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Condenação por morte de jovem em Goiânia expõe avanço do feminicídio no estado

Administrador Por Administrador
12 de fevereiro de 2026
Em Cidades
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Condenação por morte de jovem em Goiânia expõe avanço do feminicídio no estado

Ellen Cristina Caetano tinha apenas 19 anos. Trabalhava como atendente em uma distribuidora de bebidas em Goiânia quando decidiu trocar de lugar com uma colega que havia sido ameaçada por um cliente. O gesto foi de coragem e custou sua vida e a levou a ser vítima de feminicídio. No dia 12 de maio de 2025, o homem voltou ao estabelecimento, discutiu com ela e a atacou com golpes de faca. 

Câmeras de segurança registraram a brutalidade. Neste mês de fevereiro de 2026 o acusado foi condenado a 15 anos de prisão por homicídio duplamente qualificado. Para a mãe de Ellen, Marilene do Carmo Caetano, a sentença trouxe “um pouco de alívio”, mas não apaga a dor da perda.

O caso da jovem não é isolado. Ele se soma a uma estatística que cresce de forma silenciosa e persistente. Em Goiás, mesmo com a queda de outros índices de criminalidade, o feminicídio segue em alta. Em 2025, o Estado registrou 59 casos, aumento de 6% em relação ao ano anterior. Quando comparado a 2018, o crescimento chega a quase 64%. 

No Brasil, a média é ainda mais alarmante: cerca de quatro mulheres são assassinadas por dia por razões ligadas à condição de gênero. E, por trás de cada número, há famílias atravessadas pela mesma ruptura: planos interrompidos, filhos sem mães, e uma rotina que passa a ser marcada por medo, luto e cobrança por justiça.

Além das mortes, milhares de processos de violência doméstica tramitam na Justiça. Somente no primeiro semestre de 2025, Goiás contabilizou quase 30 mil novos processos relacionados à violência contra a mulher, com mais de 45 mil casos pendentes de julgamento. 

O número de ações julgadas não acompanha o volume de denúncias. Essa lentidão não significa apenas atraso burocrático: para muitas vítimas, ela se traduz em risco. Quando a resposta do Estado demora, a mulher segue exposta ao agressor, muitas vezes vivendo na mesma casa ou na mesma vizinhança, tentando manter o trabalho, cuidar dos filhos e “tocar a vida” sob ameaça permanente.

O feminicídio, tipificado no Código Penal desde 2015 e transformado em crime autônomo em 2024, representa o estágio mais extremo da violência de gênero. Ele não nasce do nada. É resultado de uma cultura estrutural que naturaliza o controle, o ciúme excessivo, a posse e a agressividade como expressões de masculinidade. Muitos agressores têm histórico de violência, impulsividade, abuso de álcool ou drogas e comportamento misógino. 

No caso de Ellen, a investigação indicou que o suspeito já tinha passagem por ameaça e por crimes ligados à Lei Maria da Penha, um sinal de que a escalada já estava em curso antes do desfecho fatal.

A história de “Larissa” (nome fictício para preservar sua identidade) revela como essa escalada pode se instalar em silêncio dentro de casa. Ela se casou aos 16 anos e teve uma filha. Durante anos, suportou, agressões e ameaças do companheiro. 

“Eu não saí porque não sabia como sustentaria minha filha”, conta. Sem apoio da mãe, já falecida, e distante do pai, ela se sentia presa. Mesmo assim, decidiu estudar. Enquanto cursava Direito, enfrentou ameaças constantes. “Ele dizia que me mataria se eu denunciasse”, relembra. 

Hoje, formada e atuando como advogada, Larissa está há mais de seis anos longe do agressor. Ela afirma que o suporte familiar e o amparo das instituições foram decisivos, mas faz um alerta: “Quando a mulher não tem rede, ela fica sem chão. E é aí que o agressor se sente dono da vida dela”.

O que está sendo feito para mudar esse cenário em meio ao aumento dos casos de feminicídio?
Congresso discute novas leis contra violência digital e feminicídio, além da liberação do spray de pimenta como medida de proteção às mulheres- Foto:freepik
Diante da escalada da violência, o governo federal instituiu, em 2023, o Pacto Nacional de Prevenção aos Feminicídios. O programa articula ações em três frentes: prevenção primária, com foco na mudança cultural e educacional; prevenção secundária, voltada à intervenção rápida e fortalecimento da rede de proteção; e prevenção terciária, que busca reparar danos e garantir direitos às vítimas. 

O pacto envolve ministérios, Estados e municípios e tenta integrar políticas públicas de segurança, saúde, assistência social e justiça. Na prática, o objetivo é fazer com que a rede funcione sem “buracos”: acolhimento imediato, encaminhamento para proteção, responsabilização do agressor e apoio para que a mulher consiga recomeçar.

Além disso, novas propostas legislativas buscam ampliar a proteção. Uma delas cria diretrizes para combater o discurso de ódio contra mulheres na internet, prevendo um “Modo de Segurança”, que permitiria bloqueios rápidos e redução de ataques coordenados. 

Outras iniciativas discutem o reforço de instrumentos de defesa pessoal e medidas para acelerar denúncias e remoções de conteúdos que incentivam a violência de gênero. O debate cresce porque o problema também se digitalizou: ameaças, perseguições e chantagens migraram para redes sociais e aplicativos, ampliando o alcance do agressor.

Em Goiás, houve aumento expressivo no acompanhamento de medidas protetivas, com crescimento superior a 300% no primeiro semestre de 2025. Isso indica mais monitoramento e mais vítimas buscando o sistema de justiça. Ainda assim, especialistas alertam que a proteção precisa ir além do papel. 

Abrigos, atendimento psicológico, orientação jurídica e autonomia econômica são determinantes para que vítimas consigam sair de relacionamentos abusivos. Para muitas mulheres, o medo maior não é denunciar: é denunciar e depois não ter para onde ir. A possibilidade de recomeçar com segurança longe do agressor ainda é um desafio, especialmente para quem depende financeiramente dele.

A condenação pelo assassinato de Ellen representa um passo importante na responsabilização penal. No entanto, ela também escancara a urgência de políticas que atuem antes que a violência chegue ao ponto irreversível. Cada processo pendente, cada medida protetiva descumprida e cada denúncia ignorada podem significar uma vida em risco. Em um Estado com milhares de casos em tramitação, a resposta precisa ser rápida, integrada e constante porque, para as vítimas, o tempo não é o da Justiça: é o da sobrevivência.

Enquanto os números de feminicídio seguem altos e os processos se acumulam, a principal arma contra a violência ainda é a denúncia. Mulheres em situação de risco podem procurar a Delegacia Especializada de Atendimento à Mulher (Deam), registrar ocorrência em qualquer delegacia ou acionar a Polícia Militar pelo 190 em caso de emergência. O Ligue 180, canal nacional e gratuito, funciona 24 horas por dia, oferecendo orientação e encaminhamento para a rede de proteção.

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