Aos 33 anos, Roberta Rodrigues já enfrentou cinco episódios de tetraplegia ao longo da vida causados por uma doença neurológica rara. Em uma conversa ao G1, ela relembrou o desafio de precisar interromper estudos, carreira e projetos diversas vezes por causa das crises, mas destacou que sempre tentou aproveitar os períodos de recuperação para seguir em frente com seus objetivos.
Formada em fisioterapia pela Universidade Estadual de Goiás (UEG), Roberta contou que muitas vezes precisou correr contra o tempo para realizar seus planos antes que uma nova crise surgisse. “Na faculdade, eu perdi dois anos. Na residência eu perdi dois anos. Então são anos que não voltam, que eu perco em cima de uma cama. E a sensação é que a minha vida inteira foi assim: ou eu estava doente ou estava correndo atrás do meu futuro de forma acelerada”, afirmou.
Ela ressaltou que, apesar das dificuldades, o esforço sempre trouxe resultados. Como exemplo, mencionou a aprovação em três concursos públicos em primeiro lugar, incluindo um federal, conquistada após períodos intensos de estudo entre as crises.
Roberta também destacou as barreiras sociais que enfrentou ao longo da vida. Natural de Santa Fé de Goiás, cidade com cerca de 5 mil habitantes, e vinda de família humilde, ela estudou sempre em escolas públicas.
“Além de vir de escola do interior, de ter estudado a vida inteira em escola pública e ter vindo de família pobre, ainda teve a questão da doença. Então sempre tive que correr muito mais do que as outras pessoas”, declarou.
Descoberta e progressão da doença
A primeira crise aconteceu em 2008, quando Roberta tinha 15 anos. Segundo ela, poucas horas após tomar a vacina contra febre amarela, começou a perder os movimentos das pernas.
Após ser internada em Goiânia, recebeu o diagnóstico de Síndrome de Guillain-Barré, uma doença autoimune que faz os músculos deixarem de responder aos comandos do sistema nervoso, podendo afetar até o diafragma, responsável pela respiração.
“Eu fui paralisando tudo até que tive minha primeira parada respiratória e fui para a UTI. Fiquei entubada”, contou.
Fisioterapeuta enfrenta tetraplegia e supera doença rara. Foto: Arquivo pessoal/ Roberta Rodrigues
Durante o tratamento, Roberta apresentou insuficiência respiratória e precisou passar por sessões de plasmaférese, procedimento que filtra o sangue para conter o avanço da doença. O quadro foi considerado grave.
Com o passar dos anos, as crises voltaram. Diferentemente do que ocorre na maioria dos casos de Guillain-Barré, em que há recuperação após a fase aguda, Roberta passou a apresentar novas recaídas e episódios de fraqueza persistente.
Laudos médicos mais recentes indicam que o diagnóstico evoluiu para Polineuropatia Inflamatória Desmielinizante Crônica (CIDP), uma forma crônica da doença em que o sistema imunológico passa a atacar as próprias células nervosas, provocando perda de força muscular.
A fisioterapeuta Júlia Chaves, especialista em traumato-ortopedia e desporto, explicou à repórter Mariana Guimarães que a CIDP é um distúrbio neurológico autoimune. “A perda da bainha de mielina faz com que os impulsos nervosos fiquem lentos ou sejam interrompidos, o que causa fraqueza muscular, dificuldade de locomoção e até problemas no controle da bexiga”, afirmou.
Atualmente, Roberta convive com fraqueza nos quatro membros, faz uso contínuo de medicações específicas e precisa manter um processo intenso de reabilitação.
Preparo físico e tratamento
Antes de adoecer, Roberta já mantinha uma rotina ativa. Ela praticava capoeira desde a adolescência e, ao longo dos anos, continuou se dedicando a atividades físicas sempre que recuperava os movimentos, principalmente à corrida.
Segundo ela, todas as crises tiveram recuperação total da mobilidade, algo que acredita estar relacionado ao preparo físico e ao conhecimento técnico adquirido na fisioterapia. “Eu sempre treinei muito para quando viesse a crise eu ter o que gastar”, enfatiza.
Atualmente, Roberta utiliza um medicamento que atua no sistema imunológico para reduzir os ataques do próprio organismo contra o sistema nervoso. O tratamento passou a ser feito de forma preventiva, com aplicação a cada seis meses. “Os médicos acreditam que agora, tomando de forma preventiva, eu não vou ter mais crises”, disse.
Desde a última crise, registrada em janeiro de 2025 após contrair Covid-19, Roberta segue em processo intenso de reabilitação. Mesmo diante das limitações, ela mantém uma rotina ativa, conciliando estudos, produção de conteúdo nas redes sociais e projetos voltados ao cuidado e à saúde da mulher.
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