Pela primeira vez em uma década, os cidadãos de Cuba superaram os venezuelanos no volume de pedidos de refúgio protocolados no País. Apenas no primeiro trimestre de 2025, o Painel da Migração do Ministério da Justiça e Segurança Pública (MJSP) registrou 9.467 solicitações de cubanos, contra 5.794 de venezuelanos. Esse fluxo, impulsionado por uma crise econômica sem precedentes na ilha caribenha, reflete-se não apenas nas fronteiras do Norte, mas também no centro do País, especialmente em Goiás e em sua Capital, Goiânia.
A ascensão da migração cubana é vertiginosa. Em 2021, o Brasil registrava apenas 524 pedidos de refúgio dessa nacionalidade; em 2024, o número saltou para 22.288. Entre janeiro e abril de 2025, o total já alcançava 12.638 solicitações. O perfil desses migrantes é majoritariamente jovem, com maior concentração na faixa etária de 25 a 39 anos (8.113 pedidos em 2024).
A entrada ocorre, sobretudo, pela região Norte, via Bonfim (Roraima) e Oiapoque (Amapá), por rotas que passam pela Guiana e pela Guiana Francesa. Embora muitos utilizem o Brasil como país de trânsito rumo ao Uruguai ou aos Estados Unidos (EUA), o aumento das barreiras migratórias e das deportações em massa nos EUA tem levado um número crescente de cubanos a optar pela permanência em território brasileiro.
Em Goiás, Goiânia tem se consolidado como destino estratégico. Segundo Edu Oliveira, superintendente de Direitos Humanos da Capital, a dinâmica local frequentemente envolve uma “migração secundária”. Ele explica que muitos migrantes não chegam diretamente à cidade: “Desses que eu estou te falando, dos 7,2 mil venezuelanos e 3,4 mil cubanos [dados de janeiro], mais de 50% dos pontos de naturalização estão no relatório… foram para os Estados de São Paulo, Santa Catarina e Paraná. Então, acaba que nós não somos o fluxo. Quando eles vão para São Paulo, depois eles não conseguem ter uma boa situação em São Paulo, eles migram para Goiás”.
Oliveira destaca ainda o papel da prefeitura no acolhimento de migrantes de diferentes nacionalidades, com serviços que vão do abrigamento temporário à assistência alimentar. “Quando essa pessoa chega aqui na Secretaria, ela tem algum nível de vulnerabilidade. Se ela não tem renda, ela vai, primeiro, precisar de abrigamento. A gente tem o trabalho das casas abrigos aqui”, afirma. Ele acrescenta que está finalizando um processo de hospedagem social para ampliar as vagas por meio de uma rede de hotéis credenciados.
Foto: Marcelo Camargo/ABr
Desafios de migrantes no mercado de trabalho e vulnerabilidades
A inserção no mercado de trabalho é apontada como principal fator de dignidade, mas também como ponto crítico de vulnerabilidade. Edu Oliveira alerta para situações de exploração extrema que se aproximam do trabalho análogo à escravidão em Goiânia.
Ele relata o caso de uma cubana atendida recentemente: “Eu recebi uma cubana aqui há dias atrás e ela acabou não querendo formalizar a denúncia de que ela estava trabalhando como diarista e recebendo 60 reais para lavar, passar e cozinhar. Ninguém de nós aqui trabalharíamos mais de 12 horas, que é o que está acontecendo no caso dela, mas ela não quis ofertar a denúncia porque ela estava com medo de perder o dinheirinho que ela tem para garantir a comida da filha”.
Apesar desse cenário desafiador, há iniciativas que apontam caminhos para a inclusão. Um empreendimento do setor hoteleiro na Capital tem se destacado ao empregar formalmente trabalhadores cubanos, contribuindo para a reinserção social desse grupo. Entre eles está Luis Enrique Regueiferos Nieves, médico veterinário que hoje reconstrói a vida atuando na cozinha.
Oliveira também menciona parcerias com o programa Mais Emprego, da Secretaria da Retomada, voltadas à inserção de migrantes na construção civil, além de articulações com a Associação de Migrantes do Estado de Goiás (Amira) para ampliar as oportunidades de trabalho e promover maior autonomia econômica.
Outro gargalo relevante é a convalidação de estudos. Segundo o superintendente, muitos migrantes chegam com alta qualificação, como engenheiros e advogados, mas enfrentam entraves burocráticos para exercer suas profissões. “A nossa ideia é que a UFG e as instituições da rede de Ensino Superior pudessem absorver a convalidação de estudos. Esse é o trabalho que a gente vai fazer”, pontua.
A migração cubana, no entanto, não ocorre de forma isolada. O Brasil segue como destino diverso, com solicitações de refúgio de 129 países em 2024. Entre 2015 e 2024, os principais grupos foram venezuelanos (266.862), cubanos (52.488), haitianos (37.283) e angolanos (18.435).
Em Goiânia, Edu Oliveira observa uma ampla diversidade de nacionalidades. Os venezuelanos continuam sendo o grupo mais numeroso e o que mais demanda assistência estatal (39,8% das solicitações em 2024), com destaque para a situação dos indígenas Warao em contexto urbano. O Estado também recebeu famílias afegãs após a retomada do poder pelo Estado Islâmico, distribuídas por cidades como Aparecida e Trindade, mas que utilizam os serviços da Capital.
Migrantes de países africanos, segundo Oliveira, tendem a se organizar rapidamente para o trabalho. Já o aumento de conflitos no Oriente Médio tem ampliado a presença de novas nacionalidades. Nesse contexto, ele ressalta o papel da mesquita em Goiânia, liderada pelo Sheikh Kamal, como ponto de apoio à comunidade muçulmana e espaço de articulação de demandas, como áreas específicas para sepultamentos religiosos.
No âmbito das políticas públicas, o Brasil tem aprimorado mecanismos de proteção. O Comitê Nacional para os Refugiados (Conare) tem priorizado o princípio da reunião familiar. Desde 2023, o País adota o reconhecimento prima facie para nacionais de países como Afeganistão, Burkina Faso, Mali, Iraque, Síria e Venezuela, com base em grave e generalizada violação de direitos humanos. A medida garante maior celeridade na análise dos processos, especialmente para crianças e adolescentes.
Entre 2023 e 2024, 37.724 solicitações de refúgio foram deferidas nesse contexto de reunião familiar. O dado é significativo para migrantes como o cubano Luis Enrique e a venezuelana Yamile Fajado, que deixaram filhos em seus países de origem e aguardam a regularização documental para reencontrá-los no Brasil.
Atualmente, Goiânia abriga cerca de 4.280 imigrantes estrangeiros, o equivalente a 0,3% da população, oriundos de países como Venezuela, Estados Unidos, Reino Unido, Portugal e Austrália. Para Edu Oliveira, além dos desafios estruturais, há a necessidade de enfrentar o crescimento de discursos xenófobos.
“Os discursos de xenofobia têm crescido também… acha que as pessoas estão para cá por pobreza. Pelo contrário. Nós somos uma sociedade formada e forjada por meio da migração. O nosso papel enquanto Superintendente de Direitos Humanos é trabalhar na conscientização da sociedade para que ela respeite as pessoas e que a gente dê condições dignas de manutenção de vida”, conclui.








