A poucos meses do início oficial da corrida presidencial de 2026, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) avalia adotar um discurso com tom “antissistema” como eixo central de sua estratégia na disputa pela reeleição. A postura representa uma mudança de rota na comunicação do governo, que deve substituir o slogan da “reconstrução”, utilizado desde o início do terceiro mandato, por uma narrativa de enfrentamento às elites econômicas.
A guinada aproxima, em termos retóricos, o petista de uma estratégia explorada pelo bolsonarismo. Desde 2018, o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) e seus aliados utilizam o conceito de “sistema” para atacar instituições, adversários políticos, a imprensa e o Poder Judiciário, ao construir uma imagem de outsider em confronto com a dita política tradicional, mesmo durante os anos em que chefiou o Executivo federal.
Agora, Lula busca disputar esse mesmo terreno simbólico, ainda que com significados distintos. Para o campo petista, o “sistema” passa a ser associado principalmente a grandes operadores do mercado financeiro, bilionários e grupos econômicos defensores de benefícios tributários.
A estratégia do governo Lula também dialoga com investigações recentes, como o caso do Banco Master. Para aliados, o tema permite articular críticas ao poder econômico, que deve ser explorada pelo núcleo petista na eleição.
A resolução da executiva nacional do PT divulgada na última semana reforçou essa linha adotada pelo entorno do presidente Lula, ao associar escândalos financeiros à “promiscuidade” entre mercado e crime organizado. “Os escândalos financeiros, como o do Banco Master e outros, que expõem a corrupção e a promiscuidade entre parte do mercado e o crime organizado, saqueando recursos públicos, a atuação desregulada das big techs disseminando desinformação e ódio político e a permanente ofensiva da extrema direita revelam que a disputa em curso é estrutural”, diz um trecho do documento divulgado pelo partido na última quinta-feira (29/1).
O novo tom já encontra respaldo em integrantes do núcleo político do Planalto, como o ministro da Comunicação, Sidônio Palmeira, e o ministro da Secretaria-Geral, Guilherme Boulos, segundo informações do jornal Folha de S.Paulo.
A mudança na comunicação do governo Lula acompanha medidas e discursos adotados ao longo de 2025, como a ampliação da faixa de isenção do Imposto de Renda (IR) para quem ganha até R$ 5 mil e a defesa da taxação dos super-ricos.
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Prioridades do governo Lula em 2026
Entre as prioridades do governo Lula para 2026 estão projetos de apelo social, como o fim da escala 6×1, programas habitacionais e facilitação no acesso à carteira de motorista. A divulgação dessas iniciativas ficará a cargo, sobretudo, de Boulos, que percorrerá o País pelo programa Governo do Brasil na Rua, que terá edição em Goiânia no dia 26 de fevereiro.
Para o sociólogo João Coelho, a disputa em torno do termo “antissistema” reflete um embate mais amplo pelo controle das versões políticas. “A disputa de narrativas sempre existiu na história. A polarização, por si só, sempre existiu. A diferença é que hoje o controle das narrativas é capaz de mover o pensamento, as ideias e as emoções das pessoas”, afirmou em conversa com O HOJE.
Coelho entende que a extrema direita dominou o discurso antissistema. “Um dos discursos que a direita se apropriou tem sido o antissistema. Acabou elevando, por exemplo, o tom de que a extrema direita não é capaz de fazer conchavos. Na prática, se mostra exatamente o oposto. Ela é antissistema, mas não ante quem realmente tem a hegemonia do sistema econômico, que são os bilionários”, ressaltou.
Delimitar diferenças
João avalia que o campo progressista busca delimitar diferenças. “A concepção de antissistema da esquerda é fazer com que o eleitor diferencie o liberalismo econômico do PT do liberalismo econômico da extrema direita. Ambos continuam no mesmo sistema econômico, mas, para o PT, ser antissistema é atacar parte de uma base econômica que não deixa que haja mais igualdade social”, avaliou.
“O que nós estamos entendendo, na disputa ideológica, é a disputa dos conceitos. E um dos conceitos em disputa é o de antissistema. A esquerda e o PT têm dito que é preciso se apropriar melhor do discurso de mudança social”, frisou o sociólogo.










