Enquanto o Dia das Mães costuma ser marcado por homenagens e discursos sobre amor e dedicação, milhares de mulheres vivem uma maternidade atravessada por exaustão emocional, dificuldades financeiras, renúncias pessoais e ausência de rede de apoio. Em Goiás, mães atípicas, responsáveis pelos cuidados de filhos com transtornos do neurodesenvolvimento, deficiências ou necessidades específicas, convivem diariamente com uma rotina intensa de terapias, consultas, burocracias e cobranças sociais, muitas vezes de forma solitária.
Para a consultora de recursos humanos Isabelly Rodrigues Guerreiro, mãe de Heitor, diagnosticado com Transtorno do Espectro Autista (TEA), o momento do diagnóstico foi marcado por um profundo luto emocional. Segundo ela, a sensação era de ter chegado ao consultório com um filho e saído com outro. “Foi um processo de luto das minhas expectativas. Depois entendi que elas eram apenas minhas. Quando aquela tempestade passou, o diagnóstico se tornou uma oportunidade de compreender meu filho e descobrir como eu poderia ajudá-lo”, relata.
A partir dali, a vida da família mudou completamente. Pequenas conquistas passaram a ter grande significado. Situações simples, como pedir algo sozinho ou interagir com outras crianças, se transformaram em vitórias comemoradas intensamente. “Coisas que muitos pais comemoram aos dois anos, nós comemoramos aos cinco. Algumas ainda nem conseguimos comemorar. O diagnóstico ensinou que não temos controle sobre o tempo das coisas, mas podemos escolher como reagir”, afirma.
Nos primeiros anos após o diagnóstico, Isabelly interrompeu a carreira profissional e os estudos para se dedicar integralmente ao filho. O afastamento durou quatro anos. Mais tarde, decidiu transformar a experiência em propósito de vida e iniciou o curso de Psicologia.
A rotina de uma mãe atípica vai muito além dos cuidados tradicionais da maternidade. Entre terapias, adaptações escolares e acompanhamento constante, sobra pouco espaço para descanso ou autocuidado. “Construir a autonomia dele foi e ainda é uma das tarefas mais difíceis. O coração da mãe quer fazer tudo pelo filho, mas precisamos preparar essas crianças para serem funcionais e independentes”, explica.
Além da sobrecarga física, existe também o desgaste emocional. A jovem conta que desenvolveu compulsão alimentar durante o período mais delicado do diagnóstico e precisou mudar completamente os hábitos para conseguir lidar com a situação. “Foi um impacto avassalador. Depois entendi que precisava me cuidar para conseguir cuidar dele. Comecei a fazer análise, mudei hábitos e passei a olhar para minha saúde com mais atenção”, relata.
Apesar das dificuldades, ela reconhece a importância da rede de apoio. O marido participa ativamente da rotina do filho e os avós ajudam nos cuidados diários. Ainda assim, Isabelly afirma que a sociedade e o mercado de trabalho continuam tratando o cuidado com crianças atípicas como uma responsabilidade exclusivamente feminina.
Segundo ela, o esposo já enfrentou dificuldades profissionais ao precisar se ausentar para acompanhar as terapias do filho. “As empresas ainda não estão acostumadas com pais atípicos. Quando um pai pede algumas horas para acompanhar o filho, muitas vezes recebe um falso acolhimento e depois acaba dispensado.”
Os custos financeiros também pesam no orçamento familiar. Gastos com escola particular, terapias, deslocamentos e acompanhamento multidisciplinar exigem reorganização constante da renda. “Às vezes precisamos nos desdobrar em dez versões diferentes para dar conta de tudo”, resume.
Para a psicóloga Kelyane Olanda, a maternidade atípica costuma gerar altos níveis de estresse, ansiedade e exaustão emocional pela concentração das responsabilidades sobre a mãe. “Muitas mulheres vivem em estado constante de alerta, com pouco tempo para descanso, vida social ou autocuidado. Isso impacta diretamente a saúde mental e pode desencadear quadros de depressão e burnout”, explica.
A especialista também destaca o chamado “luto simbólico”, vivido por muitas famílias após o diagnóstico. Segundo ela, não se trata de rejeição ao filho, mas da necessidade de ressignificar expectativas idealizadas sobre a maternidade.
“Quando essa mulher consegue dividir responsabilidades, descansar e se sentir acolhida, ela passa a exercer o cuidado de maneira mais saudável. Além disso, uma rede estruturada favorece o desenvolvimento da criança em diferentes contextos sociais”, afirma.
Ela ressalta que mães atípicas frequentemente enfrentam isolamento social, abandonando carreira, vida afetiva e convívio social para se dedicar integralmente aos filhos. Além disso, lidam com preconceito em público, onde comportamentos relacionados ao TEA e outros transtornos são, muitas vezes, julgados como falta de educação.
“Muitas famílias enfrentam filas longas para terapias, dificuldades financeiras e falta de acesso a profissionais capacitados. Cuidar da saúde mental dessas mães também é cuidar diretamente do desenvolvimento dessas crianças”, conclui Kelyane.
Especialistas apontam que rede de apoio, acolhimento e políticas públicas são fundamentais para a saúde mental das mães e o desenvolvimento das crianças – Foto: Isabelly Rodrigues Guerreiro/Arquivo Pessoal
Goiás amplia rede de acolhimento e saúde mental para crianças neuroatípicas
Em Goiás, o debate sobre saúde mental infantil e inclusão também tem avançado nas escolas. Recentemente, a Câmara Municipal de Goiânia aprovou o Projeto de Lei 240/2025, que cria o Programa de Atendimento em Saúde Mental Escolar (Pasme), voltado ao acolhimento de estudantes com transtornos neuropsiquiátricos e emocionais.
A proposta amplia a discussão sobre o papel das escolas na identificação precoce de crianças com TEA, TDAH, ansiedade e outros transtornos. Atualmente, a rede municipal de Goiânia atende cerca de 120 mil estudantes, sendo aproximadamente 8,5 mil vinculados à Educação Especial.
Além da atuação nas escolas, o Governo de Goiás tem ampliado a rede de atenção às pessoas com TEA por meio da Secretaria de Estado da Saúde (SES-GO), fortalecendo o atendimento especializado no Sistema Único de Saúde (SUS) e expandindo o acesso a serviços multiprofissionais em diferentes regiões do Estado.
A rede estadual é formada por policlínicas, hospitais e centros de referência que atuam de maneira integrada em áreas como reabilitação, saúde mental e neurodesenvolvimento. Entre as unidades de destaque está o Centro Estadual de Reabilitação e Readaptação Dr. Henrique Santillo (Crer), que acompanha cerca de 200 pacientes com atendimento multiprofissional voltado ao desenvolvimento funcional, cognitivo e social.
O Centro Estadual de Atenção Prolongada e Casa de Apoio Condomínio Solidariedade (Ceap-SOL) também integra a rede, oferecendo acompanhamento terapêutico contínuo e ações de inclusão social para crianças e adultos com autismo.
Já o Complexo de Referência Estadual em Saúde Mental Professor Jamil Issy (Cresm) realiza cerca de 160 atendimentos mensais voltados a pessoas com TEA, com suporte de psicólogos, terapeutas ocupacionais e fonoaudiólogos.
No interior, as Policlínicas Estaduais de Formosa e São Luís de Montes Belos ampliam o atendimento descentralizado para casos de TEA, TDAH e transtornos comportamentais, oferecendo suporte multiprofissional para famílias fora da Capital. (Especial para O HOJE)
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