O professor da Escola de Veterinária e Zootecnia (EVZ) da Universidade Federal de Goiás (UFG), Victor Rezende Moreira Couto, foi demitido após ser considerado culpado em um processo administrativo disciplinar (PAD) que investigava denúncias de assédio sexual e moral.
Cerca de sete estudantes da instituição denunciaram o docente em 2023, quando ele chegou a ser afastado das atividades. A demissão, no entanto, foi publicada apenas no fim de fevereiro deste ano, cerca de três anos após o início da apuração sobre a conduta do professor.
Investigação foi aberta em 2023
O PAD foi instaurado pela então reitora da UFG, Angelita Pereira de Lima, no dia 2 de maio de 2023, quando foi criada uma comissão para apurar possíveis responsabilidades administrativas e analisar fatos relacionados às denúncias.
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A comissão recebeu prazo inicial de 60 dias para conclusão dos trabalhos. No dia seguinte à abertura do processo, foi determinado o afastamento preventivo do professor, também pelo período de 60 dias.
Apesar disso, ele retornou às atividades em sala de aula após abril de 2024, após decisão judicial favorável à defesa.
MEC determinou a demissão
No dia 26 de fevereiro deste ano, foi publicada no Diário Oficial da União (DOU) uma decisão do Ministério da Educação (MEC), assinada pelo ministro Camilo Santana, determinando a demissão do docente.
Segundo o documento, ele foi considerado culpado por violação do dever funcional, por não manter conduta compatível com a moralidade administrativa e por valer-se do cargo para obter proveito pessoal em detrimento da dignidade da função pública, além de praticar incontinência pública e conduta escandalosa na repartição.
Denúncias partiram de grupo de estudantes
A advogada Patrícia Luiza Moutinho Zapponi, que prestou auxílio jurídico às estudantes que denunciaram o professor, afirmou que uma das vítimas reuniu outras alunas para formalizar a denúncia junto à Ouvidoria da UFG e à Delegacia Estadual de Atendimento Especializado à Mulher (Deaem).
Segundo ela, as denúncias envolvem estudantes de diferentes períodos.
“São sete estudantes de épocas diferentes, que passaram pela mesma coisa e foram desacreditadas. Foi um longo processo, uma longa batalha, fora que não acreditávamos que conseguiríamos. Mas conseguimos”, afirmou.
De acordo com a advogada, um dos casos mais antigos relatados teria ocorrido por volta de 2016. Os episódios envolveriam estudantes de graduação e de doutorado.
A maior parte das situações teria ocorrido no Centro de Pesquisa em Pecuária Extensiva da UFG, localizado em São Francisco.
Relatos apontam comportamento recorrente
Segundo relatos reunidos durante o processo, o professor organizava confraternizações na fazenda onde ocorriam atividades acadêmicas e, nesses momentos, teria se aproveitado de alunas.
Uma profissional que teve contato com algumas vítimas e preferiu não se identificar disse ter tomado conhecimento dos casos em 2023.
De acordo com ela, diferentes estudantes relataram comportamentos semelhantes por parte do docente, que insistia em investidas e abordagens inadequadas.
Depoimentos relatam tentativas de abuso
Em um dos processos judiciais envolvendo duas vítimas que solicitaram medidas protetivas de urgência, consta um depoimento prestado à Defensoria Pública do Estado de Goiás (DPE-GO) em março de 2023.
A estudante relatou que os assédios começaram quando ela ainda estava no início da graduação em Zootecnia. Em uma ocasião, após uma atividade acadêmica na fazenda, o professor teria parado o carro e sugerido que mantivessem relação sexual, tentando beijá-la à força.
Segundo o relato, situações semelhantes ocorreram em outras ocasiões, inclusive durante atividades acadêmicas no local.
Em outro depoimento, uma estudante que ingressou no curso de Agronomia em 2018, aos 17 anos, afirmou que começou a se encontrar com o professor durante atividades de um grupo de pesquisa no mesmo centro experimental.
Ela relatou que o primeiro episódio de assédio teria ocorrido em dezembro de 2021, durante uma confraternização do grupo.
Vítimas obtiveram medidas protetivas
Segundo os relatos apresentados no processo, as investidas continuaram mesmo após negativas das vítimas. Em determinado momento, uma das estudantes afirmou ter aceitado manter relações com o docente após se sentir pressionada por um comportamento que classificou como manipulador.
Posteriormente, ela iniciou um relacionamento com outro aluno do grupo de pesquisa e conseguiu se afastar do professor.
As duas estudantes obtiveram medidas protetivas de urgência, válidas desde março de 2023 e com prazo indeterminado.
Professor chegou a voltar às atividades
Durante o andamento do processo, o docente obteve em abril de 2024 uma decisão judicial que permitiu seu retorno às atividades na universidade.
Ele havia sido afastado após o início do processo administrativo disciplinar.
Em nota, a UFG informou que ainda não foi notificada oficialmente pelo Ministério da Educação sobre a decisão de demissão.
“Somente poderá haver manifestação após a devolução oficial do processo pelo Ministério”, informou a instituição.
O professor não foi localizado pela reportagem até o fechamento da matéria, assim como o advogado que o representava no processo relacionado às medidas protetivas.
Ex-aluna relata assédio moral
Uma ex-aluna do curso de Zootecnia, que também preferiu não se identificar, relatou ter sofrido assédio moral por parte do professor durante a pós-graduação iniciada em 2017.
Segundo ela, o docente passou a fazer humilhações e ameaças a partir do ano seguinte.
“Me chamava na sala dele para me mandar ir à m*, falar que não seria contratada por nenhuma empresa, que faria o possível para isso. Saí com um dano psicológico absurdo”, afirmou.
A estudante disse que chegou a acreditar nas críticas após repetidas falas do professor. Ela afirma ainda que teve prejuízo acadêmico quando parte de um experimento que havia desenvolvido foi repassada a outro aluno.
Ao comentar a demissão, ela disse sentir alívio com a decisão.
“Finalmente a justiça foi feita. Mas diante de tudo, ainda acho pouco”, concluiu.










