por Carolina Goos
Carolina Goos | Foto Arquivo pessoal
Homens, escrevo esta carta com o peito apertado pela urgência da vida. Não é uma carta de ódio, é uma carta de dor. É o grito de quem observa os números e sabe que, atrás de cada estatística, há um nome, um rosto, uma história interrompida, uma família destruída. E, na maioria das vezes, o autor dessa destruição é um de vocês. É um homem.
Em 2025, o Brasil bateu o recorde histórico de feminicídios: cerca de 1.470 mulheres foram mortas simplesmente por serem mulheres. Quatro assassinatos por dia. Em 2026, começamos o ano com a triste herança de um padrão que não cessa. Em Goiás, o aumento foi de 6% em relação ao ano anterior, somando 59 vidas ceifadas. Em Goiânia, as denúncias na Ouvidoria da Mulher dispararam 38%. As mulheres estão denunciando mais, confiando mais nos canais de ajuda, mas ainda assim, os corpos caem.
E de que mãos caem? Os dados são claros: em 97,3% dos casos, o autor do feminicídio é um homem. 59,4% eram companheiros e 21,3%, ex-companheiros. A morte não vem de um estranho no portão; ela vem de quem dividia a cama, a mesa, a vida. Vem de quem, em muitos casos, tinha uma medida protetiva que não foi suficiente para frear a fúria de achar que a mulher é uma propriedade. São 13,1% das vítimas que morreram sob a proteção que a lei tentou dar, mas que a cultura machista levianamente ignorou.
A violência não começa no feminicídio. Ela começa na fala, no olhar, no controle. A pesquisa da ONG Serenas escancara o berço dessa tragédia: nas escolas, 7 em cada 10 professores ouvem falas machistas de alunos. 42% presenciaram meninos tocando o corpo de meninas sem consentimento. 70% viram a sexualização precoce e forçada. E o que é mais grave: 69% ouviram comentários constrangedores sobre a aparência das alunas, vindos não só de alunos, mas de outros professores. Vocês, homens, estão formando os próximos agressores dentro de sala de aula, muitas vezes com a conivência do silêncio ou com a participação ativa na violência.
Enquanto isso, meninas de 10 a 14 anos, 34.202 delas, aponta o IBGE até 2022, vivem em união conjugal. São crianças obrigadas a ser mulheres, esposas, mães, porque a sociedade admite que homens enxerguem corpos infantis como objetos de desejo. E quando um pastor, como Joilson da Silva Freitas Santos, usa o estudo bíblico para estuprar crianças, ou quando empresário como Samuel Klein, fundador das Casas Bahia, manteve um quarto ao lado da presidência para abusar de meninas de 9 a 16 anos em troca de dinheiro e impunidade, nós precisamos parar e perguntar: que masculinidade é essa que estamos alimentando?
Vejam o que acontece quando a sociedade resolve “punir” um estuprador. A frase é quase sempre a mesma: “Na cadeia ele vira mulherzinha para aprender”. Traduzindo: o castigo para a violência sexual é… a violência sexual. O que usam como ameaça é o nosso medo diário. Vocês entendem o que isso significa? Vocês usam o estupro como piada, como correção, como moeda de troca. E depois se perguntam por que as mulheres têm medo.
Olhem para os homens que ocupam espaços de poder. Temos uma lista extensa de condenados e acusados que seguem sendo acolhidos por partidos que se dizem “defensores da família”. Dado Dolabella, com histórico de agressões, anuncia pré-candidatura “em defesa da família”. Goleiro Bruno, condenado por homicídio triplamente qualificado, diz que “não tem como não ser de direita”. Ex-presidente faz piada com meninas venezuelanas. Deputados, vereadores, atores são presos ou condenados por pedofilia. E seguem. Seguem tendo espaço. Seguem tendo voz. Seguem sendo defendidos.
Enquanto isso, homens como o governador Eduardo Leite culpabilizam as vítimas que não procuram serviços que muitas vezes nem existem. Enquanto isso, um radialista ousou perguntar a Maria da Penha, depois do tiro que a deixou paraplégica: “O que a senhora fez para merecer isso?”.
Pesquisa realizada em 2022 pelo Instituto Avon em parceria com o Fórum Brasileiro de Segurança Pública revelou que a violência doméstica contra mulheres aumenta entre 20% a 26% em dias de jogos de futebol no Brasil. Os dados analisados mostram que, especialmente quando o time joga em casa, crescem os registros de lesão corporal e ameaça. Agora, é importante que seja dito: o futebol não causa violência, mas pode atuar como um catalisador de frustrações e comportamentos agressivos.
O masculinismo que cresce nas sombras da internet e nos discursos de poder prega a superioridade masculina, reage às conquistas feministas e alimenta a ideia de que os homens estão “perdendo espaço”. Mas perder espaço para quê? Para que as mulheres deixem de ser mortas? Para que as meninas possam estudar sem serem assediadas? Para que as alunas possam frequentar a escola sem ouvir piadas dos próprios alunos e professores? Isso não é perda de espaço. Isso é ganho de humanidade.
O presidente Lula disse, no lançamento do Pacto Nacional de Enfrentamento ao Feminicídio: “Pela primeira vez, os homens estão assumindo responsabilidade pela luta em defesa da mulher”. E determinou que o debate seja levado diretamente a vocês. Porque não adianta falarmos entre nós, mulheres, se os agressores são homens. Não adianta criarmos leis se os juízes que as aplicam, muitas vezes, são machistas, como bem lembrou Penha que um dia foi alertada: “Não se iluda, no Poder Judiciário também existem machistas”.
Homens, vocês precisam ocupar esse lugar que interrompa a violência em todas as suas dimensões. Precisam ser a voz que interrompe a piada machista no bar, no trabalho, na academia, no barbeiro, na balada, na igreja. Precisam ser o pai que ensina ao filho que “não” significa “não”. Precisam ser o professor que não permite que suas alunas sejam sexualizadas. Precisam ser o amigo que denuncia. Precisam ser o político que não acolhe agressores. Precisam ser o juiz que aplica a lei com justiça, e não com misoginia.
Nós, mulheres, estamos cansadas. Cansadas de morrer. Cansadas de ver meninas de 9 anos serem abusadas por homens poderosos e eles seguirem ricos e impunes. Cansadas de ver adolescentes de 17 anos serem estupradas coletivamente por conhecidos. Cansadas de ver a violência psicológica se tornar a principal forma de agressão, e ela não deixar marcas visíveis, mas destruir almas.
Nós estamos aqui. Lutando. Denunciando. Ocupando espaços. Mas não vamos conseguir sozinhas. Precisamos que vocês olhem para dentro de si e perguntem: que tipo de homem eu quero ser? O que eu estou fazendo, hoje, para que a mulher ao meu lado viva?
O Ligue 180 é um canal de denúncia. As medidas protetivas existem. As leis ficaram mais duras. Mas nada disso substitui a transformação que precisa acontecer dentro de cada um.
Por mim, pela minha filha, pelas minhas amigas, colegas de trabalho, pelas amigas da minha filha, pelas mães das amigas da minha filha, para as mães dos amigos da minha filha, pelas minhas alunas, por todas as mulheres que já se foram e por todas que ainda podem viver, eu peço:
Olhem para si. Eduquem-se. E nos ajudem a parar de morrer. Com a dor de quem vê os números e abraça as histórias.
Carolina Goos é jornalista










