Os dois presidentes antes de Luiz Inácio Lula da Silva (PT), Jair Bolsonaro (PL) e Michel Temer (MDB), padeceram de um mal secreto, a solidão do poder. Seus efeitos mais deletérios não aparecem, portanto, quem está no cargo não pode dividi-los. Pelas amostras, parece ser o caso do governador Daniel Vilela (MDB), que ainda tem a sorte de ser candidato à reeleição, o que afugenta um pouco os traíras, pois mantém a expectativa de poder. A solidão maior é do tipo que Bolsonaro sofreu, o interregno entre a derrota no 2º turno e a entrega do cargo, às vésperas de repassar a faixa. Em Goiás, ocorreu apenas uma vez, com José Eliton, que ficou no lugar de Marconi Perillo (PSDB), perdeu ainda no 1º turno e passou quase três meses vendo os ratos fugindo no navio.
Fernando Henrique Cardoso, um raro intelectual a exercer o Poder Executivo brasileiro, “reclamava muito da solidão do poder”. “Isso sim. Isso é insanável. Porque não é a solidão de pessoas. É que não adianta ter um monte de gente em volta, e você não pode partilhar. Porque, em geral, quando vem uma discussão para a mesa do presidente, é porque as pessoas não se entenderam antes, tem ministro brigando. Não vem coisa boa para o presidente. Só vem bola dividida. E a função da Casa Civil é arredondar a bola. Mas, quando eles não conseguem, vem para você, e aí você tem que decidir”, disse em 2011 a O Globo.
Em Goiás, o maior sofrimento foi do médico Henrique Santillo
Em Goiás, o maior sofrimento foi do médico Henrique Santillo, outro intelectual que calhou de exercer mandato Executivo, no caso, o governo estadual. Sua solidão foi de quatro anos, nos quais resistiu levando bordoadas de todas as direções, sobretudo a de seu então partido, o PMDB. Assim como o também médico Ronaldo Caiado teve de enfrentar a pandemia de Covid-19, calhou de ser Santillo o gestor quando ocorreu o acidente com o Césio-137. O fato de os dois administradores serem da área de saúde minorou os danos, a diferença está no tratamento, não dos dois males, mas de um mal maior, a sabotagem política, da qual Daniel tem de correr mais que o Vini Jr. está escapando dos laterais adversários na Copa 2026.
À época de Santillo, Goiás tinha um ministério, o da Agricultura, exercido por Iris Rezende, seu inimigo interno no PMDB. Pela influência no governo federal, Iris travou os três grandes projetos de Santillo: a reconstrução econômica de Goiás pós-Césio, o Programa de Pavimentação Municipal (PPM) e o metrô de superfície de Trindade a Senador Canedo, atravessando Goiânia no leito da ferrovia em que hoje é a Marginal Leste-Oeste. Sarney atendeu seu ministro e não deu aval do Brasil ao empréstimo internacional para fazer o asfalto nas cidades e investir na mobilidade da Região Metropolitana nem mandou verbas para corrigir um problema que um órgão federal causou: cabia à Comissão Nacional de Energia Nuclear o cuidado com a cápsula de Césio, que ficou nos destroços de uma construção no local em que agora é o Centro de Convenções. E a Cnen falhou. Poderia ajudar no pagamento dos estragos. Dinheiro nenhum veio.
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Felizmente para Daniel, ele é o presidente regional do MDB
Felizmente para Daniel, ele é o presidente regional do MDB, que está na base do Governo de Lula, com três ministérios. Ao menos neste ano, não terá grandes problemas com os repasses federais. Um problema é que as obras com dinheiro vindo de Brasília já foram mais do que anunciadas por senadores, deputados, prefeitos e até por vereadores. As realizadas com verba estadual, Ronaldo Caiado (PSD) aproveitou. Não pode criticar Caiado, pois seria suicídio. Nem de Marconi Perillo (PSDB) e Wilder Morais (PL) pode falar mal, pois seu governo já divulgou pesquisas à ufa em que ambos estão perdendo e não é praxe quem está na frente rosnar com quem está atrás, seria até estranho. O que sobra para Daniel? A solidão.
Palácio, qualquer um, o Pedro Ludovico ou o das Esmeraldas, é sempre inabitável. Fernando Henrique diz que o da Praça dos Três Poderes, em Brasília, “é um lugar de muita intriga”. E o outro? “Eu mal conheço o Palácio da Alvorada. Eu conheço a sala onde eu andava, mas o presidente não vai às áreas de trabalho. O presidente anda com um séquito, e não dá. Quando o Lula se elegeu, eu falei com o [Luiz] Gushiken [um dos auxiliares mais próximos do petista], que foi lá, que esse negócio de palácio é complicado, toma cuidado. Porque, se puser muito ministro no palácio, vai dar briga. Não é o ministro que briga, são as equipes. Quanto menos ministro no palácio, melhor.”
Troque-se ministro por secretário e tem-se um retrato do governo estadual
Troque-se a palavra ministro por secretário e tem-se um retrato do governo estadual. Daniel tem ao menos três grandes amigos em sua equipe, Gean Carvalho, José Frederico Lyra Netto e Bruno Rocha Lima. A maioria das quatro dezenas de auxiliares do primeiro escalão ele mal conhece. Não teria coragem nem confiança de contar um segredo. De abrir o coração. Bajulador é mais que mato em jardim. A cercá-lo estão seres que em algum momento já foram inimigos de sua família: caiadistas, que obedecem a Gracinha Caiado (União Brasil) e ao presidenciável Ronaldo Caiado, e antigos marconistas, que se aproximaram por puro oportunismo e, em caso de a oposição vencer, em 1º de janeiro de 2027 serão wilderistas, marconistas ou buenistas desde criancinhas.
Poucos de seus comandados acreditam em êxito de Daniel nas urnas e, ainda menos, na administração. Ele sabe disso. O mentiroso tenta agradar, elogia da boca para fora, porém, o governador sabe que é só puxa-saquice. A solidão é líquida e certa nesse sentido, quando salta em forma de perdigotos no momento em que o aspone está sendo desonesto com o chefe, fala em casa que Daniel é um menino mimado, o Neymar de Jataí, mas quando chega ao Papelute (Palácio Pedro Ludovico Teixeira) ri aquele riso de hiena, o riso do crocodilo ao mastigar a vítima. Essa é a solidão descrita pelo cantor e compositor Alceu Valença, a solidão que é fera, a solidão que devora.
Marconi passou por isso. Caiado passou por isso
Marconi passou por isso como assessor de Santillo. Caiado passou por isso quando era deputado federal e Marconi tomou-lhe os prefeitos. Daniel está passando por isso. Vai ver que a solidão do cargo é mais eficiente que Ozempic e Mounjaro juntos, deixa o sujeito só o bagaço. Tem o posto mais importante do Estado e ao mesmo tempo é um solitário da montanha. Ah, diria alguém que nunca teve qualquer função importante, mas é melhor ser sozinho no poder que acompanhado fora dele, antes ser um vencedor triste que um perdedor alegre.
Não se trata dessa companhia nem do cargo, mas de algo inerente ao poder: quanto mais poderoso, mais só é amigo de si mesmo. Os amigos antigos são vistos como traidores. Conhece vagabundos de última hora e pergunta a si mesmo como não os conheceu antes, pessoas maravilhosas que são. Os olhos vendados pela solidão os impedem de perceber que essas vivandeiras são as mesmas que sorriram para Iris Rezende o riso de hiena, para Marconi o riso do crocodilo, para Caiado o riso da caveira de boi em cima de porteira. (Especial para O HOJE)
