Mesmo num cenário dominado pelas plataformas de streaming, o mercado de discos de vinil no Brasil tem mostrado um crescimento consistente e se consolidado como principal formato físico de música, segundo dados recentes do setor fonográfico e líderes de mercado. A busca pelo termo “vinil” cresceu 25% no país na comparação com 2024, de acordo com dados da Sala Digital da Band em parceria com o Google, indicando um interesse crescente tanto de colecionadores veteranos quanto de novos públicos.
Esse movimento faz parte de uma tendência mais ampla: as vendas de formatos físicos de música voltaram a alcançar patamares que não eram vistos desde 2017. Relatórios da Pró-Música Brasil mostram que os discos de vinil representaram mais de 76% do faturamento dos produtos físicos em 2024, superando de forma significativa CDs e DVDs, que juntos responderam por menos de um quarto desse mercado.
Dados econômicos e contexto do setor
O mercado fonográfico brasileiro como um todo vive um momento positivo. Segundo o relatório “Mercado Brasileiro de Música”, o setor faturou mais de R$ 3,4 bilhões em 2024, um crescimento de mais de 20% em relação ao ano anterior, impulsionado principalmente pelo streaming, que respondeu por cerca de 87,6% da receita total. Contudo, as vendas físicas, embora representem parcela pequena (0,6%) do total, registraram forte alta de cerca de 31,5%, com destaque para o vinil.
Especialistas do setor atribuem esse desempenho a uma combinação de fatores culturais e econômicos. Por um lado, há um apelo afetivo e nostálgico associado aos LPs (Long Playing Records), um fenômeno que vem sendo chamado de “economia da nostalgia” e que resgata produtos do passado como forma de experiência de consumo.
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Experiência sensorial e qualidade do som
Além da nostalgia, há razões técnicas e perceptivas que explicam o fascínio pelo vinil entre audiófilos e ouvintes mais exigentes. Enquanto a música em plataformas de streaming passa por compressão digital para otimizar dados e facilitar a transmissão, os vinis mantêm um sistema analógico no qual a música é registrada diretamente nos sulcos do disco. Produtores e historiadores destacam que esse processo proporciona um som mais rico, com nuances que muitos ouvintes consideram superiores ao formato digital.
Essa diferença de percepção não é apenas tema de debate entre entusiastas: observadores do mercado apontam que uma parcela significativa dos compradores de vinil hoje é composta por jovens adultos e até adolescentes, o que indica que a retomada do formato não se restringe aos colecionadores tradicionais, mas também atrai uma nova geração interessada na cultura musical de forma mais integrada e sensorial. Dados globais corroboram essa tendência, com pesquisas apontando que uma grande fatia dos compradores de vinil tem menos de 35 anos, impulsionando o mercado internacional.
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Perspectivas de consumo e oportunidades de negócios
Esse renascimento do vinil também cria oportunidades econômicas amplas. Lojas especializadas e feiras de discos florescem em grandes centros urbanos, como São Paulo, onde uma das maiores lojas de discos da América Latina mantém um acervo de mais de um milhão de exemplares — e relíquias raras podem alcançar preços superiores a R$ 40 mil. Equipamentos originais de reprodução da década de 1970 também se tornaram itens valorizados, com preços a partir de R$ 1 mil, refletindo um mercado que extrapola a simples venda de música e abraça cultura, design, coleção e lifestyle.
No Centro-Oeste – incluindo Goiás e a região metropolitana de Goiânia – o mercado de vinil ainda encontra espaço sobretudo em nichos de consumidores apaixonados por música física. Embora não existam dados oficiais específicos por Estado, comerciantes e apaixonados por discos nessa região relatam aumento em eventos de troca, feiras locais e interesse por colecionáveis. Essa movimentação cria um ambiente favorável para empreendedores culturais, lojas especializadas e iniciativas de revenda ou curadoria musical, que podem capitalizar o crescimento do formato físico.
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Desafios e equilíbrio com o digital
Ainda que o vinil registre crescimento notável, o streaming continua sendo o principal motor econômico da indústria musical no Brasil e no mundo. Plataformas como Spotify, Deezer e Apple Music dominam o consumo, especialmente entre usuários que preferem praticidade e acesso instantâneo a catálogos vastos.
A escolha entre digital e analógico, portanto, envolve trade-offs: conveniência e acessibilidade contra qualidade sonora, experiência tátil e valor simbólico. Para economistas e especialistas em comportamento do consumidor, esse equilíbrio pode sustentar uma indústria mais diversificada, onde diferentes formatos coexistem e ampliam as possibilidades de receita – tanto para gravadoras quanto para artistas independentes, lojas físicas, e empreendedores criativos.










