O escritor e advogado Elson Gonçalves de Oliveira morreu na semana do Natal passado e deixou extensa obra, que vai de romances a livros de história. Num destes, conta que Vianópolis, na região da Estrada de Ferro Centro-Atlântica, tinha fábrica de rádios na década de 1920. É como se o distrito de Jardim Paulista, parte do município de Nova Glória, às margens da BR-153, estivesse desenvolvendo projetos de inteligência artificial, o rádio de um século depois. Para dar ideia do atraso que Goiás vem desenvolvendo, os distritos não têm sequer fábrica de rodo. Os pré-candidatos a governador ainda não disseram como tirar o Estado desse retrocesso.
Numa terra em que a tecnologia caminha igual a caranguejo, exceções como o Distrito Industrial de Anápolis, o Daia, apenas confirmam a regra de não haver indústrias. No ano passado, Goiás mandou ao exterior 13 bilhões e 400 milhões de dólares em produtos. A boa notícia acaba aí: quase US$ 11 bilhões foram tirados do campo. Outros US$ 2 bilhões, em minérios. Mozarlândia, no Vale do Araguaia, exportou em dólares mais que Anápolis, com toda sua pujança farmacêutica e montadora de veículos. O que os políticos têm em mente para acabar com tamanha disparidade? Se têm, não contam nem no confessionário.
Goiás perde até a guerra interna
Para dar ideia do absurdo, Goiás perde até a guerra interna. Nas prateleiras de supermercados da Capital e do interior, as cooperativas de outros Estados superam as goianas em quantidade de itens disponíveis. A Comigo, um orgulho do cooperativismo na América Latina, todo ano faz uma das maiores feiras de tecnologia agropecuária do continente, a Tecnoshow, com quase nada fabricado em Goiás. Rio Verde, que sedia a entidade, é a Capital do Agronegócio no Centro-Oeste brasileiro e sozinha é responsável por quase 1/3 das exportações goianas. Ainda assim, pequenas cooperativas de outras unidades da federação inundam o varejo de Goiás com mais produtos que os feitos por aqui — até óleo de… soja, o grão que o Estado manda in natura para Europa e Ásia alimentarem animais, nem para enviá-la como ração nós servimos.
A Grande Goiânia tem um polo de confecções, sobretudo na Capital e em Trindade, além dos enxovais de Inhumas e das roupas íntimas em Taquaral e Pontalina. Se não bastasse a inundação de muambas vindas de Paraguai, Bolívia e China, o comércio de Região da 44, em Goiânia, enfrenta a concorrência das ruas de comércio popular em São Paulo, das exclusivas para bebês vindas de Recife e as camisas sociais feitas no Peru. Até há alguns anos, a América do Sul vinha em massa comprar na Feira Hippie. Os governadoriáveis não têm nem ideia de como resolver esse imbróglio, inclusive porque seus partidos votaram contra a “taxa das blusinhas”, enfim um imposto justo, talvez por isso tenha durado pouco.
O mármore goiano volta muito mais caro em forma de mesa
O mármore goiano, saído de imensas montanhas em Edealina e tantos outros municípios, vai dali para outros Estados e países sem sequer ser cortado. E volta muito mais caro em forma de mesa e outros móveis e utensílios. É a mesma sina da agropecuária, que não recebe incentivo sequer para fazer latas de omito com a soja, o milho e o algodão. As esmeraldas de Campos Verdes vão para Estados Unidos e Índia, retornam como joias caríssimas. As terras raras de Minaçu são disputadas por diversas potências, nenhuma delas considerando a hipótese de fazer no Norte goiano uma indústria de ponta com os minerais tão específicos.
Não se está a exigir que, de uma hora para outra, deixemos de fornecer grão para a China continental e passemos a concorrer com Taiwan em chips. Porém, Goiás não verticaliza sequer os couros de boi, como nas primeiras décadas do século XX, Formosa, no Entorno de Brasília, era chamada de Formosa dos Couros. Aqui não tem mais fábrica de calçados desses couros. As vísceras deveriam ser transformadas em combustível, como já foi feito em Porangatu, quase na divisa com o Tocantins. Atualmente, se o ritmo de andar para trás continuar, daqui a pouco Goiás vai exportar a vaca em pé, viva, para virar bife na Costa Leste americana. Até as iniciativas mais mambembes foram enterradas, como os polos coureiro-calçadistas de Senador Canedo e Goianira, ambas na Região Metropolitana da Capital.
Havia em Goiás uma “pujante” industrialização de vassouras, rodos e guloseimas
Até as últimas décadas do milênio anterior, havia em Goiás uma “pujante” industrialização de vassouras, rodos e guloseimas como geleias e doce de leite. Tudo bem artesanal, mas no mínimo o sujeito acordava de manhã e ordenhava as vacas para fazer os tachos de doce mais tarde. Agora, 90% das sobremesas vêm de outras paragens. E vassoura aqui só as de bruxas, que estão soltas, pois o maior programa social que existe, o empreendedorismo, que é uma vocação do goiano, foi sepultado por seu antípoda, o programa social propriamente dito, aquele contrário a ganhar o pão com o suor do rosto. Por falar nele, também é enorme a quantidade de produtos de panificação feitos noutros Estados e consumidos em Goiás, que tem quase nada nas gôndolas do Sul-Sudeste. A BR-153, que atravessa Goiás de Norte a Sul, de Itumbiara a Porangatu, é lotada de caminhões, bitrens e cegonhas que cortam o Estado com produtos fabricados do Sul-Sudeste, consumidos aqui mesmo, no Nordeste e no Norte.
Esses veículos vêm carregados de fabris e voltam lotados de commodities. Feliz era doutor Elson, que ainda pegou os bons tempos do rádio. Hoje, o único rádio feito em Goiás é o do braço. O atraso é tamanho que a cultura valorizada aqui é a da soja. E Elson Gonçalves de Oliveira é mais lembrado por ter sido o primeiro prefeito de São Miguel do Passa Quatro do que por sua produção literária.
