A advogada Carolina Câmara Carvalho Bandeira Martins, de 28 anos, afirma estar sendo vítima de perseguição por parte do ex-namorado, identificado como Gabriel Bessa, mesmo após a concessão de medida protetivas. Em entrevista ao O Hoje, ela relatou ter registrado 12 boletins de ocorrência entre setembro de 2025 e março deste ano, denunciando episódios de agressão e sucessivos descumprimentos das determinações judiciais.
Segundo Carolina, “mesmo com a medida protetiva deferida desde setembro, após a prisão em flagrante do agressor, as violações nunca cessaram. Pelo contrário, se tornaram recorrentes”. Ela explica que, em novembro, diante dos reiterados descumprimentos, foi determinada a utilização de tornozeleira eletrônica, além da disponibilização do botão de pânico. Ainda assim, afirma que “a realidade enfrentada está muito distante do que se espera dessas medidas”. A advogada relata que foi informada de que, em Goiás, existem apenas 600 dispositivos disponíveis, o que a obrigou a aguardar em fila, mesmo em situação de risco. “As aproximações indevidas sempre ocorreram com frequência quase diária. Nos últimos dias, a situação se agravou: o agressor passou a circular, principalmente durante a madrugada, por locais que fazem parte da minha rotina, como minha residência e meu ambiente de trabalho, demonstrando total desprezo pelas determinações judiciais”, disse.
Ela afirma que, em todos os momentos, ficou evidente que as medidas adotadas não foram suficientes para garantir sua segurança. “Sim. Em todos os momentos ficou evidente que as medidas não estavam sendo suficientes para garantir a minha segurança”, declarou. Carolina destaca que, além da medida protetiva de distanciamento e da proibição de contato, o agressor também deveria cumprir recolhimento domiciliar no período noturno, fins de semana e feriados, o que não teria ocorrido. “Essas determinações nunca foram efetivamente cumpridas. Em várias ocasiões, a polícia penal esteve na residência dele nos horários estabelecidos e ele não se encontrava no local”, afirmou.
“Mesmo com medida protetiva, as violações nunca cessaram”
Ela também relata falhas na resposta às violações. “Houve situações em que meu botão de pânico foi acionado nas proximidades da minha casa aos finais de semana. Mesmo com essas violações sendo formalmente comunicadas às autoridades, fui informada de que a providência adotada seria apenas uma advertência verbal”, disse. Segundo a advogada, mesmo com os registros, a medida de recolhimento domiciliar acabou sendo revogada. “Posteriormente, mesmo sendo informado no processo acerca das violações, a medida de recolhimento domiciliar acabou sendo revogada, em decisão judicial sob alegação de ‘bom comportamento’”, completou.
“Desde o início, existiam diversos sinais de que se tratava de um relacionamento abusivo, embora, naquele momento, muitos deles tenham sido relativizados por mim”, disse. Entre os principais indícios, ela cita o isolamento. “Um dos primeiros foi o isolamento: houve um afastamento da minha família e dos meus amigos. Inclusive, muitos deles, ao perceberem a situação que eu estava vivendo, tentaram intervir, mas, diante da minha permanência no relacionamento, acabaram se afastando”, relatou.
Ela também destaca a importância de investigar o histórico do parceiro. “Outro ponto importante, que hoje considero essencial, é a verificação do histórico da pessoa. Grande parte dos processos judiciais são públicos, e a consulta ao nome do companheiro revela informações relevantes que não devem ser ignoradas”, afirmou. Carolina ainda ressalta que a violência doméstica evolui de forma gradual. “Além disso, a violência doméstica, no meu entendimento, não começa de forma extrema, ela evolui gradativamente. Começa com pequenas agressões, como beliscões, empurrões, tapas, e vai escalando para níveis cada vez mais graves”, explicou. Segundo ela, esse processo pode levar à normalização das agressões, somado a comportamentos como controle, inversão de culpa e tratamento de silêncio.
Após a repercussão do caso, a advogada afirma que houve mudança na postura das autoridades. “Com certeza. Diferentemente do que eu vinha enfrentando desde setembro, após a repercussão do caso, houve uma mudança significativa na postura das autoridades”, disse. Carolina relata que houve maior atuação das forças de segurança. “A Polícia Militar foi verificar o que estava acontecendo, assim como a Guarda Civil Metropolitana também demonstrou maior atuação”, afirmou. Ela também menciona que tomou conhecimento de uma manifestação do Judiciário. “Além disso, tomei conhecimento, pelas redes sociais, de que o Tribunal de Justiça do estado de Goiás divulgou uma nota explicativa sobre o caso”, declarou.
Apesar disso, ela questiona o motivo da mudança. “O que isso me faz questionar é justamente o motivo dessa mudança. Por que somente após a exposição o meu caso passou a receber a devida atenção?”, pontuou. Para Carolina, a visibilidade não deveria ser um fator determinante. “Fica a reflexão: é necessário que a vítima tenha visibilidade, ou até mesmo uma determinada posição social, no me4u caso como advogada, para ser efetivamente ouvida?”, questionou. Ela reforça que a denúncia deveria ser suficiente para mobilizar o sistema. “A denúncia, por si só, deveria ser suficiente para mobilizar o sistema de proteção. Ela não pode depender de repercussão pública para ser levada a sério”, afirmou. Por fim, conclui: “Nenhuma mulher deveria precisar se expor dessa forma para ter garantido aquilo que já é um direito básico: proteção e segurança”.
Defesa do ex-companheiro
Em nota, a defesa de Gabriel Bessa afirmou que recebeu com surpresa as declarações divulgadas, destacando que o processo ainda está em fase de instrução, com audiência prevista para maio de 2026.
Segundo os advogados, desde setembro de 2025 não há registro de episódios concretos que comprovem o descumprimento das medidas protetivas. A defesa sustenta que as denúncias apresentadas foram devidamente apuradas, mas não reuniram elementos suficientes para o prosseguimento das investigações.
Os representantes também argumentam que interações indiretas, como visualizações em redes sociais, não configuram tentativa de contato. Além disso, ressaltam que a própria denunciante, em momento posterior, chegou a solicitar a revogação das medidas protetivas, após o arquivamento de apurações relacionadas ao caso.
O processo segue em tramitação na Justiça.
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