Um estudo pioneiro liderado pela Universidade Federal de Goiás (UFG) revelou que o monitoramento genético contínuo do vírus SARS-CoV-2 é capaz de prever novas ondas de contágio antes mesmo do aumento real no número de casos e mortes. Ao analisar quase 9 mil genomas coletados em Goiás entre 2020 e 2024, pesquisadores comprovaram que a diversidade genética do vírus funciona como um termômetro para a evolução da pandemia, permitindo que autoridades de saúde se antecipem a crises sanitárias.
O modelo de inteligência epidemiológica, que transformou Goiás em referência nacional, surge agora como uma ferramenta essencial não apenas para a covid-19, mas também para o monitoramento de outras ameaças emergentes, como o recente surto de hantavírus que gerou alerta internacional e registrou casos fatais no Brasil.
A pesquisa foi coordenada pelo professor José Alexandre Diniz-Filho, do Centro de Excelência em Tecnologia e Inovação em Saúde (Ceti-Saúde) da UFG. A equipe utilizou uma abordagem de análise evolutiva contínua, em vez de apenas rastrear variantes já conhecidas e catalogadas pela Organização Mundial da Saúde. Ao todo, foram examinadas 8.937 sequências virais, permitindo identificar três grandes fases de transformação genética acelerada em Goiás.
A primeira grande mudança ocorreu no início de 2021, com a chegada da variante Gama, que provocou um aumento dramático na mortalidade no Estado. O segundo pico, no final de 2021, marcou a entrada da Ômicron, que apresentou o maior salto genético observado na pesquisa, tornando-se a linhagem mais divergente até então. Um terceiro pico de evolução foi detectado no fim de 2023, demonstrando que, mesmo em períodos de aparente estabilidade, o vírus continuava a sofrer mutações significativas.
O diferencial da metodologia goiana foi o uso de métricas como a Distância Filogenética Mediana (MedPD) e a Regressão de Autovetores Filogenéticos (PVR). Essas ferramentas permitiram observar que o aumento da diversidade viral precede os picos epidemiológicos. Na prática, o rastreamento da evolução em tempo real oferece uma “janela de antecipação” ao poder público, possibilitando que decisões políticas sejam tomadas com base em evidências científicas robustas antes que o sistema de saúde seja sobrecarregado.
O estudo da UFG transformou a observação clínica em evidência científica mensurável sobre o impacto das vacinas. Embora a variante Ômicron tenha demonstrado elevada capacidade de escape imunológico e transmissão devido à sua distância genética em relação às versões anteriores do vírus, o número de hospitalizações e óbitos foi significativamente menor quando comparado à onda causada pela variante Gama.
Essa redução na gravidade foi atribuída diretamente à campanha de vacinação, que já havia alcançado grande parte da população goiana quando a Ômicron emergiu. A proteção acumulada reduziu o potencial destrutivo do vírus, rompendo a relação direta entre o surgimento de novas variantes e a alta mortalidade. O estudo reforça que a vacinação, associada ao monitoramento genômico, é a estratégia mais eficaz para reduzir danos e salvar vidas.
Os dados também revelaram que o vírus não se espalhou de forma uniforme por Goiás, acompanhando a geografia humana e os fluxos de deslocamento. Goiânia e a Região Metropolitana funcionaram como principais portas de entrada para novas variantes, que posteriormente se redistribuíam para o interior.
Em contrapartida, áreas com menor densidade populacional, como o norte e o nordeste goiano, registraram menor diversidade genética, indicando circulação mais restrita. Segundo os pesquisadores, ignorar essa estrutura demográfica no desenho de políticas de vigilância representa desperdiçar informações vitais para conter a propagação viral.
Foto: Legado Lima
Vacinação e vigilância genômica fortalecem resposta a novas ameaças
Enquanto o Brasil consolida seu modelo de vigilância para a covid-19, uma nova preocupação sanitária ganhou destaque global: o hantavírus. Recentemente, o navio de cruzeiro MV Hondius protagonizou um surto severo durante uma viagem da Argentina para as Ilhas Canárias, resultando em três mortes confirmadas a bordo.
O desembarque dos passageiros em Tenerife, na Espanha, exigiu uma operação considerada “sem precedentes”, coordenada pela OMS e acompanhada de perto por seu diretor-geral, Tedros Adhanom Ghebreyesus. O risco de contágio para a população geral foi classificado como baixo, mas a gravidade da cepa identificada exigiu protocolos rígidos de isolamento, com passageiros transferidos em ônibus isolados e aviões fretados para quarentena em seus países de origem.
A principal hipótese é de que o surto tenha começado após passageiros visitarem um aterro sanitário na Argentina para observação de aves, local onde podem ter tido contato com roedores infectados. Embora a transmissão entre pessoas seja rara, ela já foi registrada em casos associados ao hantavírus do tipo Andes, justificando o alerta máximo das autoridades internacionais.
O Brasil também enfrenta o avanço da doença. No domingo (10), a Secretaria de Saúde de Minas Gerais confirmou a morte de um homem de 46 anos por hantavírus em Carmo do Paranaíba, no Alto Paranaíba. O paciente teria tido contato com roedores silvestres em uma lavoura de milho. Os sintomas incluíram dor de cabeça, febre, dores musculares e nas articulações, evoluindo rapidamente para o óbito poucos dias após o início do quadro clínico.
Além do caso fatal em Minas Gerais, o Paraná confirmou dois casos da doença em 2026 e investiga outros 11. No Brasil, a hantavirose costuma se manifestar como a Síndrome Cardiopulmonar por Hantavírus (SCPH), uma zoonose viral aguda grave que compromete pulmões e coração.
Diferentemente da covid-19, não existe tratamento específico ou antiviral para o hantavírus, sendo as medidas voltadas principalmente ao suporte médico intensivo. A transmissão ocorre, sobretudo, pela inalação de partículas presentes na urina, fezes e saliva de roedores silvestres infectados.
Entre as principais recomendações de prevenção estão manter alimentos em recipientes fechados e protegidos contra roedores; evitar acúmulo de entulhos e roçar terrenos próximos às residências; ventilar ambientes fechados antes da entrada; e umedecer o chão com água e sabão antes da limpeza de áreas com suspeita de presença de roedores, evitando varrer a seco para não levantar poeira contaminada.
O sucesso do monitoramento realizado em Goiás demonstra que a genômica deixou de ser apenas um recurso auxiliar e passou a ocupar papel central na inteligência epidemiológica. O modelo desenvolvido pela UFG não apenas documenta a trajetória da covid-19, mas estabelece uma estrutura capaz de ser adaptada para monitorar rapidamente a evolução de diferentes patógenos, incluindo vírus emergentes como o hantavírus.
Os pesquisadores destacam que o investimento em sequenciamento genético e monitoramento em tempo real permite que o País não apenas reaja às crises sanitárias, mas consiga antecipá-las.
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