No último domingo (14), a cidade de Goiânia foi atingida por uma tempestade que levou estragos para diversas regiões. O Centro de Informações Meteorológicas e Hidrológicas de Goiás (Cimehgo) registrou o maior volume de chuva em junho desde o início da série histórica, em 1961. Foram superados todos os registros anteriores, inclusive o antigo recorde, registrado no dia 4 de junho de 1988, quando foram contabilizados 47,1 milímetros de precipitação na capital.
A região com maior medição pluviométrica foi o Jardim Guanabara, localizado na Região Norte, com 64 milímetros de chuva. Em segundo lugar vem o Setor Sul, com 50,4 milímetros. Outras regiões que registraram um alto índice foram os bairros Vera Cruz e Leste Universitário, ambos com 44,6 milímetros. Além do grande volume de chuva, o temporal também levou granizo para alguns bairros.
De acordo com a Companhia de Urbanização de Goiânia (Comurg), até as 9h desta segunda-feira (15), foram contabilizados 24 registros relacionados à arborização urbana, sendo 15 quedas de árvores e nove quedas de galhos.
Além do manejo das árvores atingidas, as equipes atuaram na remoção de lama, entulho e outros resíduos carregados pela enxurrada, bem como na limpeza e desobstrução de pontes afetadas pelo elevado volume de água.
Durante a madrugada, os trabalhos das equipes de limpeza se concentraram em pontos da Marginal Botafogo, na Região Noroeste, próximo aos setores Finsocial e Morada do Sol. Também houve atuação em bairros das regiões Oeste e Leste, incluindo os setores João Braz, Goiânia Viva e áreas próximas ao Setor Caiçara.
No restante da cidade, a limpeza urbana se concentrou na remoção de materiais que possam comprometer o escoamento da água e dificultar o trânsito de veículos e pedestres.
Segundo a Defesa Civil de Goiânia, as regiões Oeste e Noroeste da capital foram as mais atingidas, principalmente por quedas de árvores e destelhamentos. O coordenador da Defesa Civil, Robledo Mendonça, confirmou que não houve registro de vítimas ou feridos graves durante o evento climático, mesmo com o alto volume de chuva.
Mendonça explicou que, mesmo sendo atípicas para esse período do ano, chuvas nessa intensidade, o gabinete de crise estava preparado para agir e conter os danos causados. “Quando o Cimehgo informou para o gabinete de crise que estava se aproximando essa tempestade, as equipes, de forma preventiva, se deslocaram para os pontos que apresentam uma recorrência, que é a Marginal Botafogo e a Avenida 87, e ficamos em prontidão para fazer a prevenção no pós-chuva”, comentou.
Além dos danos na cidade, outra ocorrência que chamou atenção aconteceu na Santa Casa de Misericórdia de Goiânia. Imagens gravadas por pacientes mostraram uma das enfermarias alagada após parte do forro ceder em consequência da infiltração provocada pela chuva.
Nas gravações, é possível ver a água invadindo o ambiente e placas de gesso caindo próximas aos leitos. Em nota, a Santa Casa informou que o hospital passa por uma reforma no telhado e que o temporal comprometeu parte da estrutura de proteção da obra, provocando infiltrações e acúmulo de água. A unidade afirmou, ainda, que os pacientes continuaram assistidos normalmente e que os danos serão avaliados para acelerar os reparos necessários.
O fenômeno chamou a atenção não apenas pelos danos provocados, mas também por ocorrer em um período normalmente marcado pela ausência de chuvas. Segundo o gerente do Centro de Informações Meteorológicas e Hidrológicas de Goiás (Cimehgo), André Amorim, embora seja uma situação incomum, não se trata de um evento inédito.
De acordo com ele, Goiânia já registrou episódios semelhantes em outros anos. Amorim lembra que, em 1988, a capital registrou mais de 47 milímetros de chuva em junho e que, em 2025, também houve precipitação no mesmo período.
Parte do forro da Santa Casa de Goiânia cedeu após chuvas intensas – Foto: Reprodução
O meteorologista explica que a chuva dos últimos dias foi resultado do enfraquecimento de um bloqueio atmosférico que vinha impedindo o avanço de sistemas meteorológicos sobre a região. Com a perda de intensidade desse bloqueio, uma frente fria conseguiu avançar e favorecer a formação das tempestades.
Apesar da intensidade do temporal, Amorim afirma que ainda não é possível interpretar o episódio como uma mudança permanente no comportamento climático de Goiás.
“Eu acho que ainda é esporádico mesmo. A gente não pode afirmar, com essa situação, que todo mês de junho vai chover. Ano que vem a gente pode voltar com esse mesmo assunto e não ter caído uma gota d’água”, explicou.
Segundo ele, a tendência é que, após a passagem dessa instabilidade, o estado retorne ao padrão climático característico da estação seca, com redução das chuvas e queda gradual das temperaturas.
Super El Niño deve ganhar força durante segundo semestre
Apesar de o temporal registrado em Goiânia não estar diretamente relacionado ao El Niño, é preciso acompanhar com atenção a evolução do fenômeno no Oceano Pacífico, que pode influenciar o clima brasileiro nos próximos meses.
Segundo o gerente do Centro de Informações Meteorológicas e Hidrológicas de Goiás (Cimehgo), André Amorim, o El Niño já foi oficialmente declarado, mas seus efeitos ainda estão em fase inicial de desenvolvimento.
De acordo com o meteorologista, o fenômeno deve ganhar força ao longo do segundo semestre, e seus impactos tendem a se tornar mais perceptíveis entre agosto e novembro.
“O El Niño ainda está amadurecendo. Os efeitos mais evidentes devem aparecer nos próximos meses”, afirmou.
A principal preocupação é a possibilidade de ocorrência de secas prolongadas, ondas de calor mais intensas e atraso no início do período chuvoso. Amorim lembra que cenários semelhantes foram observados durante o ciclo de El Niño entre 2023 e 2024, quando Goiás enfrentou temperaturas elevadas e dificuldades associadas à falta de chuva.
Os modelos climáticos também indicam a possibilidade de configuração de um chamado Super El Niño, caracterizado por um aquecimento mais intenso das águas do Pacífico Equatorial. Nesses casos, os impactos sobre a circulação atmosférica costumam ser mais expressivos.
Segundo as projeções, o fenômeno pode favorecer a formação de bloqueios atmosféricos sobre o Brasil Central, dificultando a chegada de frentes frias e reduzindo a frequência das chuvas.
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