A criação de um cadastro estadual de obesidade infantojuvenil nas escolas da rede pública de Goiás pretende ampliar o monitoramento de um problema que já preocupa as autoridades de saúde. Dados da Secretaria de Estado da Saúde (SES-GO) mostram que 35,4% das crianças de 0 a 10 anos acompanhadas pela Atenção Primária à Saúde apresentam obesidade. Ao todo, são 75.867 crianças nessa condição, segundo informações do Sistema de Vigilância Alimentar e Nutricional (Sisvan) referentes a 2025.
Diante desse cenário, um projeto de lei, de autoria do deputado estadual Karlos Cabral (PSB), em tramitação na Assembleia Legislativa propõe a criação de um cadastro de obesidade infantojuvenil nas escolas de ensino fundamental e médio da rede estadual. A iniciativa prevê avaliações antropométricas anuais dos estudantes e a formação de um banco de dados compartilhado entre as secretarias estaduais de Educação e Saúde para subsidiar políticas públicas de prevenção e tratamento.
A proposta estabelece que, nos primeiros 60 dias de cada ano letivo, os alunos sejam submetidos a avaliações individuais que incluam medidas de peso, altura e circunferência da cintura e do pescoço. Com base nesses dados, será calculado o Índice de Massa Corporal (IMC), indicador utilizado internacionalmente para identificar situações de baixo peso, sobrepeso e obesidade.
O cadastro deverá reunir informações como nome, data de nascimento, endereço e contato dos responsáveis, além dos dados antropométricos. As informações serão encaminhadas às Coordenadorias Regionais de Educação e integradas a um banco de dados único do Estado.
Segundo a justificativa do projeto, o objetivo é identificar precocemente crianças e adolescentes com desvios nutricionais e possibilitar intervenções antes que o excesso de peso evolua para doenças mais graves. O texto destaca que a obesidade infantil está associada a problemas como hipertensão arterial, diabetes tipo 2 e outros fatores de risco cardiometabólico.
Os números da própria SES-GO reforçam a dimensão do desafio. Entre as macrorregiões de saúde do Estado, a maior prevalência percentual foi registrada na região Centro-Sudeste, com 37,8% das crianças acompanhadas apresentando obesidade. Já a região Centro-Oeste concentra o maior número absoluto de casos, com 22.271 crianças.
A preocupação não é exclusiva de Goiás. A Organização Mundial da Saúde (OMS) classifica a obesidade como uma doença crônica e multifatorial, influenciada por fatores genéticos, ambientais, comportamentais e socioeconômicos. Em 2022, mais de 390 milhões de crianças e adolescentes entre 5 e 19 anos estavam com sobrepeso no mundo. Desse total, mais de 160 milhões viviam com obesidade.
A OMS também alerta que o excesso de peso na infância aumenta o risco de desenvolvimento precoce de doenças crônicas não transmissíveis, como diabetes tipo 2 e doenças cardiovasculares. Além das consequências físicas, a obesidade infantil pode afetar a saúde mental, o desempenho escolar e a qualidade de vida, estando frequentemente associada a situações de estigma, discriminação e bullying.
Escolas como espaço estratégico para combate a obesidade infantil
A proposta aposta no ambiente escolar como um dos principais locais para identificar e enfrentar o problema. A justificativa do projeto cita estudos que apontam a importância da participação da escola e da família na prevenção e no tratamento da obesidade.
O texto também prevê que escolas integradas ao Programa Saúde na Escola (PSE) possam oferecer orientação nutricional aos estudantes por meio das equipes de saúde vinculadas ao programa.
A iniciativa se soma a outras ações já adotadas pelo Estado. Em 2024, Goiás aprovou a Lei Estadual nº 22.830, que estabelece diretrizes para prevenção e enfrentamento da obesidade infantojuvenil no ambiente escolar, incluindo triagens periódicas, acompanhamento dos estudantes e ações educativas voltadas à alimentação saudável e à prática de atividades físicas.
Além disso, a SES-GO afirma que mantém programas de promoção da saúde e prevenção de doenças crônicas, como o Programa Saúde na Escola, a Academia da Saúde e o Incentivo à Atividade Física nas Unidades Básicas de Saúde.
Embora o cadastro possa ampliar a capacidade de monitoramento da obesidade infantil, órgãos de saúde apontam que o enfrentamento do problema exige ações mais amplas. A OMS destaca que o excesso de peso resulta de uma combinação de fatores, incluindo o consumo frequente de alimentos ultraprocessados, o sedentarismo, o excesso de tempo em frente às telas e a dificuldade de acesso a alimentos saudáveis.
Por isso, além da identificação precoce dos casos, as estratégias de prevenção envolvem educação alimentar, incentivo à atividade física, fortalecimento da atenção primária à saúde e participação ativa das famílias.
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