Com Goiás entrando no período mais crítico da estiagem, o Estado decretou situação de emergência ambiental por 120 dias. A medida, publicada na última sexta-feira (24), ocorre em um cenário de aumento das ocorrências de incêndios em vegetação e de alerta para os próximos meses, quando a combinação entre baixa umidade, altas temperaturas e vegetação seca favorece a propagação do fogo.
Entre 1° de janeiro e 24 de julho, o Corpo de Bombeiros Militar de Goiás (CBM-GO) atendeu 3.323 ocorrências relacionadas a incêndios em vegetação. Desse total, 658 foram incêndios florestais, 626 em áreas públicas e particulares e 32 em áreas protegidas, além de 2.665 incêndios urbanos em vegetação, principalmente em lotes baldios. Segundo a corporação informou a reportagem do O HOJE, a Região Metropolitana de Goiânia concentra o maior número de registros neste ano.
Na avaliação do Corpo de Bombeiros, o Estado permanece em alerta e o decreto tem caráter preventivo. Conforme foi dito pela corporação, o “Super El Niño que está previsto para este ano” deixa o Estado em alerta e “decreto veio para evitar um agravamento nos próximos meses”.
Origem dos focos de incêndio
Além da preocupação com as condições climáticas, os bombeiros apontam que a maioria das ocorrências atendidas têm origem humana. De acordo com a corporação, os incêndios têm atingido principalmente lotes baldios, áreas verdes urbanas e propriedades rurais. Ainda, o principal desafio operacional, tem sido a possibilidade de o Super El Niño intensificar a estiagem e exigir uma capacidade de resposta superior à normalmente empregada.
O decreto autoriza medidas excepcionais para agilizar o enfrentamento dos incêndios durante o período de emergência. Entre elas estão a contratação temporária de pessoal, a aquisição de bens e serviços e outras providências previstas em lei. A norma também mantém suspenso, entre 1° de julho e 31 de outubro, o uso do fogo em vegetação em todo o território goiano, preservando apenas as exceções previstas na legislação para povos indígenas, comunidades tradicionais e agricultores familiares, mediante comunicação prévia à Semad.
Medida prevê ações emergenciais para enfrentamento dos incêndios (Foto: Marcelo Camargo/ABr)
Embora considere o decreto tecnicamente justificado diante das condições climáticas, a coordenadora do Movimento Nacional ODS Goiás, Raquel Pires Sales, afirma que a medida não resolve um problema que se repete todos os anos.
“O decreto deve ser entendido como necessário, mas não suficiente. Como o período de estiagem é previsível e recorrente, Goiás precisa de planejamento, orçamento, brigadas, fiscalização e educação ambiental durante todo o ano. A emergência não pode substituir uma política permanente de prevenção”, afirma ao O HOJE.
A ambientalista destaca que é preciso diferenciar as causas da ignição das condições que favorecem a propagação do fogo. Segundo Pires, queimadas agropecuárias sem controle, limpeza de terrenos com fogo, queima de lixo, bitucas de cigarro, fogueiras, balões e faíscas produzidas por máquinas e redes elétricas estão entre as principais origens dos incêndios.
A especialista lembra ainda que o Ibama estima que cerca de 95% dos incêndios florestais no País tenham origem humana, enquanto estiagem prolongada, baixa umidade, altas temperaturas e ventos fortes ampliam a intensidade e a velocidade de propagação das chamas.
Para o presidente da Associação para recuperação e conservação do ambiente (ARCA), Gerson de Souza Arrais Neto, a decretação da emergência também evidencia a necessidade de maior planejamento. Segundo o especialista afirmou ao O HOJE, “o decreto de emergência é uma medida que deve ser usada para um imprevisto, para uma situação não esperada”.
“Infelizmente, esse decreto mostra que o governo estadual não se preparou para o tempo de calor e o período seco”, afirma.
Os impactos das queimadas, segundo os especialistas, vão além da destruição da vegetação. Incêndios frequentes comprometem a recuperação dos remanescentes do Cerrado, afetam a fauna, degradam o solo, reduzem a disponibilidade de água e agravam problemas de saúde pública relacionados à fumaça.
Cerrado mantém liderança em focos de incêndio
Enquanto Goiás entra no período mais crítico da estiagem, os indicadores nacionais mostram que o Cerrado continua concentrando a maior pressão do fogo no País. Dados do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) apontam que, no primeiro semestre de 2026, o Brasil registrou 19.462 focos de incêndio, alta de 0,96% em relação ao mesmo período do ano anterior.
Desse total, 7.580 ocorreram no Cerrado, que respondeu por 38,9% dos registros nacionais e se manteve como o bioma mais afetado. Em junho, dos 5.209 focos identificados no País, 3.011 estavam no Cerrado, o equivalente a 57,8% do total.
Os números mantêm uma tendência observada também em 2025. Embora a área queimada no Brasil tenha recuado no ano passado para 12,7 milhões de hectares, 31% abaixo da média histórica, o Cerrado permaneceu como o bioma mais atingido pelo fogo. Segundo o Relatório Anual do Fogo, do MapBiomas, ao longo de 2025 foram 8,7 milhões de hectares queimados na região, o equivalente a 69% de toda a área afetada no País. A redução nacional foi influenciada principalmente pela Amazônia, que passou de 15,8 milhões de hectares queimados em 2024 para 3,1 milhões em 2025.
Áreas queimam novamente
Além da concentração dos focos, o estudo aponta que o fogo tem atingido repetidamente as mesmas áreas. O Relatório do MapBiomas, mostra que 66% de toda a área queimada no Cerrado desde 1985 voltou a registrar novos incêndios ao longo do período analisado. Em todo o País, 64% das áreas queimadas sofreram mais de um episódio de fogo, enquanto pouco mais da metade voltou a queimar em um intervalo de até quatro anos.
Outro dado do levantamento mostra que 208,4 milhões de hectares, o equivalente a 24% do território brasileiro, foram atingidos pelo fogo ao menos uma vez nos últimos 41 anos. Amazônia e Cerrado concentram cerca de 86% dessa área acumulada. Nesse período, 71,5% das queimadas ocorreram sobre vegetação nativa. No Cerrado, assim como na Caatinga, Pantanal e Pampa, o fogo atingiu predominantemente esse tipo de cobertura vegetal.
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