério Público e conselhos tutelares”, afirmou.
Segundo o superintendente, a secretaria também atua dentro de uma rede de proteção que envolve Centros de Referência Especializado de Assistência Social (Creas), unidades de saúde, conselhos tutelares, delegacias especializadas e canais de denúncia, como o Disque 100 e o 180. Oliveira destacou ainda que ações preventivas devem ocorrer durante o MotoGP, com campanhas de conscientização e distribuição de material informativo em locais de grande circulação, como a rodoviária e o aeroporto.
Denúncia ficou parada
Apesar dessas medidas anunciadas, permanece outra indagação relevante: se o próprio relatório indicava a urgência de apuração, por que o documento ficou praticamente um mês sem movimentação institucional?
Outro ponto que também chama atenção é o fato de que os servidores responsáveis pela elaboração inicial do relatório entraram de férias antes da produção de um segundo documento mais detalhado, o que teria deixado lacunas na investigação preliminar e atrasado o envio de informações mais robustas, segundo a prefeitura.
A reportagem tentou contato com a Polícia Civil de Goiás para saber se já existe investigação formal sobre o caso. No entanto, até a publicação desta matéria, não houve retorno. O Ministério Público de Goiás (MP-GO) também foi procurado pela reportagem e informou que não foi notificado ou recebeu qualquer denúncia sobre o caso.
Diante de um contexto que envolve suspeitas de exploração sexual e possíveis vítimas em situação de vulnerabilidade, especialistas reforçam que a rapidez na comunicação entre órgãos públicos pode ser decisiva para evitar crimes e proteger direitos.
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